Entardecer nos rios da Guiné, por Manuel Fialho

Beja Santos: Manuel Fialho é, em termos da literatura da guerra da Guiné, um reincidente. Estreou-se com “Além do Bojador”, seguiu-se “O Malinké” e foi publicado em abril de 2018 pela Editora Narrativa este “Entardecer nos Rios da Guiné”. Há um fio condutor, Miguel Lúcio combateu na Guiné na região de Farim, decorrido meio século, este ex-franciscano e ex-capelão que viveu em Farim, agora aposentado pela Universidade de São Paulo, recém-viúvo, regressa à Guiné, escolheu viver os seus últimos anos em território Mandinga, Binta, junto ao rio Cacheu, na casa da sua mulher, foi amor de capelão militar com Binta, como se descreveu em “Além do Bojador”.

Vive na austeridade o seu entardecer da vida, ouve cassetes, tem preferência pelos solos de oboé, e num certo entardecer aguarda a vinda do seu filho, de nome Francisco, vem na companhia de um grande amigo e camarada de armas da guerra da Guiné, também chamado Miguel, assim se inicia o romance contado na primeira pessoa do singular. Do seu amor por Binta, uma Mandinga, nasceu Francisco, bem-sucedido nos estudos e na profissão.

Miguel é um homem cheio de recordações. Estudou Teologia e História em Roma, aí conheceu Geneviève, uma freira, que muito amou numa discrição total. E eis que encostou ao velho cais uma lancha que traz Miguel e o filho do ex-capelão. Porque Miguel Lúcio escolheu aquele local? Ele responde que a preferência deve-se na procura de compreender o seu último percurso e por haver maior proximidade à memória da mulher que ele tanto amou. “Estava convicto que seria na observação dos comportamentos dos nativos onde eu poderia encontrar as razões mais remotas que me ajudariam a compreender a natureza humana. Dissimulava o vagar do tempo ouvindo algumas preferências musicais num velho gravador e leitor de cassetes a pilhas”. Miguel e a sua mulher Mandinga conheceram a felicidade por mais de quarenta anos. Estudou a velha África, a África dos grandes impérios do Gana e do Mali. É com alegria que recebe o filho e o seu maior amigo e combinam partir cedo na manhã seguinte para Farim. Na viagem lembram-se episódios da guerra que eles viveram e em Farim o passado de meio século reaviva-se: “Pisámos o chão vermelho batido pelo tempo. Miguel procurava sinais da época em que por ali andáramos. À direita, o conjunto da enfermaria e intendência militares e da velha piscina, todos em ruínas. Em frente, do outro lado, a central elétrica, cujo total abandono testemunhava o apagão generalizado a todo o território da Guiné. Levei-o à casa do médico, ali perto, a mesma casa em que ficavam os médicos de todos os batalhões que tinham passado por Farim. Mantinha-se cuidada, embora com a exígua mobília reduzida ao indispensável. O médico era um cubano, era de poucas falas. O português parecia já perdido por ali, falado por muito poucos e nem era ensinado nas escolas”. A visita prossegue, lembram-se mortos e feridos, a ponte de Lamel, os ataques a Farim, assim chegam à antiga administração onde são reconhecidos por velhos guineenses.

Os dias passam, viaja-se de jipe a Genico, Cufeu, Ujeque e Guidage, por ali os dois ex-combatentes de nome Miguel andaram meio século antes, recorda-se o fatídico mês de maio de 1973, sobretudo os acontecimentos sanguinolentos na bolanha de Cufeu, aqui nascera uma nova tabanca depois da guerra, havia mesmo uma mesquita. Visitam Guidage, assaltam recordações daqueles tempos horríveis de maio de 1973.

O amigo Miguel regressa a Lisboa, o ex-franciscano ainda trava com ele uma longa conversa de caráter filosófico, volta a ficar só, vai visitar o sogro, de nome Malan, este recomenda-lhe que volte a casar. Depois visita a missão católica, descobre que existe uma irmã recém-chegada, de nome Geneviève, acicata-lhe a curiosidade, afloram-lhe lembranças de Roma, começa a buscá-la pela região de tabanca em tabanca, entretanto adoece com malária, recupera e é visitado pela irmã Geneviève, afinal ela era a jovem clarissa que todas as manhãs vinha à porta do Convento S. Damião. É uma bonita história de amor de dois velhotes, paixão assolapada, a irmã Geneviève tudo fizera para chegar à Guiné quando soube pelo padre da missão que ali vivia o ex-franciscano Miguel Lúcio, ainda por cima viúvo. A freira declara-se. Tudo irá acabar numa tragédia, aqui não se conta o como e porquê, é um direito que assiste ao leitor.

Está dito e redito que esta literatura da guerra é um regresso permanente. A linha preponderante da narrativa atual é das memórias, muito menos a do romance. Causa surpresa ver Manuel Fialho a regressar com uma certa regularidade a Farim, tudo começou com um romance de amor e aqui temos um desfecho à volta da redescoberta do seu primeiro amor, o reencontro totalmente imprevisto com a clarissa que ele conhecera em Assis antes de vir para a Guiné, fora uma paixão proibida. É um evidente pretexto, o que é verdadeiramente importante é o regresso, como ele confessa:

“Optei pela nossa primeira casa, à beira do Cacheu e do magnífico terreiro onde as sombras das grandes árvores suavizam o bafejar quente e húmido das longas tardes, acolhendo a pequena tabanca Mandinga de crença islâmica.

Preferi este lugar, na convicção de encontrar aqui a melhor escolha para compreender o meu último percurso e também pela maior proximidade à memória da minha mulher. Vivia junto dos nativos, onde eu queria encontrar as origens que as razões mais autênticas para refletir com mais liberdade sobre a condição humana”.

É também um outro modo de explicar como a memória tantas vezes fala mais forte e os antigos combatentes, sequiosos daquela laterite e daquela atmosfera onde se fizeram homens e tantas vezes ali viveram o acontecimento supremo das suas vidas, partem em romagem, como em romagem anda este Miguel Lúcio, embevecido com o entardecer nos rios da Guiné.

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