A voz de antigos combatentes que se mantêm em conflito, em carne viva

Beja Santos: “Declarações de Guerra, Histórias em carne viva da Guerra Colonial”, por Vasco Luís Curado, Guerra e Paz Editores, 2019, reúne relatos de antigos combatentes, um mostruário eloquente dos estilhaços físicos e psicológicos que a sociedade portuguesa finge esquecer, a guerra já está longe, estes stressados que se amanhem. Quem os recolheu é psicólogo clínico, trabalhou dez anos num hospital militar, acompanhou estes stressados, e visa um objetivo primordial com este livro: contribuir para um reconhecimento impedido por divisões profundas na sociedade portuguesa de homens que combateram e que se sentem votados ao esquecimento, muitos deles profundamente doentes ou levando uma vida familiar desgraçada. Como, explicitamente, observa: “O país e o combatente individual são o duplo um do outro. Assim como o combatente se apazigua aceitando as marcas físicas ou mentais como parte indelével de si mesmo, o país amadurece recuperando o seu passado e aqueles que enviou para o combate. Foram necessários muitos anos para se caminhar em direção a algum equilíbrio na forma de interpretar a guerra e fazer face aos homens que ela mobilizou. Há que continuar a ajudá-los num outro combate contra dois tipos de esquecimento: o que eles individualmente gostariam de fazer mas não podem, e o que o país lhes quer impor mas não devia”.

Diga-se em abono da verdade que o tema está abundantemente versado, as livrarias oferecem muita leitura sobre vidas atormentadas destas experiências de combate sobretudo em terra mas também nos céus e nos rios, falam de jovens que queriam emigrar e que procuraram despachar o serviço militar, seguiram-se as comissões muito duras que tudo alteraram. O que distingue verdadeiramente estes relatos de Vasco Luís Curado do que até agora se escreveu é a versatilidade do caleidoscópio humano, fica-se com a impressão que o apanhado de testemunhos cobre o essencial dos estados daqueles para quem a guerra ainda não acabou, acompanhará muitos até à tumba. Veja-se o caso de quem acreditava no dever pátrio de ir para a guerra, ela mostrou-se tão cruenta que o crente desses valores se foi alterando, e assim testemunha, com uma franqueza que ronda a brutalidade:

“Os meus melhores amigos foram morrendo. Um deles foi atingido numa emboscada, em Cabo Delgado, por um tiro vindo da mata. Vi-o cair. Quando cheguei ao pé dele, estava morto. Quando fazíamos escolta a uma coluna de engenharia, vi outro ser atingido por uma granada de morteiro e ficar desfeito. Estive com ele até morrer. Sabe o que é apanhar ao colo um amigo sem braços nem pernas?”. Quem testemunha confessa que sentiu prazer em matar, fica o peso da consciência: “Por cada pessoa que matei, os rostos ainda me perseguem e devoram”. Regressou e a inadequação cedo se manifestou. Sentia-se consumido por uma fúria destruidora: “Engravidei a minha segunda mulher quando ainda vivia com a primeira – e também a abandonei anos mais tarde. Sempre fui abandonando as pessoas de quem gostava, para não as magoar mais. Um dos meus netos, ainda criança, odeia-me e com razão: parti o braço ao pai dele. O meu genro é toxicodependente e esteve envolvido em assaltos. Eu tentava fazer-lhe mal de cada vez que o via e cheguei a atropelá-lo. Tenho medo de dormir, quando fecho os olhos vejo coisas passadas na guerra. Às vezes dou por mim a chorar sozinho quando penso no Ultramar, parece que sinto uma pessoa a gemer dentro de mim”. Meses continuados de tensão podem, imprevistamente, revelar-se em sinais de abulia, indiferença ou o seu contrário, alguém testemunha assim:

“Ao fim de quinze meses, depois de me confrontar com tantos problemas, os homens motivados por minas, dar dinheiro a soldados para pagarem medicamentos dos filhos na Metrópole, comecei a desparecer de vez em quando: disseram-me mais tarde que me iam encontrar na estrumeira, fora do aquartelamento, sujeito a expor-me ao fogo inimigo, sem saber o que estava ali a fazer”.

