A biografia de Paulo Teixeira Pinto: o regresso do reality show

Beja Santos

O reality show teve a sua época esplendorosa entre os anos 1980 e 1990, a comunicação social descobria que uma vasta falange de seres humanos se oferecia a expor-se, a usar da franqueza, atirando cá para fora confissões da vida íntima, sexo, religião, política, práticas de sadismo, violência doméstica, todo foi aproveitado para o confessionário público, garantiram-se audiências. Depois o reality show entrou em concorrência com sucessivas etapas de Big Brother, as revistas cor-de-rosa não ficaram indiferentes a casamentos retumbantes, divórcios escandalosos, confissões do arco-da-velha. E hoje há jornais diários que alimentam a coscuvilhice e oferecem espaço a toda a espécie de exibicionismos.

Paulo Teixeira Pinto já andou nas bocas do mundo, designadamente quando foi presidente do BCP, parecia ser um jovem banqueiro altamente promissor, até que chegaram as guerras com o seu anjo-custódio, Jardim Gonçalves, que o antecedera, ficara na sombra, rugiu depois quando o jovem banqueiro começou a querer fazer compras de bancos no estrangeiro e a lançar uma OPA sobre o BPI. A comunicação social, com entusiasmo, deu conta dessa guerra de alecrim e manjerona, Paulo Teixeira Pinto viu-se isolado, recebeu uns bons milhões de euros e uma reforma milionária, saiu da banca, deu em editor, criou a Babel, que deu com os burrinhos na água. Em “De que cor é o medo, Uma biografia de Paulo Teixeira Pinto”, por Sílvia de Oliveira, Bertrand Editora, 2017, ficamos a saber num formato de biografia autorizada que há muito mais coisas que podem interessar ao público sobre este senhor que foi colaborador direto de Cavaco Silva, que veio de Nova Lisboa e foi estudante modelar na Faculdade de Direito de Lisboa. Parece que andava remetido ao silêncio, agora conta-se a sua vida desde pequenino até aos projetos em curso. E é alvo de elogios, logo no prefácio por Pedro Abrunhosa, que faz exaltação geológica, com epigramas estratigráficos: “O Paulo já viveu mil anos. É um homem feito das várias camadas do magma da vida. Fundo, com a textura humana da mais telúrica das rochas, aquela que soma á robustez a beleza. Afinal é essa a condição final da humanidade: acumular sedimentos, aluviões, súbitos movimentos forçados pelo encosto alheio, divino ou terreno, fraturas e fusões feitas pela revolução da alma. O Paulo, com a sua tenaz vontade, fabricou a sua própria pedra, roubando ao tempo o protagonismo único que o havia de trazer à profundidade de homem que é”.

Adepto do Futebol Clube do Porto, membro do Opus Dei, estudante de elite, profissional consciencioso, nacionalista, monárquico (chegou a presidir à Causa Real, entusiasta do sebastianismo, sócio do Turf, um clube em exclusivo, casou em 1984 no Mosteiro dos Jerónimos, houve coro gregoriano e missa celebrada em latim, uniu-se a Paula Teixeira da Cruz, união que resistiu a mais de 24 anos de vida em comum. Ficamos a saber que as gravidezes da Paula foram muito complicadas e que os dois filhos da união andaram em colégios da Opus Dei. Ficamos igualmente a saber que havia diferenças ideológicas marcantes entre Paula e Paulo, ele católico fervoroso, de missa diária, de muitas orações, ela agnóstica, ainda por cima republicana, situada na ala esquerda do PSD. O remate na biografia é muito positivo: foi neste ambiente de pluralidade, exigência, confiança, liberdade, amor e admiração que foram educados os dois filhos.

Trabalhador incansável na presidência do Conselho de Ministros, Paulo era independente mas entrou pela mão de Marques Mendes no gabinete de apoio jurídico, perto de Cavaco. Entrou no BCP e tornou-se secretário-geral. Por razões que não interessa explicar aos leitores, Jardim Gonçalves simula uma retirada e apresenta Paulo como a pessoa mais competente para o substituir. Vai começar a guerra, vão formar-se fações, o nosso herói vê-se abandonado vê-se abandonado retira-se daquela liça, sai com uma fortuna e uma reforma invejável, mas nós não temos direito a saber como isso aconteceu.

Passou para consultor, trabalhou com Sampaio da Nóvoa na universidade a compor os estatutos, descobriu novo amor, morreu-lhe o filho e foi-lhe diagnosticado Parkinson. Para que o reality show tenha todo o sabor até o conhecido neurologista Joaquim Ferreira vem fazer confissões sobre a doença do Paulo. O médico chega a dizer que não é forçoso que ele morra mais cedo por causa da doença, ele é alguém diferente da média, do ponto de vista médico as coisas têm corrido bem. Com o avassalar dos sofrimentos, a biógrafa fala no pudor e a contenção de Paulo, e entramos na crise de fé. Vem então uma frase das arábias: “Admite a possibilidade de ter sido o seu coração, ou antes, o seu cérebro, já em défice de dopamina, a prepará-lo para uma revolução da vida, a de passar a viver sem Deus, no qual acreditara, devotamente, desde que se conhece”. Ficamos a saber que um défice de dopamina alavanca uma crise de fé, e quem tudo isto lê terá que se interrogar o que se passa com todos os doentes crónicos, que têm diferentes níveis de défices, cardíacos, de insulina, problemas das vias respiratórias, da coluna vertebral, uma das centenas das doenças reumáticas, e tudo mais que se sabe, terão que admitir que o seu défice de saúde leva a acreditar em Deus ou a rejeitá-lo. Paulo inicia um percurso sem Deus e abandona a Opus Dei, até então andara sempre com o crucifixo, que guardava no bolso ou pousava em cima da mesa de trabalho. Todos os dias, ao meio-dia, rezava o Angelus. Devastado pela morte do filho, encontra consolação no seu novo amor, Mónica, que conhecera em 2006. A coisa aconteceu assim: “O banco alugava jatos privados à empresa de Hipólito Pires, e Mónica, a terminar uma licenciatura em Linguística, na Faculdade de Letras, era na altura, assistente de bordo na Heliavia, um dos maiores operadores europeus de aviação executiva”. Não foi amor à primeira vista, houve uma aproximação aos poucos. Ficaremos sem saber como é que este banqueiro exemplar não descobriu que a Verbo e a Ulisseia estavam completamente no fundo, e diz serenamente: “Foi uma questão de má avaliação. O passivo era muito superior ao estimado. Não coloco as coisas no sentido de ter sido ou não enganado, mas se soubesse que a Verbo estava naquelas condições, não a teria comprado e teria ficado apenas com a Guimarães e a Ática”.

O casal vive para os lados de Tavira, em Santa Catarina da Fonte do Bispo, Paulo trabalha afanosamente na criação do Museu Zero, parece que pinta e faz objetos mas a biografia autorizada é parca em pormenores. Temos também posfácio, reflexões do autor sobre a morte, a eutanásia, a felicidade, a própria colaboração nesta biografia. E mostra-se determinado: “Tenho bem presente que cada dia que passa é um a mais na conta da minha vida, mas também um a menos no número dos que faltam até finalmente chegar o último. E é precisamente por isso que qualquer dia tem de ser vivido ao máximo, com toda a alegria possível”. Uma reflexão profunda que até hoje não fora passada a escrito.

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