A Queda de Salazar: revelações das agendas do ditador

Beja Santos: “A Queda de Salazar, o princípio do fim da ditadura”, por José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz, Tinta-da-china edições, 2018, é indiscutivelmente a investigação mais abrangente sobre o período que antecede, coincide e posterior à queda de uma cadeira, quando passava férias num forte em São João do Estoril, em agosto de 1968. Dava-se como praticamente assente de que no dia em que recebeu o Sr. Augusto Hilário calista, Salazar atirou-se para uma cadeira que se desconjuntou, acabou por bater com a cabeça no chão, recompôs-se, foi visto pelo seu médica pessoal, o professor Eduardo Coelho, não viu nada de anormal mas avisou que queria ser informado logo que aparecessem manifestações anómalas. Muitos estudiosos debruçaram-se sobre este período, parecia haver um risco tremendo de que estes três investigadores iriam dizer mais do mesmo. Parece que o projeto inicial tinha intenções modestas: reunir, sistematizar e organizar a informação já conhecida sobre as três semanas do fim do salazarismo. E foi nesse contexto que deram conta que havia coisas a investigar. O conjunto de relações não altera, no essencial, o que se sabe sobre o fim da ditadura de Salazar e a chegada ao poder de Marcello Caetano. Mas que havia dados escondidos e enigmáticos, havia. Os diários de Salazar, devidamente decifrados, mostraram que o ditador tomava injeções com imensa regularidade, teria sido uma substância com efeitos antidepressivos e euforizantes ou vitalizantes. A sua amiga francesa Christine Garnier, acompanhada do seu novo marido, fizera férias no forte, discutiram os acontecimentos do maio de 1968, isto em agosto. O dossiê da guerra e dos acontecimentos africanos era para Salazar a prioridade das prioridades, mas havia sinais de exaustão do Governo, preparava-se uma remodelação. Questões avulsas que chegavam à opinião pública não faltavam e mereciam a atenção do ditador, caso de uma escandaleira sexual conhecido por Ballet Rose, a deportação de Mário Soares para São Tomé, a expulsão do coreógrafo Maurice Béjart que dirigia o Ballet du XXième Siècle, este ícone do bailado, em pleno Coliseu dos Recreios atrevera-se a pedir uma homenagem a Robert Kennedy, que tinha sido assassinado naquele dia, “vítima da violência do fascismo. Contra todas as formas de violência e de ditadura, peço-vos um minuto de silêncio em sua memória”. Américo Thomaz andava triste com a falta de elã governamental, barafustava com os seus próximos. E dá-se a remodelação governamental, igualmente Thomaz ficou exasperado.

Nisto aparecem sintomas alarmantes, em 5 de setembro, Salazar arrastava a perna direita, tinha lacunas de memória, deram-se opiniões, reconheceu-se o estado gravíssimo, Salazar é hospitalizado no Hospital da Cruz Vermelha, depois da intervenção ao hematoma subdural, parecia que ia melhorar. Os autores explanam depois sobre as misteriosas injeções que o ditador tomava com regularidade, presume-se que havia Eucodal, o facto é que ninguém conhecia esta avalanche de injeções ao longo dos últimos anos, mais de 1 600. A censura impede notícias sobre a visita de Marcello Caetano em 8 de setembro, toda a gente acorre ao Hospital da Cruz Vermelha, a imprensa do regime dá-o como definitivamente curado, Salazar entrara em franca convalescença, ia voltar para casa. Mas a 16, Salazar sofre um AVC e fica em coma, o regime ia mudar de mãos, Thomaz readquiria um novo papel político, é convocado o Conselho de Estado, os norte-americanos enviam um dos seus maiores neurologistas, Houston Merritt, que louva os cuidados médicos e o tratamento realizado pela equipa portuguesa. Thomaz, na sequência de múltiplas audiências, indigita Marcello Caetano, este vai introduzir um novo estilo na governação, os autores apreciam toda a evolução política deste homem, são igualmente equacionados todos os outros candidatos com possibilidades de chegar a São Bento. A crise motivada pelas eleições presidenciais de 1958 terá separado irrevogavelmente Salazar de Marcello Caetano. Acresce que este produziu um documento para o plenário do Conselho Ultramarino de outubro de 1962, onde estabelecia as linhas gerais de um Estado federal, os “Estados Portugueses Unidos”. A extrema-direita e os ultramontanos nunca lhe perdoaram a ousadia.

É uma investigação cuidada, com um doseado recurso à história oral iremos acompanhando a evolução do período marcelista, até às desilusões marcadas com a rutura com a ala liberal e nova contenda com Mário Soares que se exila em França. E assim se chega ao termo da vida de Salazar e anos depois, Marcello Caetano, incapaz de encontrar soluções políticas para uma guerra em que os nacionalistas tinham passado a dispor de um armamento muito superior ao dos portugueses, abandona o poder numa Chaimite, da Madeira seguirá para o Brasil, revelará uma mágoa sem fim.

O livro dispõe de anexos importantes como a Ata do Conselho de Estado de 17 de setembro de 1968, na sua versão original, na redação de Antunes Varela.

O único senão que encontramos na obra, e que causa uma certa estranheza, é na bibliografia só constar uma das obras de quem de forma mais intensa e de modo percuciente estudou a personalidade e o pensamento político de Marcello Caetano, Vasco Pulido Valente. Este historiador, até hoje, é quem dispõe de uma visão mais detalhada sobre o período do marcelismo.

Enfim, uma investigação cheia de méritos, bem delineada e com algo de novo.

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