A relação tumultuosa Rimbaud-Verlaine | Beja Santos

A relação tumultuosa Rimbaud-Verlaine

 

Beja Santos

 

Arthur Rimbaud e Paul Verlaine são dois nomes fundamentais da melhor poesia francesa do fim do século XIX. Sobre a sua relação tumultuosa Aníbal Fernandes congeminou uma narrativa vibrátil e altamente documentada, o que pesquisou para a adaptação tem uma enorme vivacidade, sobre ultrapassar a linguagem pirotécnica destes dois génios da poesia, o resultado é este prodigioso “Rimbaud-Verlaine, O estranho casal”, Sistema Solar, 2017.

Logo a apresentação dos protagonistas: Rimbaud, o meteoro que entre os 16 e os 20 anos de idade escreveu tudo o que hoje incita à maior estupefação, viveu e brigou com Verlaine, lançou-se numa imensa peregrinação, fez tráfico de armas na Abissínia, morrerá com 37 anos, em Marselha, com um tumor canceroso no joelho; Verlaine, no envolvimento com Rimbaud usa da violência verbal e dos tiros, teve graves complicações com o absinto, estragou o casamento, colecionou uma boa dose de hospitais de prisões, os seus últimos anos foram vividos num Paris de sombra, divido pelo álcool, por amores efémeros e pela devoção do terço; Ernest Delahaye, o maior amigo de Rimbaud desde os tempos de colégio em Charleville, nas Ardenas, pertence-lhe a primeira e malograda tentativa do poeta; Mathilde Verlaine, depois de todos os despautérios e ameaças do marido, divorciou-se, mais tarde, não se irá esquecer de que foi um dia Madame Verlaine, escrevendo, recordando e retocando até mais não poder a imagem desse marido brigão que desbaratou o seu pecúlio para satisfazer os caprichos do Rimbaud; Madame Rimbaud, aquela mãe que não compreende o génio do seu filho e que viveu “uma desgraça” com Verlaine; Madame Verlaine, viúva abastada que no fim da vida estava quase arruinada; Isabelle Rimbaud, a irmã devotada, em momentos difíceis irá arregaçar as mangas e ser incansável a acompanhar o génio moribundo, em 1895 autoriza Verlaine a prefaciar a poesia completa de Rimbaud.

Com todos estes protagonistas, Aníbal Fernandes revela-nos Rimbaud com 16 anos, quer partir à conquista de Paris, está ansioso por conhecer os círculos dos poetas parnasianos, troca correspondência com professores e poetas, incluindo Verlaine. Rimbaud surge inopinadamente, aboleta-se em casa de familiares de Verlaine. Terá começado tudo por uma relação de admiração recíproca, eclodem brutalmente os maus tratos de Verlaine com a sua mulher, em finais de 1971 Rimbaud já dá escândalo, os dois andam permanentemente juntos, irão mais tarde para a Bélgica. Antes disso, o pintor Fantin-Latour começou o seu célebre quadro Coin de Table, num dos cantos temos Verlaine e Rimbaud. A mulher de Verlaine escreverá mais tarde que o marido a acusou de ter sentido ciúmes daquele jovem vindo das Ardenas. “Na jovem mulher que eu era, Verlaine respeitara a inocência da jovem com quem se tinha casado; deixou-me ignorar muitas coisas com uma fieldade de que só mais tarde vim a ter conhecimento”. Há rixas, por tudo e por nada zaragateiam, depois perdoam-se, Rimbaud afasta-se, nova rutura, Verlaine até arranja trabalho e entretanto vai escrevendo a Rimbaud de que suspira pelo reencontro. O autor descreve com grande vivacidade todas estas peripécias, a vida agitada que os dois viverão em Bruxelas, Mathilde ainda a tentar salvar o casamento. Os dois poetas partem para Londres, procuram trabalho, embebedam-se, Verlaine, em desespero, deixa Rimbaud em Londres, mas não esconde na sua correspondência que o ama mas é melhor não se voltarem a ver, Rimbaud prontamente diz para ele voltar. “Juro que serei bom. Se fui desagradável para contigo, era uma brincadeira em que resolvi teimar, e mais me arrependo do que é possível dizer. Volta, será tudo completamente esquecido. Teu para toda a vida”. De novo em Bruxelas, em Julho de 1873, discussão com tiros de revólver, Verlaine é preso, vai aderir ao catolicismo escreverá a Rimbaud uma última carta em Londres, com data de Dezembro de 1875. Não se voltarão a ver, para Verlaine cedo começou a consagração, será chamado o Príncipe dos poetas, entra em decadência, comenta o autor que não resiste aos desgastes da sua vida forçada por Deus e pelo corpo. O resto da vida de Rimbaud é uma completa odisseia, alista-se na Legião Estrangeira holandesa, deserta, aceita ser marinheiro de um navio escocês a partir de Java, não se sabe em que ilha dos Açores aportou, desembarcou na Irlanda do Norte. A partir de Charleville atravessa a Europa até Génova, depois de algumas vicissitudes regressa à terra natal e depois parte para a África do Mar Vermelho, é tudo audácia, risco e depois a prostração pelo joelho doente. A irmã descreverá os últimos tempos do moribundo. Verlaine irá desfazer-se em equívocos falando desse jovem caprichoso e imprevisível com quem manteve uma relação tão tumultuosa: “Um muito grande poeta absolutamente original, com um sabor único”. E fala da sua obra-prima, as Iluminations, rios e flores e grandes vozes de bronze e ouro.

Um grande trabalho de investigação, um esclarecimento cristalino sobre esse estranho casal de dois génios que puseram a poesia francesa no cume da literatura mundial.

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