A PIDE no Xadrez Africano (guerra colonial)

Beja Santos

“A PIDE no Xadrez Africano, Conversas com o Inspetor Fragoso Allas”, por María José Tíscar, Edições Colibri, 2017, é obra de leitura obrigatória para todos aqueles que procuram conhecer as redes de informações instituídas pela polícia política do Estado Novo durante o período da guerra colonial. Uma investigadora com largas provas dadas acerca da história contemporânea de Portugal conversa longamente com António Fragoso Allas, um inspetor da PIDE/DGS que teve funções relevantes em Angola e na Guiné.

A investigadora dá-nos em primeiro lugar um elucidativo contexto para os serviços de informação na guerra colonial onde a PIDE/DGS participou ativamente. Fragoso Allas foi alferes e tenente miliciano na Guiné, regressado a Portugal e não tendo podido seguir a carreira militar ingressou na polícia política e a partir de 1963 vemo-lo em Angola onde revitalizou e restruturou as redes de informações, focalizou-se num conjunto de postos fronteiriços onde captou informadores oriundos dos dois Congos e da Zâmbia; Fragoso Allas aparece igualmente associado à criação do Corpo de Auxiliares, antecedente dos Flechas, monta operações para desestabilizar a Zâmbia e afastar o MPLA; terá um papel do maior relevo em Kinshasa, em ordem a gerar atritos com o Congo Brazzaville. O seu trabalho obtivera reconhecimento, logo que chegara à Guiné, em 1968, Spínola procurara a sua colaboração, só se efetivará em meados de 1971, no rescaldo da operação Mar Verde, que teve resultados altamente nefastos para a política externa portuguesa. Allas revitaliza a rede de informações nomeadamente em território senegalês mas também na Guiné-Conacri socorrendo-se de djilas, comerciantes que frequentam Dakar, Ziguinchor, Koldá e também Conacri. Tentará com êxito uma aproximação com o presidente Senghor do Senegal, daí decorrerão os encontros em Cape Skirring, Marcello Caetano travará este relacionamento, temendo que um acordo de paz com o PAIGC fizesse desabar a coesão do império.

Se o desempenho de Allas em Angola dera excelentes resultados, a ponto de Mobutu ter proposto a incorporação da FNLA nas forças armadas portuguesas, e o trabalho da PIDE ter conseguido atrair a UNITA, na Guiné o seu desempenho não foi menor, consegue chegar até à fação guineense do PAIGC, e nas suas entrevistas diz claramente que podia abordar Nino Vieira e que em 1973 um numeroso grupo de guerrilheiros pretendia negociar o seu alistamento nas tropas portuguesas. Fragoso Allas desmente categoricamente qualquer associação entre a PIDE na Guiné e o assassinato de Amílcar Cabral. É por demais sabido que logo a seguir ao assassinato de Amílcar Cabral se tentou atribuir a inspiração daquela conjura à PIDE e a Spínola, Fragoso Allas contesta essa argumentação, que no entanto foi muito útil para intimidar a fação guineense do PAIGC, a verdadeira responsável em Conacri pelos acontecimentos da sedição e do assassinato.

Regressando a Portugal, teria direito a largos meses de férias depois de todo este período de 1963 a 1973, foi convocado para Moçambique, era admissível que lhe dessem a direção da PIDE local, chega entretanto o 25 de Abril, Allas é transferido para Lisboa e com a demissão do presidente Spínola foge para Madrid e daqui parte para a África do Sul, onde trabalhou. Nos últimos anos, tem vindo com regularidade a Portugal.

A obra é importante pela contextualização dada pelo investigador, pela pertinência das informações prestadas pelo acreditado inspetor da PIDE, bem assim como o anexo documental.

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