A Quadrilha de Rubber, por Rex Stout

Beja Santos

Desde que em 1934 Rex Stout criou o excêntrico detetive Nero Wolfe, um paquiderme humano, gastrófilo consagrado, um bebedor de cerveja irrestrito, que tem horror em sair de casa e se socorre de um auxiliar para todas as diligências detectivescas, Archie Goodwin, o seu homem de ação, os seus romances de crime e mistério deram a volta ao mundo. “A Quadrilha de Rubber” por Rex Stout, Livros do Brasil/Porto Editora, 2018, surgiu em 1936, era o terceiro livro da série Nero Wolfe e tem as marcas do tempo, há uma conversa entre um inspetor da polícia e Nero Wolfe bem curiosa: “Bem sabe como as coisas são hoje em dia: os que têm menos razão de queixa são quase sempre os que fazem mais barulho. Quando um barco alemão atraca aqui, um grupo de judeus despedaça-lhe a bandeira e arma sarilhos. Se um professor italiano, que foi corrido a pontapé da Itália, procura fazer uma conferência, um grupo de fascistas atira-o ao chão e espanca-o. Se procurarmos auxiliar os que não têm emprego, essa gente torna-se comunista e desencadeia um motim”.

Só na aparência é que a trama do livro é emaranhada, como se sintetiza. Clara Fox, secretária na multimilionária Seabord Products Corporation, é acusada por um dirigente de ter roubado uma avultada quantia, o seu presidente não está convencido de que tal tenha acontecido e pede a Nero Wolfe para investigar o caso. Horas depois uma outra visita bate-lhe à porta, um homem a dar ares de cowboy, recebe um telefonema e aparecerá baleado pouco tempo depois. É uma fase da vida em que aquela monumental massa humana resolveu ter atividade física e passou a jogar aos dados. Quem tudo vai descrevendo é Archie Goodwin, abre a porta aos clientes, elabora o relatório das conversas, faz a contabilidade, atende confidências enquanto Nero Wolfe cuida das suas orquídeas onde há três mil vasos ostentando variedades de verde, azul, amarelo e vermelho. Enquanto tudo isto decorre, chega-lhe um pedido estranhíssimo ou pelo menos singular: são-lhe solicitados os serviços para resolver uma demanda nascida há mais de quatro décadas, em que um grupo de aventureiros resgatara um jovem inglês nos tempos do Velho Oeste, aceitando como pagamento um documento em que aquele se comprometia em entregar metade da fortuna da família, logo que a herdasse. As duas investigações irão gradualmente fundir-se, aquele marquês de Clivers, diplomata britânico que veio aos Estados Unidos discutir questões melindrosas para a paz do mundo, terá muito a ver com estes acontecimentos.

Clara Fox tem a polícia à perna e um sobrinho do marquês de Clivers anda-lhe a fazer o pé de alferes, a polícia bate constantemente à porta de Nero Wolfe, há mesmo um mandado de busca, Clara Fox é metida dentro do composto para as orquídeas. Adensa-se o mistério, a quadrilha de Rubber, capitaneada por Rubber Coleman, vê alguns dos seus membros desaparecer assassinados, vários colaboradores de Wolfe cumprem diligências ditadas por aquele que arvora ser “O maior génio entre os detetives do mundo”. É Archie Goodwin quem procura entender a fibra desse gigante mental que nunca sai de casa e resolve sempre a contento os casos mais melindrosos:

“Tentei dezenas de vezes perceber como é que eu pressentia que ele se preparava para o desfecho de um caso. Por vezes, pensava que era apenas o facto de estar sentado de modo diferente na cadeira, um pouco mais inclinado para a frente; e outras, que era a qualidade dos seus movimentos, não exatamente mais rápidos, mas mais seguidos e, de outras ainda, que era outra coisa qualquer. Mas, no fim de contas, duvido que fosse por alguma dessas razões. Talvez se tratasse de eletricidade. Havia dentro dele uma tensão e, de certo modo, eu sentia-a. Sentia-a nesse dia, enquanto ele enchia o copo, o esvaziava e tornava a enchê-lo. E isso causou-me uma sensação de mau estar, porque eu não podia fazer coisa nenhuma e havia sempre o perigo de Wolfe ficar meio maluco quando guardava as coisas consigo mesmo”. Mas nesse dia tudo caminhava para o desfecho final, foram convocados todos os personagens, denunciado o meliante, e Nero Wolfe até levou um tiro num braço, coisa sem importância, encheu-se de glória, eram ossos do seu ofício…

Indubitavelmente, Rex Stout no seu melhor, nenhum aficionado da literatura de crime e mistério ficará minimamente desapontado.

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