A litania do desenraizamento, até Moçambique: Uma obra-prima de V. S. Naipaul

 

Beja Santos: Este magnífico escritor caribenho que foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 2001, publicou nesse ano um romance um tanto à revelia dos seus temas preferidos, esculpiu a figura de Willie Somerset Chandran, com uma atribulada ascendência de pai brâmane e mãe de casta inferior, numa Índia onde se sente sempre deslocado, daqui parte para Londres, a deriva perpetua-se, nada o entusiasma no que percorre entre comunidades boémias e de emigrantes, é tudo uma sensaboria, um descolorido interior e um desligamento irremissível. É neste contexto que se põe a possibilidade de abrir a porta à realização pessoal, parece florescer a paixão por uma mulher que vem talvez de Moçambique (na verdade, é este o meio físico que Naipaul esboça com impressionante realismo), instala-se num terceiro continente e o que parecia desabrochar gerou uma monotonia resignada que parece só ter saída em travessuras sexuais, num estado de desapego à obra da mulher. Um mundo sombrio em que Willie Somerset Chandran descobre que a melhor parte da sua vida passou sem utilidade para ninguém.

O assombroso de “Metade da Vida”, de V. S. Naipaul, Quetzal Editores, 2018, é a simplicidade com que se conjugam todos estes itinerários de uma vida de um ser sempre estrangeiro consigo próprio. Primeiro a Índia dos marajás, uma lembrança de Somerset Maugham que por ali passou, o pai de Willie tanto admirou que gravou esta admiração no nome do filho. É nesse universo que Willie toma uma decisão: “Consistia em virar costas aos nossos antepassados, aos sacerdotes famintos e absurdos, dominados pelos estrangeiros, em virar costas a todas as absurdas esperanças do meu pai de que eu viesse a ocupar um cargo de grande importância ao serviço do marajá, às absurdas esperanças do reitor de que eu me casasse com a sua filha”. Para chocar o meio, para humilhar os seus familiares, envolve-se numa relação socialmente odiada, a Índia secularmente estratificada vive a germinação do espírito independentista, Willie está de fora. Segue para Londres. “Willie vivia na escola numa espécie de névoa. As matérias que lhe ensinavam eram como a comida, sem sabor. Era como um barco sem âncora, sem ideia alguma do que o esperava”. Descobre a sexualidade, trata-a como algo descartável, vive com displicência em meios intelectuais, a Índia ficou longínqua, se bem que a sua irmã tenha casado e foi viver na Alemanha. Willie conhece uma africana, Ana, é uma mulher da Costa Oriental de África, da África lusófona, partem de barco e chegam ao país da mulher: “A cidade era grande e esplêndida, muito mais requintada do que ele imaginara, nada que pudesse ser associado ao continente africano. A sua grandiosidade preocupou-o. Achava que não seria capaz de suportá-la. As estranhas pessoas que via nas ruas conheciam a língua e os costumes do país”. Mas prosseguem em viagem, num pequeno barco costeiro que ligava a capital à província setentrional onde ficava a quinta: “Desembarcaram numa pequena cidade de construções baixas de cimento, cinzentas, ocres, de um branco esbatido, com ruas retas como as da capital. Logo à saída da cidade, a estreita estrada de asfalto conduzia ao interior por entre uma imensidão de campo. E continuamente os africanos, baixos e magros naquela região, caminhando como que no meio da natureza selvagem. Nunca demasiado longe, assinaladas por parcas plantações de milho, mandioca e outras coisas, estavam as povoações africanas”. Será aqui que Willie viverá duas décadas, primeiro um mundo colonial aparentemente estável, veio depois a guerrilha, segue-se a independência, tudo se desmorona, como este magnífico escritor sabe descrever o fim de uma era:

“Os grandes acontecimentos na vida da colónia, os ritos finais, tiveram lugar longe dela. Na capital, o governo colonial limitou-se a anunciar que cessava funções; a guerrilha tomou o poder. A população portuguesa começou a partir. O quartel ficou vazio. E algumas semanas depois deste vazio uma força da guerrilha instalou-se no quartel. Tinham morrido pessoas, mas, na realidade, o exército não queria travar aquela guerra africana, e a vida nas cidades continuou normal até ao fim. A guerra era como um jogo distante; mesmo no final era difícil de acreditar que o jogo ia ter grandes consequências. Era como se o exército, com um determinado projeto político, se conluiara com a guerrilha para manter a paz nas cidades, a fim de que, chegado o momento, a guerrilha pudesse apoderar-se das cidades em perfeitas condições de funcionamento.

Algumas lojas ficaram vazias e não voltaram a abrir. Algumas casas na praça central foram abandonadas. Em muito pouco tempo, os globos com lâmpadas nos postes dos portões ou nos alpendres apareceram partidos; janelas foram arrancadas pelas dobradiças. As valetas ficaram bloqueadas. Os jardins encheram-se de vegetação selvagem”.

É neste mundo arruinado que Willie dá uma queda brutal e é forçado a uma hospitalização. Pede o divórcio, alega à mulher que está cansado de viver a vida dela. “Agora a melhor parte da minha vida passou e eu não fiz nada. E mesmo que fossemos para Portugal, mesmo que me deixassem ficar em Portugal, continuaria a ser a tua vida. Há demasiado tempo que me escondo”.

Só um genial escritor pode redigir com tanta simplicidade este itinerário de desconforto, de permanente desenraizamento, alguém que está de mal com as raízes, a cultura, a sociedade, o afeto. É a dor da impermanência, da desadequação, da descoberta de que se vive atrelado a alguém sem nada produzir, mesmo socorrendo-se de experiências sexuais que acabam por acentuar o sentido da efemeridade e do vazio.

É uma temática que está longe de ser inovadora, lembremo-nos de outro Prémio Nobel da Literatura, Albert Camus, e o seu prodigioso “O Estrangeiro”. Só escritores altamente dotados poderão descer a estes infernos da vida estéril de que a nossa contemporaneidade é muito mais pródiga do que muitos julgam.

Leitura imperdível.

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