António Serzedelo Um livro fora do armário Ana Rita dos Santos, Sara Tavares e Francisco Gil

Nunca julgues um livro pela capa”, assim diz o ditado. A sabedoria popular poucas vezes se engana. É nos livros com a capa mais puída, mais desgastada pelo uso, que encontramos as histórias mais fantásticas. São nas páginas desses livros, enrugadas e frágeis pelo toque de quem as percorreu, que esbarramos com amores proibidos, aventuras e feitos incríveis de Homens comuns. Há livros que merecem ser admirados e relidos vezes sem conta.

O António Serzedelo é um desses livros. Uma obra repleta de capítulos intermináveis. É necessário um bom índice para não nos perdermos nas 1001 peripécias que a sua longa vida conta.

A capa deste livro é enrugada, mas tem um brilho no tecido que a envolve. É coberta de apontamentos delicados que nos fazem viajar no tempo. O índice é extenso e as histórias deste volume (sim, existem mais, mas o tempo seria escasso para poder falar-vos de todas) cruzam-se todas na descoberta, aceitação e amor-próprio. O título deste livro poderia bem ser um já conhecido da literatura mundial: Orgulho e Preconceito.

Vamos por partes e comecemos pelo início.

Capítulo I
O inominável em Lourenço Marques, Moçambique
Foi na maior cidade de Moçambique que António nasceu, em 1945. Foi também em Lourenço Marques que viveu grande parte da sua infância e iniciou o liceu. O seu pai era engenheiro na colónia portuguesa e o pequeno António teve a oportunidade de fazer muitas das coisas que pequenas crianças da sua idade não conseguiam por questões monetárias – montava a cavalo, ia à praia e tinha uma pequena ‘burra’, o termo utilizado para bicicleta na altura.


A infância com os pais, em Moçambique.

Foi neste regime colonial que António descobriu um sentimento a que chamava na altura de ‘inominável’. “Tinha um amigo especial, um ou dois anos mais velho, com quem ia às boates e ao cinema. Tínhamos este encanto de amigos. Quando não podia ir às matinés, ele levava a minha fotografia e punha no banco ao lado, que estava vago, para ver com ele o filme”, lembra António, com um olhar nostálgico. Foi entre estas amizades singulares que o jovem António confessa que descobriu ‘este amor, esta camaradagem, uma ternura que era inominável mas era partilhada’. Era assim, neste ambiente ímpar e desconhecido que ‘havia uma certa homossexualidade não consentida, não assumida, que era destas coisas que fazíamos de conta que estávamos bêbedos e que no dia seguinte já ninguém se lembrava’, recorda.

Tanto na sociedade colonial como na portuguesa, a demonstração de afetos em público entre casais heterossexuais era um episódio bastante invulgar, pois era considerado, na altura, um atentado à moral pública. Na esfera social, as manifestações românticas eram bastante reprimidas. Assim sendo, não passaria sequer pela cabeça do jovem António olhar duas vezes para um rapaz por quem sentisse algum tipo de interesse ou atração. No entanto, e sem nada o fazer esperar, o olhar de António cruzou várias vezes o de uma rapariga da sua idade.

Capítulo II
Em Lisboa, a confirmação duvidosa
“Hoje não sei dizer se estava apaixonado ou se tinha só desejo, mas eu gostava muito dela”, conta. Ainda hoje, António não consegue decifrar o que sentiu por aquela rapariga, mas a verdade é que aquela não seria a única mulher da vida de António. O casamento foi um passo que ponderou diversas vezes, pois naquela época não eram permitidas relações sem um compromisso mais sério. Todavia, António não conseguia inibir algo que era tão intrínseco a um rapaz da sua idade. O desejo e a atração pelo mesmo sexo continuavam a ecoar na sua cabeça. “Não sei se lhe disse que era gay, já não sei se disse se era invertido ou homossexual, porque esta nomenclatura é moderna”, conta António. A namorada, na altura, não levou muito a sério esta conversa, pois pensava-se que a homossexualidade era uma patologia, uma doença que se tinha e que era possível ser curada. António relembra o período no qual tentou encontrar uma ‘cura’ para a sua ‘doença’:


António durante a sua juventude.

