A Botica do Real Convento de Thomar | Beja Santos

A Botica do Real Convento de Thomar

 

Beja Santos

 

É uma satisfação folhearmos esta edição do Convento de Cristo, alusiva a uma belíssima exposição que tão cedo não se apagará dos espíritos, pela sua estrutura museológica e museográfica e o valor expositivo das obras de arte expostas. Trata-se do catálogo como é timbre das entidades científicas, juntar textos de investigadores que estiveram associados ao evento e dar um grafismo que torna mais agradável a leitura de um acervo documental riquíssimo. Como escreve Andreia Galvão à guisa de introdução, foi intento da organização uma abordagem multidisciplinar dentro do espaço próprio, convocando o público para a descoberta do mundo secreto das boticas e revelando o papel que esta Botica desempenhou e complexa organização da vida conventual, fica-se com uma visão alargada e pluridisciplinar do universo da cura, dando mais um contributo para a caraterização desta casa monárquica, sua Botica e Enfermaria nos séculos XVII e XVIII. Para explicitar o ambiente, a exposição juntou santos, rezas e amuletos, ex-votos, potes e vasos, vidros e almofarizes que pareciam dialogar com tratados médicos, remédios e produtos secretos, não faltaram as plantas e os conhecimentos da botânica que tiveram um papel relevante nos tratamentos e nas curas. O Convento de Cristo e a sua envolvente imprimiram uma sugestão dinâmica ao objeto primordial da exposição. Os textos dos investigadores tornaram este catálogo um documento de referência para as próximas décadas.

A propósito da Botica, Paula Basso refere no seu trabalho que a de Tomar se inseriu num movimento de implantação de boticas conventuais em Portugal que teve o seu início em plena Idade Média, e se consolidou à medida que as ordens religiosas se foram instituindo no país e fundando os primeiros conventos e mosteiros. O exercício da farmácia e da medicina, e a constituição de boticas, enfermarias e hospitais em ambiente monástico, surgiu como forma de cumprir em pleno as virtudes morais e caritativas do cristianismo, mas também porque se acreditava que, ao cuidador do corpo, se promovia a salvação da alma. Refere mais adiante que os mosteiros destacaram-se no período medieval como locais de excelência na arte de decorar e de estudo, ensino e aprendizagem da farmácia e da medicina. Tendo acesso a todo o conhecimento médico-farmacêutico preservado nas bibliotecas, a obras de vários autores médicos gregos, romanos, bizantinos e árabes, a formação dos monges era elevada e complementada, muitas vezes pela frequência da Escola Médica de Salerno (1075) e dos cursos de medicina nas universidades de Paris (1170), Montpellier (1289) e Coimbra (1290). Contextualizando o que se fazia e como se procurava curar, Paula Basso adianta que as boticas conventuais eram muito frequentadas e a única fonte de assistência médica para os pobres, para além das misericórdias. As farmácias conventuais setecentistas dispunham, ainda, de uma quantidade de medicamentos específicos conventuais que gozavam de muito prestígio. Exemplo disso era o Pó Jesuíta, o Pó Capuchinho, que ganhou uma considerável reputação como exterminador de piolhos e o Pó Cartucho, que se tornou muito estimado pelas suas propriedades eméticas e de desobstrução. Diz ainda a investigadora que a Botica de Tomar registou uma época de riqueza e opulência ocorrida entre os séculos XVI e XVIII, observando-se uma enorme atividade na produção de medicamentos para abastecimento não só dos enfermos enterrados na Enfermaria e dos religiosos da própria Ordem de Cristo, mas também da população de Tomar e dos concelhos vizinhos. Com o início do século XIX assistiu-se a uma decadência técnico-científica da Botica provocada pela destruição do laboratório e das instalações infligidas pelas tropas napoleónicas. Tal decadência científica e do exercício da profissão farmacêutica culminou com a extinção das ordens religiosas em 1834 e na posterior integração na Santa Casa da Misericórdia de Tomar que, apesar de a ter mentido em funcionamento, nunca mais restabeleceu o esplendor de outras eras.

O leitor passa a ter à sua disposição documentos de estudo sobre a faiança existente na Botica, a caraterização do seu acervo cerâmico, qual o espaço da enfermaria, comparando-a com a de Mafra; de forma complementar, o leitor terá acesso à vida conventual na Ordem de Cristo entre os séculos XVI e XIX, como era o jardim da Botica, o papel da Cerca, o aqueduto, a sala da Bela Vista, a paisagem envolvente, plantas e saberes nas práticas de medicina popular em Tomar, os trabalhos de conservação e restauro efetuados em mobiliário, escultura, c metálicos e cerâmica.

De leitura imperdível, catálogo de coleção para investigadores e bibliófilos.

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