Ellery Queen, o imperador da literatura de crime e mistério

Beja Santos:

Em boa hora a Coleção Vampiro reedita “O Enigma do Sapato Holandês”, de Ellery Queen (Livros do Brasil/Porto Editora, 2018). Com bastante regularidade, as altas autoridades com conhecimentos deste subgénero literário reúnem-se e discutem quais as figuras de maior dimensão da literatura policial (creio que o título mais apropriado é o de literatura de crime e mistério, o policial, em grande número dos casos, é meramente residual, desvendado o autor do crime e o mistério que empolga o leitor do princípio ao fim, é que intervém a função policial) e a conclusão a que chegam é de que no primeiro lugar do pódio está Ellery Queen, pseudónimo da dupla Daniel Nathan e Manford Lepofsky, norte-americanos, aficionados de Sherlock Holmes e que ganharam notoriedade em 1929 logo com o seu primeiro romance. A dupla, para além dos mais de 30 romances com o prodigioso detetive Ellery Queen, herói de numerosas novelas, peças radiofónicas, filmes e séries de televisão, deixaram o seu nome ligado à Ellery Queen’s Mistery Magazine, que circulou em Portugal durante muitos anos.

Este terceiro romance de Ellery Queen tem várias singularidades, talvez a mais significativa passe pela ação temporal. O detetive (snob, meditativo, muito senhor do seu método dedutivo) precisa de obter informações junto de um médico amigo que trabalha no Hospital Holandês, em Nova Iorque, a questão que lhe leva é se existe alguma circunstância que possa abreviar o espaço de tempo em que habitualmente começa o rigor mortis. O amigo procura esclarecê-lo e amavelmente mostra-lhe as instalações. A mecenas do hospital, Abigail Doorn, vai ser operada, estatelou-se e entrou em coma diabético, dão-se explicações sobre o tratamento do diabético à altura dos conhecimentos da época, vai ser operada dentro de momentos, durante a visita fazem-se novas apresentações, entra-se rapidamente no clímax, Abigail é assassinada na sala de operações. O nosso herói detectivesco é apresentado como diletante de criminologia, é filho do inspetor Richard Queen, tem um olhar penetrante e raciocínio rápido no teatro do crime. Tudo se desenrola em continuidade, pronto começa a inquirição, quem entrou quem saiu, quem esteve e por quanto tempo, há indícios contraditórios do médico, que manquejava, e da enfermeira assistente, descobre-se roupa que teria sido usada por um sósia do médico operador, Ellery Queen presta inusitada atenção aos sapatos ali deixados, virão a ter um papel crucial no conhecimento do criminoso.

Todos vão sendo ouvidos, a polícia e o detetive Queen parecem estar confrontados com um enigma intransponível, os alibis de quem estava no hospital parecem à prova de bala, com a exceção do médico operador que recebera uma visita e não quer revelar a sua identidade. A inquirição orienta-se para os membros da família de Abigail Doorn, enquanto igualmente se descobre que um famosíssimo gangster estava para ser operado no Hospital Holandês. Aqueles membros da família têm currículos com algumas sinuosidades, há um procurador da milionária que está vivamente apaixonado pela herdeira, o irmão da herdeira é um dissipador, descobre-se que dois investigadores do Hospital Holandês tinham um projeto de investigação apoiado pela vítima, entretanto o financiamento dado pela milionária iria ser suspenso.

Se a singularidade deste terceiro livro começa pela ação temporal, a revelação do crime demorará escassos dias, uma outra peculiaridade é a extensão das inquirições e atenda-se que o autor fez entrar em cena bastantes profissionais de saúde, investigadores e o círculo íntimo de Abigail Doorn. Para apimentar estas inquirições surge uma figura exótica, a dama de companhia da assassinada, esquivando-se a respostas diretas e lançando sentenças bíblicas.

Desvela-se o segredo da visita do médico operador, Ellery Queen lança um desafio ao leitor sobre a essência do crime, o desfeche acelera-se quando ocorre um novo assassinato, nova investigação ao local do crime, o detetive prodigioso encontra a razão de ser dos dois assassinatos, convoca-se uma reunião original, uma das enfermeiras, que é colaboradora direta de um médico assassinado vai tomando notas da exposição de Ellery Queen que começa por dizer que nunca encontrara um crime mais minuciosamente planeado do que este e explica a marcha das inquirições, as muitas hesitações, os becos sem saída até que tudo se clarifica, as provas são irrefutáveis.

Este terceiro romance de Ellery Queen foi aclamado, trazia a relação com um país, já houvera o mistério do chapéu romano, depois o mistério do pó francês vinha agora o enigma do sapato holandês. Estava caraterizado o detetive e o seu meio: escritor, filho de inspetor da polícia, uma vida confortável no centro de Nova Iorque, nenhumas preocupações com a lida da casa, é um jovem criado que suporta a logística, doravante haverá uma enorme diversidade nos romances-problema com que vai lidar este consagrado detetive que investiga mas não prende. A dupla Ellery Queen procurou diversificar os seus heróis mas as preferências do público centraram-se neste génio de células cinzentas a quem cai sempre do céu crimes emaranhados, assassinos altamente sofisticados. Não me espantará que a Coleção Vampiro em fase de renovação não vá buscar mais histórias do chamado Ciclo de Wrightsville e consagradas obras-primas como “Dez dias de mistério” e “A porta do meio”, o suprassumo dos enredos complexos só ao alcance daquele que continua a ser o imperador dos mestres da literatura policial.

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