Vidas Alternativas 23/03/2015
23 Mar 2015 |

Temas de Beja Santos

A Batalha de Creta, 1941, por Antony Beevor | Beja Santos

A Batalha de Creta, 1941, por Antony Beevor | Beja Santos

Beja Santos

A historiografia contemporânea tem dado provas insofismáveis de adaptação às novas formas de comunicação, faz bem em não competir com o digital, mas abandonou a eloquência um tanto bacoca e os excessos enciclopedistas, relegou para os documentos anexos certas minúcias que podem estragar a empolgante narrativa. Antony Beevor escreve com singular mestria, não há cedências ou fácil, é dotado de um estilo que capta o leitor logo nas primeiras linhas:

“A Batalha de Creta foi muito diferente de qualquer outra travada durante a II Guerra Mundial. Numa estranha mistura de novo e antigo, combinou a primeira e única invasão aerotransportada de uma grande ilha com uma resistência de guerrilha de uma era anterior. E a enorme vantagem do sistema Ultra, o grande avanço em termos de interseção de mensagens, foi fatalmente desperdiçada por um comandante-chefe aliado com uma mentalidade da I Guerra Mundial, incapaz de compreender a revolução operada na forma de travar as guerras modernas. A perda de Creta foi a derrota mais desnecessárias de todas naquele período inicial de humilhação dos Aliados às mãos da Wehrmacht de Hitler. Não é de estranhar que isso a tenha transformado num dos episódios mais controversos da II Guerra Mundial”.

Mussolini procura invadir a Grécia em Outubro de 1940, os gregos resistiram e travaram o avanço aos italianos. Churchill anunciou que ia apoiar a Grécia, Hitler temeu que os britânicos chegassem com a aviação e bombardeassem as jazidas petrolíferas de Ploesti, na Roménia, a sua mais importante fonte de combustível. Hitler tinha outro problema: os britânicos estavam a aniquilar os italianos no Norte de África, havia o perigo de uma hecatombe que podia levar à queda de Mussolini, tudo ficaria comprometido no Eixo e os britânicos de mãos livres no Mediterrânio. Em 1941, tudo se enreda na região balcânica, Hitler prepara a invasão da Grécia a partir da Bulgária, inesperadamente um golpe de Estado antialemão derruba o regente da Jugoslávia, Hitler manda arrasar Belgrado e invade a Jugoslávia.

A chega dos exércitos alemães a Atenas implicam a necessidade de invadir a ilha de Creta, os estudos incitam ao uso das forças aerotransportadas. Elas tinham sido decisivas na captura de uma fortaleza belga em 1940 e no desbaratamento das tropas holandesas. É assim que nasce a operação Mercúrio, invadir e tomar Creta com tropas paraquedistas, o que irá acontecer a partir de 20 de Maio. O general alemão Student irá enfrentar o general britânico Freyberg, que estava completamente informado dos pormenores da invasão.

Antony Beevor cria uma escrita compulsiva que leva qualquer leitor leigo a não desprender a vista desta arrojada operação, de uma batalha violentíssima a que se segue uma resistência grega até ao fim da guerra.

Tudo vai correr mal no início aos alemães, perdeu no primeiro dia cerca de 2 mil homens, entre mortes e desaparecidos, teve 350 aviões destruídos, aquele 20 de Maio de 1941 era a experiência mais sangrenta que tinham tido os alemães até então. Só que no início da madrugada de 21 o general Student arriscou uma ofensiva sobre um aeródromo fundamental que virou completamente a relação de forças. Hitler condecorará Student mas nunca mais apoiará outra grande operação aérea.

O leitor será embrenhado em todos os aspetos confusos e turvos destes dias que culminarão com a retirada por via marítima do contingente britânico. Antes, porém, terá a oportunidade de perceber o contexto da queda da Grécia, de conhecer a espionagem britânica e os seus heróis, a Batalha de Creta começa com a chegada dos contingentes que vieram do rescaldo grego, que não devem ter ficado muito satisfeitos com o espetáculo que os esperava à chegada:

“À entrada da baía, viam-se as ruínas de um castelo veneziano, mas, provavelmente, os evacuados estavam muito atentos ao casco de um pequeno barco a vapor bombardeado pela Luftwaffe. Isto era apenas uma amostra do cenário que os aguardava: chaminés e mastros de embarcações afundadas, um ou dois navios a serem consumidos pelas chamas, como acontecia sempre após um ataque aéreo, e superestruturas danificadas na maior parte dos restantes. O cruzador HMS York estava encalhado na areia, com a popa inundada, depois de um audacioso ataque efetuado pela marinha italiana usando seis pequenos barcos a motor carregados de explosivos. A aldeia de Suda, uma fiada de casas baixas frente ao porto, bombardeadas e abandonadas, não constituía uma visão animadora”.

Começam os preparativos para a resistência, era crucial demolir a invasão logo no primeiro dia. A frota de aviões Junkers 52 vai lançando paraquedistas, antes Creta foi violentamente bombardeada. Tudo parece correr mal nas primeiras horas, os resistentes vão massacrando os paraquedistas alemães que andam perdidos pelos olivais e pelas escarpas. São descrições muito vivas, muito tensas, há para ali detalhes destes dias decisivos que se leem com um só fogo na prosa vibrátil de Antony Beevor. Tudo primorosamente descrito até a resistência e a identificação dos cretenses:

“A batalha contra os paraquedistas mostrara a verdadeira dimensão da coragem cretense, mas o seu estilo guerreiro tinha um cativante elemento teatral. Os anciãos, imperturbáveis debaixo de fogo, manuseavam os seus antigos mosquetes fazendo jus à tradição da piada cretense: ‘Fica quieto, turco, enquanto recarrego’. Também tinha algo de picaresco. Em Creta, o foragido gozava de uma nobreza histórica, tal como o contrabandista na Andaluzia era visto como a figura heroica do cavaleiro andante, pronto a matar um tirano local. O sentido da honra e o sentido da justiça estavam firmemente interligados nos cretenses. Aqueles que ofendiam as gentes de uma aldeia eram banidos sem delongas. Esses párias eram os mais propensos a converterem-se em traidores, uma pequeníssima minoria. Os alemães ofereciam-lhes a liberdade em troca de se infiltrarem em comunidades suspeitas de ajudar os britânicos. Fingiam ter fugido de uma rusga alemã efetuada no seu bairro e, graças à generosidade cretense, eram albergados e alimentados. O único risco que eles corriam era quando alguma pessoa conhecida passava pela área”.

Será uma luta sem tréguas até aos últimos dias da ocupação. Os historiadores debatem-se ainda hoje sobre o real significado desta batalha. Uma coisa é certa: Estaline andará convencido que Hitler faz crescer os seus exércitos para sufocar os britânicos no canal Suez e chegar às jazidas petrolíferas iraquianas. Em Junho de 1941, debaixo de um vendaval de fogo, inicia-se a invasão da URSS com a operação Barba Ruiva. É o princípio do fim de Hitler.

Beja Santos

October 18th, 2017

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