Capítulo II
Em Lisboa, a confirmação duvidosa
“Hoje não sei dizer se estava apaixonado ou se tinha só desejo, mas eu gostava muito dela”, conta. Ainda hoje, António não consegue decifrar o que sentiu por aquela rapariga, mas a verdade é que aquela não seria a única mulher da vida de António. O casamento foi um passo que ponderou diversas vezes, pois naquela época não eram permitidas relações sem um compromisso mais sério. Todavia, António não conseguia inibir algo que era tão intrínseco a um rapaz da sua idade. O desejo e a atração pelo mesmo sexo continuavam a ecoar na sua cabeça. “Não sei se lhe disse que era gay, já não sei se disse se era invertido ou homossexual, porque esta nomenclatura é moderna”, conta António. A namorada, na altura, não levou muito a sério esta conversa, pois pensava-se que a homossexualidade era uma patologia, uma doença que se tinha e que era possível ser curada. António relembra o período no qual tentou encontrar uma ‘cura’ para a sua ‘doença’:

Capítulo III
Os marginais da sociedade
À época do Estado Novo, período no qual António viveu a sua juventude, ser homossexual em Portugal era constituído um crime punível por lei. “Antes do 25 de Abril e imediatamente depois era muito difícil. Era muito difícil por causa da influência da igreja católica, do regime político fascista, que proibia absolutamente a homossexualidade e até havia uma polícia de costumes. Para a sociedade, ser homossexual era ser doente mental, era ser um pária da sociedade. Muitos deles iam parar à Mitra”. A Mitra era o lugar de internamento de muitos dos homossexuais apanhados pela polícia, uma espécie de manicómio criminal, onde eram esquecidos pela sociedade.

Mas nem sempre a homossexualidade foi vivenciada neste quadro repressivo. Na Grécia antiga, as relações entre dois homens eram encaradas com naturalidade. Era bastante comum que um jovem ateniense se envolvesse sexualmente com um homem mais velho. Também na Roma Antiga, a prática da homossexualidade era amplamente praticada, existindo inúmeras obras literárias que o comprovam.

No entanto, o panorama foi-se alterando. Com o surgimento da religião, assistiu-se a uma forte apropriação dos valores morais de escrituras sagradas, como a Bíblia, que condenavam a prática do sexo pelo prazer e, por conseguinte, a homossexualidade. Desta forma, a aversão pela prática homossexual foi-se consolidando na mentalidade das populações que se regiam pelos princípios religiosos. Assim, assiste-se a uma generalização da homofobia na sociedade, que foi transmitida durante várias séculos e onde a inquisição teve um papel central na construção deste preconceito. “Tudo piorou quando apareceu a grande crise de saúde pública que matou metade da Europa. Como não tinham meios científicos para explicar essa peste negra, tiveram de ir buscar explicações divinas. Diziam que Deus estava zangado com o comportamento dos homens porque consentia que na sociedade houvesse judeus, prostitutas, leprosos e homossexuais. Então toca de mandar essa gente toda para o fogueira para purificar a sociedade”, conta.

Esta mentalidade perdurou no tempo e continuou até aos dias do Estado Novo. “É difícil tirar da cabeça das pessoas esse conceito que se transformou em preconceito. Foi algo que se impregnou na carne e na cabeça das pessoas durante séculos”, explica.

