Chegar novo a velho, por Manuel Pinto Coelho | Beja Santos

Chegar novo a velho, por Manuel Pinto Coelho

 

Beja Santos

 

“Chegar Novo a Velho”, por Manuel Pinto Coelho, Prime Books, é seguramente o maior sucesso editorial dos últimos ano: editado inicialmente em 2015, em Julho de 2017 ia na 31ª edição. Pode entender-se a atração de quem é sénior ou para lá caminha com o título deste livro, propondo questões como tratar da saúde antes da doença, entender que o alimento é o nosso melhor remédio, que o colesterol é um mito. E depois o que se escreve na contracapa dá-nos a ilusão de estarmos perante um livro destinado ao grande público:

“Nós não morremos, matamos-mos

Já ninguém duvida que é muito importante tratar da saúde antes da doença. Conservar e fortalecer o nosso equipamento biológico composto por cerca de dez triliões de células é possível se lhe fornecermos todos os nutrientes indispensáveis às suas necessidades.

Sabe-se que as células têm um tempo de vida limitado, regenerando-se automática e periodicamente. Se adoecemos e envelhecemos é porque existem desequilíbrios e carências que as impedem de se regenerar totalmente.

Ora estas situações podem e devem ser corrigidas por cada um de nós. Fazendo a ponte entre as novas descobertas da investigação científica e a prática médica convencional, podemos revolucionar os nossos cuidados de saúde, desenvolvendo novas estratégias de prevenção e tratamento, complementados e sempre que possíveis naturais, que permitirão prever, apaziguar ou até curar situações graves como algumas doenças autoimunes, neurodegenerativas e o cancro, entre outras. Este livro, baseado em literatura científica atual idónea, dá a conhecer novas estratégias de intervenção e tratamento da doença, visando ajudar o leitor a controlar melhorar a sua saúde. Acredite que envelhecer de uma forma saudável, sentindo-se melhor à medida que vamos avançando na idade, é um processo possível”.

Quem lê este apelo, considera necessariamente que tem uma leitura acessível e operacional à sua espera. Puro engano, trata-se de uma obra que exige conhecimentos alargados das ciências da Nutrição e da biologia do ser humano. Um leitor de preparação mediana é rapidamente confrontado com explicações para as quais não possui informação nem resposta: como beber água do mar, os porquês da restrição calórica e do jejum e as várias formas de o fazer, o que são radicais livres… Chegamos rapidamente à mitologia do colesterol, assunto que o autor sabe que é nada pacífico e que a maioria dos médicos contra as suas propostas. Se dúvidas houvesse que este livro se destina para alunos de nutrição e crentes nas soluções externas àquilo que o autor chama à medicina convencional é a abordagem que o autor faz sobre a suplementação avançada. Como vivemos todos ameados pela poluição e pela produção de massas, a suplementação é fatal como o destino, precisamos de aportes de cálcio, magnésio, vitaminas de toda a espécie e selénio, e muito mais. O autor não deixa de se referir às hormonas, dá como provado que a DHEA é a fonte da juventude. Só a citação de um parágrafo para o leitor entender que nem todos podem meter o dente neste sucesso editorial: “Descoberta nos anos 30 e considerada a fonte da juventude nos anos 90, hormona esteroide (derivada do colesterol) como as sexuais (progesterona, testosterona e estrogénios – estriol, estradiol e estrona) e suprarrenais (mineral ou corticoides – aldosterona e glucocorticoides – cortisol) a DHEA (DiHidroEpiAndrosterona) é produzida principalmente pelas glândulas suprarrenais e também em quantidades reduzidas nos testículos e no cérebro e é o mais abundante esteroide natural encontrado na corrente sanguínea. Aí circula ligada a um sulfato (DHEA-S) é uma hormona anabólica ou seja de construção e é juntamente com o cortisol e aldosterona a mais abundante hormona utilizada pelo corpo humano para fabricar outras hormonas como a testosterona no homem e os estrogénios na mulher”.

São apregoadas as vantagens do sol em dose moderadas, alerta-se para os riscos da exposição ambiental às toxinas e metais pesados, não se esquece o desenvolvimento dos conhecimentos da genética e epigenética. O autor considera que há novos horizontes de esperança nas doenças neurodegenerativas e uma delas é a alimentação; o mesmo dirá das doenças autoimunes (caso da artrite reumatoide ou do lúpus e esclerose múltipla) fala do intestino saudável e depois das novas doenças da modernidade como a depressão, a fibromialgia e a hiperatividade. Por fim apresenta o seu programa de longevidade/rejuvenescimento, tudo passa pela mudança de hábitos alimentares, beber litro e meia de água alcalina, comer um terço de carne biológica alimentada a erva e/ou peixe e ovos igualmente biológicos, fazer alguma atividade física, fazer uma modulação hormonal bioidêntica, tomar alguns suplementos base, fazer jejum intermitente, não fumar, não beber refrigerantes e bebidas gaseificadas, usar óleo de coco e azeite. E despede-se assim: “Mais importante que tudo, melhora a sua atitude psicológica, torne o ambiente agradável à sua volta, tenha uma boa postura, respire bem, tente ser feliz com os recursos que tem, relativize a sua situação por menos simpática que ela seja e faça por desenvolver as três seguintes características da personalidade: altruísmo, capacidade de mostrar gratidão, capacidade de não guardar ressentimento”.

De tempos a tempos, surgem uns magos da medicina com dietas anti-cancro, regimes alimentares extremistas e até poções alimentares antissociais, impressionam quem anda à procura de uma resposta para os seus padecimentos, fazem clientela e depois são esquecidos pelo mago que vem a seguir. “Chegar Novo a Velho” é um livro insuportável de um médico convencido e que encontrou o evangelho do anti-envelhecimento. É bem feito para quem se quer deixar impressionar, e pouco mais.

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