Arnhem, o fiasco de uma operação, setembro de 1944

Beja Santos: Depois de quebrar a resistência às forças armadas alemãs em França, após o rápido sucesso de libertação de uma grande parte da Bélgica, cresceu a euforia de que os Aliados podiam chegar rapidamente a Berlim. O marechal Montgomery instou numa operação que veio a ter o nome de Market Garden que se destinava a pôr um ponto final à guerra mediante a captura das pontes que conduzem ao Baixo Reno, última barreira natural para invadir a Alemanha. A operação revelar-se-ia um desastre para os Aliados e a última vitória das forças alemãs, no rescaldo exerceram-se aterradoras represálias sobre os holandeses. É este o conteúdo do trabalho histórico de Antony Beevor sobre a batalha de Arnhem: “Arnhem, a batalha pelas pontes, 1944”, por Antony Beevor, Bertrand Editora, 2018.

É uma investigação soberba, minuciosa, movimentada, em poliedro acompanhamos os preparativos, os dias de operação, o seu desenlace, é uma leitura que prende do princípio ao fim, a despeito das inumeráveis unidades militares envolvidas. Veremos como foram mobilizados contingentes de toda a ordem, logo uma primeira vaga de 1500 aviões de transporte e 500 planadores, centenas de bombardeiros, caças-bombardeiros e caças, tinham por missão destruir antecipadamente aeródromos, casernas e posições de artilharia antiaérea: “Às primeiras horas de 17 de setembro, 200 Lancasters do Comando de Bombardeiros e 23 Mosquitos iam atacar os aeródromos alemães em várias localidades, largando 890 toneladas de bombas. Pouco depois do amanhecer, outros 85 Lancasters e 15 Mosquitos, escoltados por 53 Spitfires, iam atacar as baterias de artilharia antiaérea costeira com 535 toneladas de bombas (como termo de comparação, o ataque mais violento da Luftwaffe sobre Londres durante a Batalha da Grã-Bretanha largou apenas 350 toneladas). As Fortalezas Voadoras da 8.ª Força Aérea americana iam bombardear o aeródromo de Eindhoven, ao passo que a força principal, escoltada por 161 Mustangs P-51, ia atacar 117 posições de artilharia antiaérea ao longo das rotas de transporte de tropas e à volta das zonas de largada e aterragem.

É uma leitura turbilhonante, a 3 de setembro os Aliados avançavam sobre Antuérpia, Bruxelas e Maastricht, queria-se rapidamente chegar ao coração do Ruhr, os alemães retiravam através da Holanda, eram um exército aparentemente em debandada, vinham com carros pilhados em França e na Bélgica. E o autor vai-nos apresentando os principais agentes da peça: nazis holandeses, o avanço das divisões dos Aliados, a captura da Antuérpia em 4 de setembro, a entrada no palco do lendário marechal von Rundstedt e do general Kurt Student, vão cumprir a ordem de Hitler, construir uma nova linha de defesa e aguentá-la indefinidamente, avançam para o Reno unidades Panzer de grande qualidade, mas já desfalcadas, paraquedistas, unidades de artilharia antiaérea, jovens inexperientes, cavalos a puxar carroças. Ficamos a conhecer a orgânica da administração nazi na Holanda. Noutra dimensão, a organização do exército aerotransportado aliado e os seus responsáveis, juntando, entre outros, norte-americanos, britânicos, canadianos e polacos. É então que Montgomery insiste na operação Market Garden, há já quem sonhe em que antes do Natal Berlim capitule. Houve sérias reticências à operação, o general polaco não se conteve e disse que era um puro suicídio. O marido da rainha Juliana, príncipe Bernardo, advertira sobre a impossibilidade de deslocar veículos blindados a partir de uma única estrada elevada para os pólderes planos e alagados.

Quase ao minuto, acompanhamos a operação, os seus retoques, a disposição defensiva alemã, a chegada a grande velocidade de reforços, a 17 de setembro dá-se a invasão, o céu enche-se com Dakotas e planadores que transportam a 1.ª Divisão de Paraquedistas Britânicos e duas divisões norte-americanas. E dá-se o impacto, a reação alemã, acompanhamos o fragor de aviões despenhados, de paraquedistas atingidos no ar, mantimentos atirados ao acaso. O responsável pela reação do lado alemão é um experiente oficial-general, Model. Ao princípio, mesmo com aterragens atamancadas e dispersas, ninguém suspeita no meio daquele caos que o desfecho será a retirada com muitas baixas e prisioneiros, e não só do lado dos Aliados. Acompanhamos a Batalha de Arnhem com as diferentes vagas de tropas aerotransportadas e o avanço para os objetivos da operação, tomar as pontes, de preferência intactas. Antony Beevor privilegia os civis holandeses em cena, grandes sofredores, verão as suas vilas e aldeias destruídas casa a casa, acompanharemos as batalhas, os corpos carbonizados, o rol infindável de feridos, por vezes inimigos lado a lado, cenas bestiais, caso de um porco que anda à procura de restos humanos para se alimentar. Atos de bravura, tanto do lado alemão como dos Aliados. Assistiremos a cenas épicas do fair-play britânico, a povoações que serão tomadas pelos dois contendores, gente a morrer de fome e sede, acima de tudo mergulhamos no coração das trevas, há neste livro parágrafos incontornáveis sobre o horror que preside a todas as guerras.

A Batalha de Arnhem foi analisada por todos, Montgomery culpou o tempo e não o plano, escreveram-se fantasias, os alemães ficaram temporariamente moralizados, os polacos, naquele preciso instante estavam a ver a revolta em Varsóvia completamente esmagada, ficaram ainda mais tristes. Quem sofreu mais foram os holandeses, 180 mil pessoas foram forçadas a sair das suas casas, as povoações foram pilhadas, os alemães levaram tudo quanto puderam. E as represálias meteram trabalhos forçados, torturas e fuzilamentos. Só praticamente no fim da guerra é que esta região sacrificada conheceu a libertação. A 5 de maio, um general alemão assinou a rendição das forças alemãs na Holanda. Há estimativas que morreram de fome de entre 16 a 20 mil civis holandeses. “Embora os holandeses tivessem muito a perdoar na sequência da Operação Market Garden, a sua generosidade instintiva para com as tropas aliadas na altura e desde então para com os veteranos tem sido um dos legados mais comoventes da II Guerra Mundial”.

Um grande documento histórico, de leitura obrigatória.

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