Capítulo IV
Católico, mas pouco.
“Tenho todos os sacramentos menos o do casamento e o da extrema-unção, graças a Deus”, revela. António frequentou um colégio religioso durante a sua juventude e o ambiente conservador e repressivo era a regra que perdurava durante todo o dia na instituição. Porém, de noite, a história era outra, como revela António: “os quartos eram individuais e podiam lá entrar quem nós quiséssemos. Tínhamos todos estudos comuns, portanto podíamos ir aos quartos uns dos outros sob o pretexto de que tínhamos algo a estudar”. Foi neste disfarce de liberdade que António viveu os primeiros anos da idade adulta. Uma vida dupla que escondia da própria família. “Eu saí de casa aos 22 ou 23 anos e fui viver para a minha própria casa e portanto não tinha que lhes dar satisfações. Cumpria os meus deveres de filho único e não tenho dúvidas de que era muito amado. Quando comecei em pensar em dizer-lhes o meu pai estava com um cancro, de que aliás morreu, e eu achei melhor não lhe dizer nada porque tinha medo de que uma preocupação desse tipo acelerasse o problema dele”, explica. No entanto, António revela que a mãe talvez suspeitasse de algo, uma vez que a partir de certa idade começou a apresentar-lhe alguns ‘curriculum vitae de meninas casadoiras’, relembra.


António e um amigo.

Foi na noite lisboeta dos anos 70 que António começou a libertar-se aos poucos da repressão interior que sentia. Os bares gays da capital eram uma novidade e António passou a frequentá-los. “Eu tinha dinheiro e tinha carro. Podia ir à noite às discotecas e gastar à vontade. Era essa a vida que eu fazia. Durante o dia era professor e tinha algum ‘juizinho’, não podia expor-me. Durante a noite era outra pessoa. Quando saía dos bares vestia outra vez o fato da decência”, recorda.


A época de professor.

Mas se em Portugal havia ainda este nicho recôndito da sociedade, na Holanda, para onde António viajava diversas vezes, assistia-se a um espírito libertário onde os bares homossexuais eram amplamente frequentados. Foi na Holanda que António entrou numa sex shop pela primeira vez na sua vida:

Capítulo IV
As humilhações no Campo Grande e os ‘Arrebentas’
Para ir para a Universidade de Letras, onde frequentava o curso de História, António atravessava diariamente o Campo Grande. Um local de encontros, de engates e passeios de namorados. Um lugar onde se cruzavam várias mentalidades e gerações. “Algumas vezes, ao passar por lá, sofri um bocadinho. Lembro-me de uma vez que estava a atravessar o jardim e um grupo de rapazes, que estavam com as suas namoradas, insultou-me com os nomes que se chamavam na altura e roubaram-me tudo. Fiquei em cuecas. Até a chave do carro me tiraram e o dinheiro”, relembra.

Mas António não tinha outro remédio senão passar pelo martírio do Campo Grande todos os dias, uma vez que era o único caminho para chegar à Universidade. Os insultos nunca pararam e as humilhações continuaram. Os ‘Arrebentas’ fizeram António correr pela vida:


António durante a sua juventude.

Capítulo V
O manifesto de Abril e a Opus Gay

António sempre foi um Homem consciente da necessidade da mudança. Um Homem de coragem e muito à frente para o seu tempo. Imediatamente depois do 25 de Abril, o grito do Ipiranga português, é publicado o 1º manifesto LGBT em Portugal. O Manifesto ‘Liberdade para as Minorias Sexuais’. O Diário de Lisboa publicou-o na íntegra e o Diário de Notícias parcialmente. António fez parte da redacão desse manifesto pioneiro e muito polémico que reclamava direitos de cidadania para os portugueses homossexuais que sofriam uma forte repressão jurídica e social, entre eles a descriminalização da homossexualidade, a reivindicação da possibilidade jurídica de contestar os atos de chantagem e perseguição que muitos homossexuais estavam sujeitos à época e a participação em movimentos políticos.

As reações não se fizeram esperar. “Passados dois ou três dias da publicação, o General Galvão de Melo veio dizer na televisão estatal, a única na altura, que o 25 de Abril não se tinha feito para as prostitutas e os homossexuais reivindicarem”, conta António.

Contudo, a emancipação dos direitos homossexuais não foi imediata e a sociedade portuguesa ainda encarava com desconfiança esta minoria. António recorda um episódio em que dois dos seus amigos, co-autores do manifesto, anunciavam uma grande manifestação no Porto:


Excerto do manifesto ‘liberdade para as minorias sexuais’.

políticos.

