A Europa entre 1950 e os nossos dias, numa obra-prima de historiografia

Beja Santos: Ian Kershaw é um nome dominante da historiografia mundial, felizmente que alguns dos seus livros mais importantes estão traduzidos entre nós, caso da biografia de Hitler, mas também “À beira do abismo”, “Europa entre 1914 e 1949”, e é na continuação deste último título que foi recentemente publicado entre nós o prodigioso “Continente Dividido”, Publicações Dom Quixote, 2018. Ele justifica o seu volumoso trabalho: “Ansiei retratar o drama, muitas vezes a incerteza, do desenrolar da história, incluindo ocasionalmente visões contemporâneas dos acontecimentos, os primeiros três capítulos começam com a primeira era de insegurança do pós-guerra, passando das tensões da Guerra Fria para a construção dos dois blocos opostos da Europa Ocidental e de Leste, segue-se a assombrosa e duradoura expansão económica do pós-guerra e das implicações sociais; e como isto explodiu nas manifestações juvenis de fins dos anos 1960 e os mutantes valores sociais e culturais que foram deixados por esse período de revolta estudantil; na continuação, temos uma década-chave, nos anos 1970 e princípios de 1980, estavam a crescer alarmantemente os problemas a leste da Cortina de Ferro, sublinha-se o papel pessoal desempenhado por Gorbachev ao minar involuntária, mas fatalmente, o domínio soviético; como resultado, houve uma revolução de veludo que desencadeou a transição da Europa Oriental para democracias pluralistas e economias capitalistas e o desastroso afundamento da Jugoslávia em guerras étnicas; como corolário novas mudanças na esteira dos ataques terroristas de 2001 e das subsequentes guerras no Afeganistão e no Iraque; enfim explora-se a concatenação de crises que padeceu a Europa desde 2008 e que cumulativamente montam a uma séria crise geral no continente europeu; o posfácio volta-se do passado da Europa para o seu futuro e os problemas que se lhe deparam tanto a curto como a longo prazo numa nova era de insegurança”.

O continente dividido é uma realidade, uma fatalidade e uma oportunidade: duas ideologias em permanente contenda, uma autêntica aberração da geografia que levou à constituição de uma Europa Ocidental com uma economia dinâmica que descobriu as vantagens da cooperação e do livre comércio e de uma Europa Oriental que perfilhava, seguindo a batuta soviética, o modelo de economia planificada. Foram desaparecendo impérios, no Reino Unido, em França, na Bélgica, enquanto as economias se vitalizam a descolonização é um processo inexorável, com muitas dores pelo caminho, caso da Argélia e a humilhação sofrida pela França na Indochina; a Estaline, e às purgas subsequentes, entrou-se na liderança de Khruschev, sujeito a múltiplos desafios, tanto internos como da órbita da Europa Oriental e a nova fase da Guerra Fria, havendo a dissidência jugoslava e albanesa e, pior que tudo, o conflito sino-soviético, que iria marcar definitivamente os caminhos do comunismo à escala internacional.

Kershaw é mestre na essência das análises e na formulação dos resumos, não lhe escapa nada do essencial, compartimenta com clareza a marcha dos acontecimentos, veja-se como ele arruma e contextualiza a prosperidade, a sociedade de consumo, o nascimento e desenvolvimento do Estado de Providência, o nascimento da CEE, as dificuldades surgidas com a crise do petróleo em 1973, dando sequência a um novo processo cultural e político, a novos valores sociais, desde o feminismo à moda.

A tal década charneira vê surgir uma liderança conservadora, a de Margaret Thatcher, que bebia das mesmas águas de Ronald Reagan quanto à necessidade de liberalizar a economia e o sistema financeiro. E a Europa começou a mudar de curso ao mesmo tempo que acontecimentos inimagináveis ocorriam no bloco soviético, Gorbachev nunca supôs que aquela palavra perestroica e o impulso económico que pretendia imprimir a um planeamento que se revelava caduco iria ter consequência na Europa Oriental, as massas populares adormecidas vieram de novo para a rua nos Estados bálticos, na Polónia, na Bulgária, na Checoslováquia, quase sem derramamento de sangue os partidos únicos cederam lugar a parlamentos democráticos, as Alemanhas reunificaram-se sem um tiro, a despeito de um processo altamente humilhante para a antiga RDA que ainda hoje não sarou.

Convulsões atrás de convulsões, desafios atrás de desafios. Mesmo com muitos estremeções o sentimento de identidade europeia tem permanecido como uma ideia e uma aspiração antes que uma realidade, ganhou contornos de conteúdo político, não é ainda algo como a “Europa das Pátrias”, visionada por Charles de Gaulle, nem a entidade supranacional congeminada por Jacques Delors, situa-se como uma entidade singular a meio caminho entre as duas, com as nações que a enformam sempre numa certa agitação, pois recrudesceram movimentos nacionalistas e separatistas que curiosamente não são capazes de abalar a União Europeia. Como observa Kershaw esta identidade europeia enfrenta permanentes obstáculos intransponíveis, é uma Europa que já não pode ser identificada com o Cristianismo, baseia-se em sociedades multiculturais e não há um consenso alargado sobre o futuro da Europa, não há uma resposta única para os grandes desafios. Termina dizendo que à data em que findou o seu livro, em 2017, a Europa estava a entrar numa atmosfera de incerteza e insegurança com maior dimensão do que em qualquer altura desde o rescaldo da II Guerra Mundial: insinuações de extrema-direita, populismo, a crise dos migrantes, a permanente ameaça terrorista, a despeito de sinais de prosperidade. Está por encontrar a resposta para o desenvolvimento de fontes de energia renovável, ninguém ignora que a questão da energia é um problema cada vez mais grave e dá azo a potenciais conflitos. E o historiador lembra que para algumas partes da Europa (incluindo a Alemanha) a dependência do petróleo e do gás repousa na duvidosa boa vontade da Rússia. Somos hoje um continente de democracias, a prosperidade europeia é invejada pelos outros continentes. Quanto ao mais, a única certeza é a incerteza.

De leitura obrigatória, um manual de permanente consulta.

 

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