É a consciência lúcida que abre o caminho para a saúde | Beja Santos

É a consciência lúcida que abre o caminho para a saúde

 

Beja Santos

 

“7 lições para ser feliz ou os paradoxos da felicidade”, por Luc Ferry, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2017, é um provocatório manifesto filosófico, desanca na inumerável literatura do desenvolvimento pessoal carregada de promessas para alcançar com o esforço mínimo do bem-estar, a serenidade e a felicidade graças a certas técnicas espirituais, a exercício práticos de sabedoria, alguns deles até são magistralmente redigidos para dar conforto aos que se encontram em angústia e sofrimento. Luc Ferry é filósofo, pedagogo e incansável defensor do humanismo secular (uma mundividência que se contrapõe à religião, advogando o uso da razão crítica em lugar da fé na busca de respostas para as questões humanas mais importantes). Lembra, logo à partida que tudo o que nos torna felizes, o amor, a admiração, a liberdade e outros elementos é também o que pode tornar-nos mais infelizes. Ao procurarmos demasiado a felicidade arriscamos a deceção, a mirífica promessa da felicidade tem um alto risco de transformar em tirania as sucessivas procuras em estado de euforia.

Sendo filósofo, recorda-nos a teologia cristão do sofrimento, o conceito republicano de mérito, a ascensão do individualismo acompanhado do direito à diferença e do hedonismo, um fenómeno que acompanha a procura volátil de ser feliz em torno de si próprio. O projeto do seu manifesto é de identificar o que nos torna felizes na lucidez, o que nos faz rejubilar sem ocultar o sentido do efémero, e serve-se de sete ideias como itinerário: amar, admirar, emancipar-se, alargar os horizontes, aprender e criar, agir.

Quanto ao amar, lembra-nos Tristão e D. João, Eros e Psiqué, as promessas cristãs. O amor é aquilo que dá sentido à nossa vida. A admiração torna-nos felizes, Luc Ferry faz-nos viajar desde a pintura holandesa aos desportos de massa, procura mostrar como é apenas no nosso universo laico que começamos a poder contemplar os verdadeiros objetos da admiração: a lucidez mais dos que a ilusões, mas também a beleza, a justiça e amor humanos. Sobre a emancipação, escreve textualmente: “Se a privação da liberdade é uma infelicidade, o exercício dela nem sempre é uma garantia de felicidade. Ser livre é assumir as suas escolhas, levá-las a sério, sentir-se mais responsável do que inocente e por vezes elas levam-nos a sacrificar o nosso bem-estar em nome de valores superiores à felicidade: a dignidade humana, a resistência à opressão, ao totalitarismo, à barbárie ou mesmo, muito simplesmente, a obrigação de defender aqueles que amamos”.

Também o pensamento alargado nos torna felizes, e a sua observação tem o seu quê de surpreendente: “A alegria de viver supõe sobretudo que o bem-estar propriamente dito exija na verdade que se tome em conta a dimensão do sentido. Ele é o elemento essencial, aquele que estabelece sem dúvida a diferença entre o animal e o humano. Ora, para que serve envelhecer senão para alargar o horizonte. Para alargar a visão, para aprender a amar a singularidade dos seres como a das obras, e por vezes, quando esse amor é intenso, a viver a abolição do tempo que nos é dada pela sua presença. E assim conseguimos, mas só por momentos, libertar-nos da tirania do passado e do futuro. Temos sofrimentos e alegrias do conhecimento, é temática que tem a ver com estudo, a criação, aprender a reconciliar um pedaço do sensível com uma parte do inteligível. Luc Ferry foi ministro da Educação e faz-se convicto da sua proposta: “Deve-se conseguir conjugar desde a escola primária a democratização e a transmissão dos saberes fundamentais (…) O principal facto, e a meu ver o mais preocupante, é que hoje em dia, um pequeno número de crianças, frequentemente graças à tenacidade dos pais, compreendem que no mundo da inovação destrutiva, da globalização liberal, o conhecimento é mais vital o que nunca (…) O problema da educação prende-se muitíssimo menos com uma qualquer reforma ad escola, dos seus programas, dos seus métodos ou dos seus professores, do que com o estado das famílias que reflete o de uma sociedade em que a lógica capitalista da inovação se faz acompanhar por uma desconstrução muito problemática dos valores e das autoridades tradicionais.

O itinerário aproxima-se da última estação, o agir, porque trabalhar para o bem de outrem pode tronar-nos felizes. Adverte-nos que é um adepto intransigente da civilização europeia, a Europa é a autonomia e o Estado-providência, a liberdade e a proteção social, a laicidade e o respeito de todas as religiões. E confidencia-nos o segredo da sua opção pela felicidade: “Se eu apenas pudesse reter uma única mensagem da psicanálise freudiana, essa verdade segundo a qual são as patranhas que nos põem doentes e a consciência lúcida que abre o caminho para a saúde. Se a filosofia porventura me salvou a vida, foi decerto por essa via, e não elaborando ideologias consoladoras, e sedutoras à primeira vista mas funestas para a reflexão”.

É hoje pouco comum os filósofos virem a terreiro lembrar que há modos de alcançar a alegria e a serenidade sem recorrer à quinquilharia das consolações do efémero gratificante. Luc Ferry escreve magistralmente sobre os paradoxos da felicidade com sageza e perscrutando sem tibieza o mundo em que vivemos.

Um ensaio brilhante.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.