As reações não se fizeram esperar. “Passados dois ou três dias da publicação, o General Galvão de Melo veio dizer na televisão estatal, a única na altura, que o 25 de Abril não se tinha feito para as prostitutas e os homossexuais reivindicarem”, conta António.

Contudo, a emancipação dos direitos homossexuais não foi imediata e a sociedade portuguesa ainda encarava com desconfiança esta minoria. António recorda um episódio em que dois dos seus amigos, co-autores do manifesto, anunciavam uma grande manifestação no Porto:

Uma espécie de manifestação.

A descriminalização da prática homossexual só chegaria ao nosso país em 1982. Contudo, quando praticada de forma recatada, como se vem a explicitar na revisão do Código Penal desse mesmo ano. As mentalidades foram lentamente mudando. “Entretanto, foi havendo uma atitude de aceitação, particularmente na cidade de Lisboa, que levou a que alguns deputados na altura começassem a perceber que, à semelhança dos países europeus mais avançados, Portugal estava atrasado no tempo e que era altura de descriminalizar porque isso era uma chaga na sociedade portuguesa. Mas o facto de ter sido aprovado não mudou imediatamente as mentalidades. As leis não mudam mentalidades”, explica.

Algo mais tinha de ser feito pelos direitos dos homossexuais. A par da ILGA Portugal, a Opus Gay, fundada por António Serzedelo, é uma das mais importantes organizações cívicas que luta pelos direitos das minorias sexuais.


Manifestação do orgulho gay nos década de 90.

Fundada em 1997, António criou-a com o propósito de descentrar a preocupação dos homossexuais com a questão da Sida. “A ILGA Portugal estava muito centrada na questão do HIV e com isso conotava definitivamente os homossexuais com a doença. A doença existia e morria-se muito, mas era uma minoria. Mas também nessa altura não havia preservativos, a primeira vez que fui à farmácia comprar preservativos o farmacêutico de balcão chamou o dono da farmácia para tomarem nota do meu nome. Havia, de facto, uma barreira social”, sublinha.

A Opus Gay propunha-se, assim, a ajudar a encontrar soluções para todos os problemas da comunidade homossexual, centrando o seu objetivo não apenas em erradicar a Sida, mas também todas as questões que afetavam as minorias sociais.

Considerações Finais
Os pais e os filhos
Se, nos nossos dias, dois jovens homossexuais podem andar de mãos dadas no nosso país devem-no a homens como António. Homens que lutaram pelos direitos que deveriam ser intrínsecos a toda a população.

Hoje, António vive tempos dos quais se orgulha. Se atualmente é possível o casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo, há 40 anos António considerava que isso seria algo totalmente descabido: “Nem imaginava que isso podia acontecer. Não me passaria pela cabeça, naquela altura, propor o casamento entre dois homens”, confessa. Mas a verdade é que a utopia se transformou numa realidade e, em 2010, António foi convidado pelo então primeiro-ministro José Sócrates no dia da publicação da lei.

Aos jovens homossexuais que estão a começar a descobrir a sua sexualidade, António deixa um conselho: “Primeiro, que se assumam interiormente, que saiam do armário interior em que estão para encontrarem a sua própria liberdade interior. Depois, aos poucos, que vão dando os passos perante os grupos sociais que entendam. É complicado e a pessoa precisa de ter apoios”.

Contudo, muitas das vezes, estes pequenos e tímidos passos são percorridos sozinhos sem o apoio fundamental da família e nomeadamente dos pais. A estes, António deixa um último conselho: “Primeiro, que leiam um bocadinho. Depois, que tenham uma conversa com um psicólogo e, por fim, uma conversa com o filho ou a filha. Essa aceitação dos pais dá uma grande paz interior e faz com que o jovem seja muito mais feliz e possa, com essa paz, construir o seu futuro”.

https://ritasantos.atavist.com/antonioserzedelo

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.