Cada um de nós tem direito aos seus heróis e estandartes

Beja Santos: Bruno Vieira Amaral é justamente considerado um dos melhores escritores da sua geração, os seus romances As Primeiras Coisas e Hoje Estarás Comigo no Paraíso prontamente mereceram o aplauso dos leitores e da crítica, daí os variadíssimos prémios que os distinguiram.

Manobras de Guerrilha, Pugilistas, Pokémons & Génios, por Bruno Vieira Amaral, Quetzal Editores, 2018, é uma compilação de intervenções do romancista, nomeadamente sobre a forma de ensaios, artigos, reportagens e entradas de blogues. Confirmou a excelência da escrita, um carimbo muito próprio do olhar emotivo, uma sublime aliança entre a simplicidade e a elegância da forma. Logo quando nos fala de um ídolo da sua juventude, Fernando Chalana, fala-se do Barreiro e de um regresso posterior pelo Lavradio. E comentários luminosos, assim: “Nas piores alturas da vida, nos anos em Bordéus e logo depois de ter deixado o futebol, quando nem sequer tinha dinheiro para pagar água e luz, quando os amigos de ocasião desapareceram porque o Chalana já não era o Chalana, tudo o que tinha era os pombos, bálsamo espiritual. O fascínio pela inteligência dos animais, largados a centenas de quilómetros de casa e, ao fim da tarde, regressados ao pombal, a certeza de que, ao vê-los chegar, a terra ainda é um lugar para os homens. Haverá nisto uma mensagem poderosa, uma ligação. Não consegue explicar. Quando o indagam sobre essa mania dos pombos, só pode responder o mesmo de quando lhe perguntavam, à procura do segredo dos seus truques, ansiosos por reduzir a factos mensuráveis as coisas impossíveis que fazia em campo, de onde vinham aquelas fintas: ‘Não sei’ ”.

Veja-se a mestria como engata o seu registo sobre Messi, falando de Maradona: “Messi ultrapassa Maradona em praticamente todos os dados estatísticos relevantes: número de golos, troféus, distinções individuais. Maradona nunca venceu a Liga dos Campeões, Messi tem quatro. Messi tem cinco Bolas de Ouro, Maradona não ganhou nenhuma porque, naquele tempo, o prémio destinava-se a jogadores europeus. A Messi falta apenas uma conquista coletiva com a sua Seleção, esse pináculo fugidio, o Eldorado que Maradona atingiu numa demanda quase pessoal. (…) Havia em Maradona uma força demiúrgica e um impulso destrutivo que transcendiam os apertados limites de um campo de futebol. Numa altura em que o alcance global do futebol é inédito, os deuses da bola, como Messi e Cristiano Ronaldo, são conhecidos e reconhecidos a uma escala impensável há 30 anos. Mas o impacto de Maradona na cultura e na imaginação populares é incomparável. Com dois golos míticos numa célebre tarde mexicana, vingou uma nação derrotada pelas armas”.

Depois dos deuses do estádio temos os gigantes do ringue, e numa cadência que deslumbra qualquer leitor que está pronto a aceitar boa prosa em angulações originais, lemos sobre Fernando Mamede, o estilo de Albert Camus visto por Susan Sontag, a escrita de Nelson Rodrigues, uma elegia a Freddie Mercury ou a David Bowie. Há encontros de escritores, em Budapeste ou na Madeira, há mesmo um safari Pokémon no Barreiro, envereda-se pelo país profundo, que pode ser a aldeia do Doutor Zeca ou duas horas de caminhada entre Fermil e Mondim de Basto, viaja-se até à Índia, estamos agora na Velha Goa: “Quase todas as igrejas são desertas, exceto a maior, onde repousam os restos mortais de São Francisco Xavier, apóstolo do Oriente, e que parecia uma feira cruzada por turistas europeus de diferentes nacionalidades. Envergonhado, guardei a minha máquina fotográfica. Na condição de turistas, a presença dos outros envergonha-nos, como se nos alertasse para a nossa própria nudez. No fundo, sabemos que há naquela atividade algo de pornográfico e rapace”.

Esta coletânea tem a largura própria das miscelâneas, porventura os críticos literários dirão que o todo não se equivale às preciosidades do que vem nos seus romances. O que me parece uma rematada tolice, sempre houve entre nós grandes repórteres e na sociedade digital há um enorme espaço de conversa, tudo ganha a forma de anfiteatro planetário, e vê-se com prazer um jovem e já consumado escritor dar provas lídimas de que é culto e original na multiplicidade das suas vagabundagens, seja a falar sobre a decência ou a alma dos livros, e aqui me detenho numa sua observação:

“Para a existência da grande literatura é necessário que o escritor escreva contra os seus leitores, contra si mesmo, contra as ideias feitas e a melodia fácil da má poesia. É essa a rebeldia de que precisam aqueles que escrevem: não é a rebeldia política, a confortável rebeldia de salão de quem berra contra os poderes em público e depois pratica uma escrita mansinha, delicada e diluída; nem é a rebeldia social, de quem desafia convenções a quem já ninguém liga; mas a rebeldia de quem se atreve a escrever contra o mundo, de quem abdica das muletas da linguagem mesmo que se arrisque a cair, de quem se desafia a si mesmo e desafia os seus leitores, de quem evita as fórmulas porque as fórmulas são respostas antigas a perguntas que já ninguém faz. É essa rebeldia intrínseca à escrita que é a alma dos grandes livros, livros que pedem a inteligência dos leitores e cujas ideias incómodas os obrigam a sair do marasmo e da inércia próprios do leitor que lê para que lhe venha o sono”.

Vasta é a coletânea em que esmiuça uma fotografia de um avô com o neto, onde se tem atrevimento para “Ode ao olho do cu”, e se fala do medo e até dos nossos mortos. Um belo livro, mais a confirmar o que se sabe dos belos romances de Bruno Vieira Amaral.

 

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