O convívio com a morte e toda a escala do sofrimento também pode gerar relações paradoxais, como alguém revela: “Éramos capazes de cantar e beber cerveja ao pé de camaradas mortos. Quando um de nós recebia alguma coisa da Metrópole, como chouriços e coisas assim, era uma festa. Comíamos e bebíamos juntos, mesmo que ali ao lado estivessem os mortos embrulhados. Isto já numa fase mais avançada, endurecidos pela guerra”. E alguém morreu por ele, a dor parece interminável: “Fui ferido três vezes num ataque. Viram-nos a entrar para o abrigo e mandaram para lá a granada. Um dos que tinha entrado para o abrigo primeiro do que eu estava à minha frente e salvou-me a vida, porque levou com tudo. Caio com o meu peito em cima dele, que estava a morrer, senti o sangue dele a jorrar para cima de mim, a correr em golfadas que faziam barulho, parecia que silvava. Eu fiquei ferido com dezenas de estilhaços cravados no peito, barriga e pernas. Ainda hoje encontro camaradas que me dizem como é que eu tinha tanto sangue para deixar lá”. A destruição familiar é muito frequente, oiçamos alguém: “Ao fim de 36 anos de casamento, a minha mulher deixou-me. Fiquei sozinho. As minhas filhas estão do lado da mãe. Uma não me liga nada, a outra sim, porque precisa de mim para ir levar e trazer a minha neta que anda no infantário. Dizem que sou um sobrevivente, um exemplo para os meus camaradas, que me viram como morto e nunca julgaram que escapasse. Recebi um louvor, porque, mesmo ferido, não deixei de incentivar os meus camaradas. Eu quero viver, levar a vida para a frente. Mas como é que eu chego lá?”.

Insónias, solidão, sonos invadidos pela guerra, gritaria nos pesadelos, arrependimentos, viver como um fantasma, a vida a fazer uma revisão da guerra… E o horror de um momento capital que depois é versado em termos banais: “Perto do fim da comissão, seguíamos dez numa viatura, íamos assistir a um jogo de futebol no quartel da companhia mais próxima. Não ia eu a conduzir. O meu colega deixou o carro despistar-se na picada. Fiquei com o braço debaixo do carro, que me decepou a mão esquerda. Vi a mão caída no chão, mesmo à minha frente. Olhei para o couto, olhei para a mão. Com raiva, dei um pontapé na mão, que voou para o mato. Na enfermaria perguntaram-me pela mão, ainda poderia ser cosida ao braço, no hospital central. Eu e alguns camaradas voltámos ao local do acidente, procurámos no meio da vegetação. Já não a encontrámos. Deve ter sido um festim para as formigas”. Tudo é indelével, e momentos há em que se percebe o quilate da camaradagem indefetível: “Nos anos 90, quando visitei o Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, com o mural onde estão gravados os nomes dos mortos, li o nome completo do Valter, a quem fechei os olhos, e, nesse momento, tornei a sentir o corpo dormente: era o espírito dele a sair do meu corpo”.

Cansaço, cólera, abandono, recolhimento, susto com o barulho dos carros, foguetes, estrondos, sair da cama a meio da noite, vestir-se com a preocupação de que vai para uma operação, um choro compulsivo repentino, olhar para o arvoredo e pensar que está ali um belo sítio para fazer uma emboscada… O que Vasco Luís Curado regista em testemunhos muito bem cuidados é uma gritante chamada de atenção para esses milhares de combatentes que precisam de apoio e de muita compreensão. A sociedade portuguesa precisa de estar mais aberta e compreensiva para este passado colonial, pois muita desta dor aqui contada vem do esquecimento a que estes homens se sentem votados.

De leitura obrigatória.

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