Encontro entre um homem e uma história, Casa de Santa Marta, Vaticano, conversas entre o Papa Francisco e um intelectual francês

Beja Santos: Dominique Wolton é um renomado sociólogo da comunicação francês com uma longa obra de investigação em torno da globalização, da diversidade cultural e da alteridade. Wolton propôs ao Papa um encadeado de conversas, onde não faltaram a paz e a guerra, a religião e a política, os prementes e atuais problemas europeus, como responder aos desafios atuais da cultura e comunicação, o que são a alegria e a misericórdia, que nova perspetiva introduziu no ritmo da Igreja Católica aquele que foi o Arcebispo de Buenos Aires, o primeiro jesuíta e argentino feito Papa.

Um Papa que disse em Lesbos: “Somos todos migrantes e somos todos refugiados”, Wolton pediu ao residente da Casa de Santa Marta o significado e este prontamente respondeu: “A nossa teologia é uma teologia de migrantes. É o que somos todos desde o chamamento de Abraão. O próprio Jesus foi um refugiado, um imigrante. E, existencialmente, segundo a fé, somos migrantes”. Francisco define a política como “convencer, argumentar e, acima de tudo, negociar em conjunto”. Recorre à imagem de um poliedro, em que todos os pontos estão unidos, mas cada ponto, quer represente um povo quer uma pessoa, conserva a sua própria identidade. São conversas entre dois homens cultíssimos, o Papa cita Romano Guardini ou confessa a sua estima por dois homens verdadeiramente adversários, Shimon Peres e Mahmoud Abbas, fala das pontes, do derrubamento dos muros, diz inequivocamente que a Igreja não deve envolver-se na política partidária, a grande política, essa sim, é uma das mais elevadas formas de caridade, está orientada para o bem comum de todos. Não se escusa de referir a teologia da libertação, dos graves problemas ambientais, refere que faltam grandes políticos à Europa e que o diálogo inter-religioso está a dar passos seguros. Volta à imagem do poliedro para falar da globalização, não se coíbe de falar dos 62 privilegiados que são hoje detentores da mesma riqueza que 3,5 mil milhões de pobres. Exalta os genuínos movimentos populares que lutam contra as desigualdades e aproveita para referir os tesouros de misericórdia que são aqueles missionários que percorrem o mundo pobre só para dar e que nada pedem.

É muito expressivo a falar das novas formas de organização da Igreja, realça a todo o tempo a alegria, considera que a maior ameaça global à paz nos dias de hoje é o dinheiro, é um homem confiante, o seu olhar estende-se para as igrejas de África e da Ásia, vale a pena ouvi-lo: “A Ásia conta com imenso património espiritual, 2000-3000 anos antes de Jesus Cristo, mais do que a África. Mas a África tem a alegria, a frescura. Um núncio contou-me que na catedral da capital do país onde ele exerce, diante da Porta Santa – porque o Jubileu é celebrado em todas as regiões do mundo – havia uma longa fila de pessoas que esperavam para entrar e celebrar o Jubileu. Entravam, alguns aproximavam-se do confessionário, outros rezavam: eram católicos. E a grande maioria prosseguia até ao altar da Virgem: eram muçulmanos! Porque até os muçulmanos querem fazer o Jubileu, mas fazem-nos com a Virgem. E isso, essa coexistência, é uma riqueza de África”. Este mesmo Papa reitera que o espírito cristão é aberto, que a modernidade é abertura, é não ter medo. De quando em quando, Francisco diz abertamente que não está em posição de emitir um parecer sério, que vai estudar, voltará ao assunto. E conversam sobre os assuntos europeus, Francisco enfatiza que a Europa assenta numa história de integração cultural muito forte, os longobardos são os nossos lombardos de hoje, são os bárbaros que chegaram há muito tempo. O fanatismo religioso prejudica o diálogo com outras crenças, mormente os judeus, é preciso trabalhar para que haja união apesar de todas as diferenças. E de novo fala na política, na “alta” política, que consiste em fazer as pessoas avançar com base numa proposta evangélica. A conversa sobre cultura e comunicação é profundamente animada, Francisco entusiasma-se: “Gosto muito de falar da linguagem dos gestos. É uma bela forma de comunicação. Porque, dos cinco sentidos, o mais importante é o do tato”. Mas exalta igualmente o silêncio: “Posso dizer-lhe que não consigo comunicar sem silêncio. Nas experiências mais autênticas de amizade, mas também de amor, os momentos mais bonitos são aqueles que misturam a palavra, os gestos e o silêncio”. E conta histórias da sua vida em que o silêncio é terno e afetuoso, quente e amistoso.

“Papa Francisco, um futuro de fé, uma conversa franca com o sociólogo Dominique Wolton”, Planeta, 2019, revela-nos, de um modo muito abrangente, a visão que o Papa tem da sociedade e da política, dos fundamentalismos e da laicidade, do ecumenismo, do indivíduo e da família. É desafrontado, veja-se este comentário: “Os pregadores correm um grande risco, que é o de caírem na mediocridade. E apenas condenarem a moral – desculpe a expressão – ‘da cintura para baixo’. No entanto, os outros pecados, que são os mais graves – o ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida –, desses já não se fala muito”. Aproveita o exemplo do futebol, o seu espetáculo, para recordar o futebol amador e observa: “Não há comunicação verdadeira sem gratuitidade. A gratuitidade significa ser capaz de perder tempo”. É por isso que Francisco é um comunicador nato, introduz a propósito uma história vivida e depois conclui: “A questão não é humanizar a tecnologia: é, sim, humanizar o Homem e protegê-lo”. A questão central das conversas passa pela Igreja aberta a que aspira Francisco. Nem sempre responde diretamente a Dominique Wolton, às vezes passa ao lado, outras vezes é incisivo: “Os padres católicos representam sensivelmente 2% dos pedófilos. Parece pouco, mas é de mais. Um só padre católico que seja já é horrível, a tolerância é zero! Porque o padre deve conduzir as crianças a Deus, e não destruir-lhes a vida”. A conversa vai sempre para a alegria, a alegria que está no coração do Evangelho, recorda a alegria que têm as crianças, a festa nas igrejas em África, no Vietname e na América Latina, dança-se e canta-se nas igrejas. Fala igualmente na misericórdia, na Igreja dos humildes, no tratamento da tradição, na laicidade, na universalidade da Igreja. E por fim, a essência da missão de Francisco, as reformas que ele está a imprimir, a paz que sente no Vaticano, a dádiva do Senhor que o faz andar por diante. Um livro sublime, para gente de todas as crenças.

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