A Febre das Almas Sensíveis, por Isabel Rio Novo

Beja Santos: Estamos na primeira metade do século XX, o bacilo da tuberculose ainda aterroriza as populações de todas as classes, é temível como a sífilis, estar tuberculoso é esperar pela gadanha da morte. Este romance de Isabel Rio Novo centra-se numa família (hoje chamar-lhe-íamos disfuncional), espreita o espectro da tuberculose e depois seremos encaminhados para a Serra do Caramulo. A narrativa irá aparecer entremeada por esse passado e os escombros do presente, visitados por uma rapariga que coleciona histórias de escritores tuberculosos, o que dará azo a recordar alguns escritores atingidos pela febre das almas sensíveis, caso de Soares de Passos, Júlio Dinis ou António Nobre. Um romance que recupera com inspiração e luminosidade a memória de uma doença esquecida: “A Febre das Almas Sensíveis”, romance finalista do Prémio Leya, por Isabel Rio Novo, Publicações Dom Quixote, 2018.

A narrativa prima pela atmosfera fantasmagórica, pelo cruzar dos tempos e espaços, como se uma alma penada sobrevoasse toda a trama, é de Armando e do Caramulo que se irá falar, ele é peça central e o Caramulo era o sanatório, o último recurso de ricos, remediados e pobres. Fala-se do Dr. Sousa Martins que informou Silva Pinto de que o poeta Cesário Verde estava irremediavelmente perdido, e somos informados que Alice era professora primária, por dever profissional obrigava-a a passarinhar pelo país, daí os seus três filhos terem nascido em Figueiró dos Vinhos, em Peniche e em Buarcos, na década de 1920: Gilberto, Armando e Eduardo, respetivamente. Aparecerão em cena a febre tifoide, aqueles três filhos vão crescendo numa família um tanto desavinda. Nos caminhos deste labirinto impõe-se relevar a aura romântica da doença, se era facto que nos bairros industriais se encontrava a morte nos becos e nas enfermarias coletivas, os intelectuais tinham outra visão: “Os intelectuais romantizaram a doença, que acreditavam ser a expressão poética de uma personalidade sensível e angustiada. Uma doença dos pulmões era uma doença da alma. Um doente isolado pela consumpção, um melancólico desencantado com a vida em sociedade. Os sintomas mórbidos, a febre, a fraqueza, as hemoptises, o delírio, a morte, apenas a tradução violenta de um caráter ensimesmado. A febre dos corpos confundia-se com o fogo das paixões e a exacerbação dos desejos, suscitando lágrimas compadecidas e solidárias”.

A família instala-se em Coimbra, os pais estão mais ausentes que presentes, a higiene da casa é mais do que deficiente, o caráter daqueles três irmãos já está esboçado, Gilberto é pouco dotado, refugia-se na música e na religião, é o submisso à mãe; Armando é o festivo, à procura de todo o rabo de saia, pouco interessado nos estudos; Eduardo quer ser médico, e sê-lo-á. Já estão a viver no Porto, Armando afeiçoa-se a Natália, deste casamento nasce Laura. Os pais divorciam-se e a tuberculose anuncia-se a Armando, ele procura esconder a doença anunciada, procura numa farmácia uma bisnaga de pomada, submeteu-se às filas cansativas de tísicos e familiares de tísicos que iam a um casarão de granito consultar um curandeiro, tomou xarope, até que uma golfada de sangue o chamou à realidade, estava tuberculoso, Laura morre de tuberculose, Eduardo vai falar com o médico, vem o desengano: “Queres toda a verdade? Esta cavidade aqui à direita está sob pressão. Contém ar inspirado que não se consegue expirar. É como um balão cheio de ar, com a borracha tensa. Como ainda não chegou cá a droga para o bacilo de Koch, só poderíamos reduzir a cavidade aumentando a pressão sobre a parede externa do pulmão, para a colapsar, ressecando as costelas e deixando atuar outros fatores atuais: o repouso, o ar puro da montanha, a alimentação saudável.”

Tenta-se a cura nas montanhas, era a esperança do tempo: “Médicos e higienistas empenhavam-se na propaganda da climatoterapia, particularmente em zonas de grande altitude, defendendo que o doente, quando confrontado com o clima frio e seco da montanha, era obrigado a uma ginástica respiratória, provocada pela necessidade de o organismo absorver maior volume de oxigénio, o que se traduziria na maior permeabilidade dos pulmões”. Armando vai para o Caramulo, e se a palavra sanatório não era agradável, o edifício concluído em 1922 era chamado Grande Hotel para Convalescentes. É na beleza desta paisagem que Armando diluía a amargura que o oprimia, tais e tantas eram as dores no peito.

Está tudo centrado neste Caramulo, o resto parecem ondas concêntricas, vamos sabendo de Eduardo e de Natália, daqueles pais disfuncionais, o dia-a-dia do sanatório, como Natália e Armando geram uma nova vida, José Duro e Sebastião da Gama alertam-nos para este sofrimento então incurável, Armando vê-se ao espelho, ali se reflete um rosto esquálido e desfigurado, irá morrer em 4 de maio de 1948, estão a entrar em Portugal novos antibióticos, a estreptomicina e a hidrazina. A estância senatorial do Caramulo começava a entrar em declínio. A vida do clã familiar, prossegue com os seus altos e baixos. E no final da trama narrativa apercebemo-nos de que aquela rapariga que colecionava histórias de escritores tuberculosos e vivia intrigada pelas páginas escritas pelo misterioso “R. N.” tinha a ver com desabafos de um daqueles membros da família, aquela rapariga é a mensageira do passado, atravessa o romance para nos deixar no aturdimento daquelas mensagens de pendor filosófico, numa escrita tão onírica. Ela percorre os destroços do sanatório, vai ao cemitério, desaparece na penumbra. Xavier, o filho sobrevivente de Natália e Armando é o consolo de Eduardo, marca presença para o devir.

O último doente deixou aquele sanatório em 1986, por ali esvoaça a fantasmagoria, não foi por acaso que houve um desfile de literatos românticos e ultrarromânticos: “Tenho a idade indefinida dos fantasmas. Às vezes subo ao topo da serra; em dias sem nebulosidade consigo avistar o mar, a linha longínqua da outra serra, os seus picos enevoados. O lugar mais longe. O lugar mais alto. Penso que não poderia alcançar um lugar mais belo no mundo”.

Isabel Rio Novo confirma ser uma escritora com grande poder imaginativo, original e no uso de uma arquitetura que se inspira num registo de simplicidade despojado da maquinaria pseudocultural.

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