Em Bruxelas, para comemorar 40 anos de uma amizade (1)

Beja Santos

Em 1977, espero que se recordem, o governo português deu-me um sinal inequívoco de querer vir aderir à Comunidade Económica Europeia. Os departamentos ministeriais começaram a selecionar funcionários para irem a Bruxelas adestrar-se sobre os respetivos dossiês da especialidade. O viandante andava já bastante imiscuído nas tarefas do consumo e coube-lhe ir conhecer na chamada capital da Europa a essência da política dos consumidores, na vertente institucional e associativa. E durante uma semana, em Outubro de 1977, andou de Herodes para Pilatos, conversou com meio mundo, assombrou-se com a proliferação de organizações como cooperativas, famílias, mulheres, associações de consumidores, sindicatos, no caso destes a Bélgica oferecia visões de democratas cristãos, liberais e socialistas, conversou-se com todos. Pois é no encontro com a Federação Geral dos Trabalhadores da Bélgica que se conheceu um senhor altamente preparado e que até já exercia funções no Comité Europeu dos Consumidores. Era tal a sua visão do consumo e a articulação dos fatores de mercado envolvidos que o viandante dali saiu bem impressionado, pedindo-lhe para manter a via aberta para ulteriores esclarecimentos. E assim se foi fortalecendo a comunicação, veio a amizade e a intimidade, depois a troca de visitas, assim se passaram 40 anos. Foi a efeméride que se veio celebrar, todo e qualquer pretexto é bom para regressar a Bruxelas, cidade de cultura, de jardins, de livrarias de obras usadas, de uma miríade de casas de bricabraque, e de uma prodigiosa feira da ladra, que tanto acicata o viajante. Aqui se mostra em lugar de destaque Andre Cornerotte, belga das Ardenas, antigo padre operário, um dos mais capacitados defensores do consumidor que o viandante conheceu, está hoje com 84 anos e não esconde o prazer de receber o seu amigo.

 [Imagem 1]

Foi uma visita inusitada, previam-se seis dias acabaram por ser dez, por acontecimentos da Ryanair. Chegou-se, passou-se a tarde a vaguear pela floresta e a pôr a escrita em dia. O anfitrião sugeria que o viandante o acompanhasse na manhã seguinte a Uccle, uma das comunas da cidade de Bruxelas, bem perto do Brabante Flamengo, iria jogar a manhã inteira partidas de bridge em casa de uma senhora onde o viandante seria bem recebido, queria mesmo mostrar-lhe alguns objetos de arte. E lá foram, antes do bridge falou-se de porcelana chinesa, escultura europeia e tapeçaria. E enquanto andavam por ali afanosamente a jogar, o viandante passeava a mirar objetos e o jardim.

[Imagem 2]

Aqui fica um pormenor de uma bela tapeçaria de fábrica de Bruxelas, talvez meados do século XVIII, muitíssimo bem conservada, revestindo uma imensa parede, o viandante viu-se e desejou-se para escolher um ângulo que desse amplitude a tão belo trabalho só que a sua câmara tem severas limitações, mas o que se regista é de uma indizível beleza.

[Imagens 3, 4 e 5]

Mais por diante falaremos dos encantos outonais que esta natureza nos reserva, aqui se mostra um ácer já a fenecer, o vermelho da folhagem com ligeiro amarelecimento, a alvura dos crisântemos e o parque envolvente. A anfitriã ofereceu um bom naco de galinha e puré como almoço e depois mandou gentilmente os presentes à sua vida, o viandante não se fez rogado, apanhou um transporte público e começou a vadiagem no centro de Bruxelas.

[Imagem 6]

Num bom livro sobre percursos de Bruxelas, que adiante se fará referência, os autores encetam a sua visita guiada à cidade no gigantesco palácio da justiça, assim escrevendo: “Não se lhe consegue escapar. Mais tarde ou mais cedo, avistamo-lo. De longe, a sua cúpula coroada e decorada a ouro serve de ponto de referência. De perto, o edifício monumental de aspeto sombrio e severo interroga-nos, inquieta-nos ou fascina-nos. O Palácio de Justiça de Bruxelas não deixa ninguém indiferente. As dimensões do edifício revelam, por si só, a imensidão da superfície a percorrer e a manter: 26 000 metros quadrados de área, 665 000 metros cúbicos de volume, 576 divisões”. O céu nem chega a ser de chumbo, como se vê, aqui se mostra um pormenor da fachada principal, sempre a conheci em obras, em obras está. No lado esquerdo, avista-se a sinagoga, o museu judaico é no Sablon, um pouco mais abaixo, dele também se falará por causa de uma belíssima exposição sobre Bruxelas, terra de acolhimento.

[Imagem 7]

O imperador Carlos V nasceu em Gand, em adolescente foi para a corte de Espanha. É figura central da política europeia, apanhou o acesso da Reforma e amargurado com os acontecimentos deu o trono a seu filho, Filipe II que governou a Flandres com mão de ferro. Alguma nobreza procurou revoltar-se contra o jugo espanhol, foram executados na Grand Place. Aqui o monumento aos dois chefes da sublevação, Egmont e Horn. Egmont será motivo de inspiração para uma importante peça de Beethoven.

[Imagem 8]

Do jardim de Egmont e Horn avista-se um dos mais importantes templos religiosos de Bruxelas, Nossa Senhora do Sablon.

[Imagem 9]

Leopoldo I foi um rei riquíssimo, detinha o Congo, deu-lhe para fazer de Bruxelas uma cidade rival de Paris, ressalvadas as proporções. À porta dos museus reais de Belas Artes, há impressionantes esculturas, aproveita-se os últimos resquícios de luz para mostrar uma dessas ostentações escultóricas.

[Imagem 10]

Na descida da Praça Real pode ver-se o soberbo Hotel Ravenstein, um dos melhores edifícios conservados do fim da idade média, fotografado junto de um lago onde um mobile de Alexander Calder esvoaça em permanência.

[Imagem 11]

É o fim da viagem, em dias de luminosidade temos aqui uma das mais cativantes panorâmicas do centro da cidade com a famosa agulha do Hotel de Ville a simular um foguete a arrancar para os céus. Foi grande a surpresa do viandante com o edifício que se avista ao fundo à direita, nos últimos anos estava de portas encerradas, abriu agora para acolher uma das principais manifestações da Europália da Indonésia. Escurece rapidamente, e pouco passa das cinco da tarde. O dia de trabalho turístico ainda não findou, o viandante embrenha-se no centro, vai à procura de livros em segunda mão, antes de regressar a Penates. Teve sorte: comprou documentação sobre a Provença, que espera visitar em Março, e pagou dois euros por um livro de arte de autoria de Jorge Pais da Silva, que foi seu professor, vem agora no metro a saborear a dissertação do seu antigo mestre sobre o manuelino e o Convento de Cristo em Tomar. Não podia acabar melhor o segundo dia em Bruxelas.

[Imagem 12]

Para quem ama livros, revistas, mapas, alguma banda desenhada, a Galeria Bortier, em frente à Gare Central de Bruxelas, é um ponto de passagem obrigatório. Como se descobriu este oásis vai para 40 anos, não se vê melhor imagem para despedida da vadiagem a que se entregou o viandante.

a

b

(Continua)

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.