A felicidade na época do vazio e da indiferença

Beja Santos

 Um dos paradigmas da nossa modernidade é um esforço sem tréguas por se viver em amenidade, em apaziguamento, resguardado do espalhafato eletrónico e das complexidades que o comum dos mortais não descodifica de um sistema quotidiano marcadamente hostil. O que não deixa de ser curioso quando vivemos banhados pela modernidade líquida, sinónimo de desprendimento emocional. Vivemos angustiados, ou inquietos, com a garantia da nossa imagem, obviamente que o desenvolvimento pessoal é matéria infindável, queremos comunicar bem, fugir do círculo de tensões, aderindo a grandes projetos coletivos sem grande investimento pessoal, assinando petições, ajudando projetos de cooperação e inclusão social, por exemplo, mas guardando as nossas distâncias, queremos fugir ao sofrimento.

Daí o manancial de obras como “A Arte da Boa Vida, 52 caminhos surpreendentes para a felicidade”, por Rolf Dobelli, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2018. Dobelli está à frente da maior produtora a nível mundial de obras condensadas de economia, é fundador e administrador de WORLD.MINDS, uma comunidade de personalidades mundialmente conhecidas dos domínios da ciência, da cultura e da economia. O seu objetivo é dar-nos ferramentas úteis para vencer as sinuosidades e as asperezas de tudo aquilo que nos envolve e carece de pronta resposta. Tais ferramentas mentais, segundo ele, prendem-se com ramos da psicologia, a começar pela terapêutica cognitiva-comportamental, o estoicismo e a escola do pensamento dos investimentos mobiliários.

Nem tudo é pacífico no que ele nos propõe. Por exemplo, recomenda que digamos adeus ao culto da flexibilidade, pois esta gera a infelicidade e o cansaço, é muito controversa tal proposta num tempo de negociação, de diálogo, de cooperação, de procura de resultados que não tragam esmagamentos. É do senso comum que vivemos melhor aceitando a realidade, as recompensas vêm depois, temos que aprender a lidar com os fracassos, fazer das fraquezas forças.

É também do senso comum aprender a não esperar demasiado das nossas compras, saber que as nossas expetativas não são eternas e que possuem um grau de adaptação. Recomenda que para fugirmos à deceção das compras devemos investir mais em experiências. Acontece que temos que saber gerir os objetos que constituem necessidades e nos envolvem, pessoas há que precisam de sentir tranquilidade em ambientes com fotografias de família, estantes com livros que considerem preciosos, obras de arte gratificantes para a sensibilidade, música, etc. Daí nos parecer incompreensível esta tirada moralizante: sobrevalorizamos o efeito de felicidade dos objetos e subvalorizados o efeito de felicidade das experiências; os pensamentos que dedica à sua casa desaparecem na cacofonia de todos os outros pensamentos relacionados com a sua vida quotidiana.

Discutível é também o que diz sobre a vocação: “A noção romântica de que a vocação gera a felicidade é falsa. Quem, ansiosamente, vai atrás da sua vocação não é feliz, mas apenas ansioso e será também alguém que se sentirá frustrado. Uma vocação não passa de um desejo de âmbito profissional. A vocação, no seu sentido romântico, não existe, e só existem o talento e as preferências. Tome como ponto de partida as suas capacidades reais e não o que supõe ser a sua vocação”. Como se vê, Dobelli revela uma enorme inflexibilidade, mesmo intolerância, esquecendo os artistas plásticos, os desportistas e até aqueles que querem servir na religião.

Concordamos com o autor quando nos fala do círculo de dignidade, não se pode ser feliz sem que a pessoa saiba onde estão as suas fronteiras. Não se pode ter uma boa vida sem um pequeno círculo de dignidade, uma aprendizagem com decisões erradas, deceções, falhanços e crises. Podemos ser sujeitos a experiências atrozes, mas uma parte de nós não cede. Diariamente, sofremos atrições aos nossos princípios e às nossas preferências, ao nosso círculo de dignidade. Ganhámos uma força tremenda, ao manter-nos fiéis a este muro protetor garantimos na mão uma chave para se ter uma boa vida. É por isso que temos toda a vantagem em procurar definir com precisão o nosso círculo de dignidade.

Este livro é um roteiro, bem ilustrado por sinal. Ajuda-nos a considerar a relação entre o tempo e o dinheiro, a encontrar espaço para tomar iniciativa das correções, a não deixar os problemas a aboborar e a enfrentá-los, a saber agradecer, a ridicularizar a inveja, a pautar-se pela autenticidade, a saber distinguir o momento exato em que é preciso dizer sim ou não, a não desperdiçarmos tempo com trivialidades, a conhecer o verdadeiro sentido da poupança fora do círculo obrigatório das despesas, e muito mais. É uma obra que vai esvoaçando pela competência, a persistência, a reputação, o que é o sentido da vida, o papel da memória, a fugir da autocomiseração e do hedonismo. Socorre-se, em todos estes 52 caminhos, de exemplos de toda a ordem, previne-nos que não devemos misturar necessidades, desejos e expetativas e a tirar partido da modéstia e do sucesso interior.

O leitor tem muito a ganhar se souber sopesar estas propostas de itinerário de desenvolvimento pessoal no mundo em que se move, em que há segurança e insegurança, hipóteses de terrorismo, transformações abissais no trabalho, avidez do material e desmaterialização, enfim, aquilo que muita gente diz ser complicado e onde há a permanente tentação de recorrermos a uma papinha ou pré-cozinhado com todas as receitas que apontam para esse desejo supremo que é viver em harmonia connosco e manter uma boa relação com os outros.

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