Esparsos brilhantes para a historiografia portuguesa do século XIX

 

 Beja Santos: O Fundo da Gaveta, Contrarrevolução e Radicalismo no Portugal Moderno, por Vasco Pulido Valente, Publicações Dom Quixote, 2018, reúne, segundo esclarece o autor, “dois fragmentos de uma hipotética história do Portugal moderno apresentados num seminário do ICS. A ideia era escrever uma narrativa política que incorporasse a história económica, social, diplomática e militar”. O trabalho não teve continuidade, os dois fragmentos publicam-se tal como foram apresentados nesse seminário. O autor justifica o porquê desta publicação: “Sempre me queixei nos jornais da falta de memória dos portugueses. Mas os portugueses não se podem lembrar de uma história que ninguém lhes contou. Por isso, com o propósito de alargar, mesmo que seja pouco, a imaginação política nacional, me decidi a publicar um livro flagrantemente duvidoso”.

Fez bem em publicá-lo, não é investida para público não iniciado, este está à mercê, e bem necessita, de uma história compendiada, onde não falta sequência cronológica. Logo o que Vasco Pulido Valente desvela sobre um acontecimento determinante, a Vilafrancada (1823). Nos territórios vizinhos, há uma apetência pelos fumos do absolutismo, D. Pedro já deu o grito do Ipiranga, em Lisboa grassa um constitucionalismo de pendor centralizador, D. Miguel pensa que tem oportunidade para banir o liberalismo, reinstalar as práticas do Antigo Regime. Como se elaborasse um diário dos acontecimentos, o historiador Pulido Valente desvela as manobras, as vozes titubeantes e as mudanças de campo. D. João VI impõe-se como charneira entre as duas partes em confronto. E tem um estilo inconfundível, é retratista, mordaz, sincopado nas apreciações: “A Vilafrancada trouxe a grande esperança de evitar a perda definitiva do Brasil. De Subserra e Palmela ao último cocheiro de Lisboa, toda a gente atribuía às Cortes a separação e a guerra. O conflito de D. Pedro fora com as Cortes e mesmo do lado brasileiro sempre se invocara o ‘estado de coação’ do rei, para justificar a independência política”. A atmosfera internacional conhece mudanças, a Grã-Bretanha irá reconhecer o Brasil, na esfera internacional era dado como imperativo esse reconhecimento antes que as ideias republicanas no Brasil ganhassem franco vencimento. Portugal estava isolado. Vem aí a tentativa absolutista, seguir-se-á a guerra civil e depois a secularização da política e o triunfo do constitucionalismo monárquico.

O segundo ensaio embrenha-se nas peripécias do Partido Histórico, dividido entre os radicais da unha negra e os moderados da unha branca. Não se pode ler este documento, magnificamente redigido, sem sentir vertigem, a sucessão de crises, a procura de fusões para obter maiorias, a incapacidade de governar, a explosão do défice, o clientelismo partidário, as danças e contradanças na Câmara dos Deputados. O leitor tem um imenso proscénio onde entram e saem figuras: Loulé, Sá da Bandeira, Lobo d’Ávila, Fontes Pereira de Mello, fala-se do passado, de Costa Cabral e Joaquim António de Aguiar, agora os tempos são outros, entre os amigos e os inimigos da fusão. São tempos em que se fala de desenvolvimento, de comboios, de estradas, do incremento agrícola, das formas de resolver a criminalidade e a miséria. Aparecem os impopulares impostos, com o imposto de consumo à frente, o país agita-se, ouve-se o tilintar das espadas, a vida comicieira expande-se, há clubes por toda a parte. E vem uma observação do autor que nos faz lembrar os tempos de hoje ou uma realidade aproximada:

“Nunca um Parlamento de funcionários consentiria em extinguir, a título de poupança, o Tribunal de Contas, o Conselho de Estado e os Conselhos Superiores dos ministérios; em restringir os quadros das secretarias, do Exército e da Marinha; em baixar os ‘vencimentos excessivos’; e em proibir as acumulações e gratificações. Acima de tudo, nunca permitiria uma autêntica descentralização que a inteligência revolucionária do tempo imaginava ser a panaceia universal. Limitar a ‘oligarquia’ do Estado, reduzir o Estado a proporções toleráveis e contrariar o seu ‘absolutismo’ exigia uma maioria de deputados sem ligações com ele. Mas esse propósito não se percebe da parte da cauda plebeia do movimento oposicionista, onde proliferam os pequenos funcionários ou aspirantes a funcionários”.

Um ano agrícola desastroso, a que se seguirá o desemprego, a alta de preços, o crescimento das quadrilhas e da criminalidade, a agitação sacode o país, as políticas falham. Vasco Pulido Valente observa: “A crise de 1887 tinha duas faces. Por um lado, fora a crise de uma sociedade moderna, comprometida numa política de desenvolvimento e sensível à recessão europeia. Por outro lado, fora uma crise tradicional, provocada por colheitas catastróficas e pela insensibilidade da reforma de Martens Ferrão ao patriotismo municipal. Que a sua dimensão e intensidade não houvessem, como em Espanha, trazido uma revolução só se explica pela continuada fraqueza da classe média, pelo seu grau de absorção no regime ‘regenerador’ através do funcionalismo público e pela sua completa anomia política”.

Os acontecimentos da chamada Janeirinha introduzem novas fórmulas de turbulência no sistema político, os governos associam-se uns aos outros até chegarmos à última Saldanhada, será um perfeito fiasco: “O pai do regime tinha 80 anos e nem as suas faculdades intelectuais, nem o seu senso político haviam, que se soubesse, melhorado com o tempo. O apelo a Saldanha demonstrava dramaticamente o esgotamento dos meios normais de governo”. Dele se esperava um pronunciamento militar, a confiança em Saldanha rapidamente murchou, tudo se tornou uma feira cabisbaixa: “Saldanha seria o último na Monarquia a tomar conta do país em nome das forças radicais. No seu longo exílio, estas acabariam por se definir. Do caos dos anos entre 1864 e 1870, nasceriam o Partido Reformista, o Partido Socialista, o Partido Republicano e o progressismo dinástico”. A geração da guerra civil e da Patuleia saiu de cena, a nova gente dá pelo nome de José Luciano, Saraiva de Carvalho, Elias Garcia e muitos mais. O regime monárquico jamais ganhará consistência, está a preparar a sua autodestruição.

Vasco Pulido Valente só vem confirmar que é um dos mais brilhantes historiadores da sua geração, possuidor de uma bibliografia ímpar sobre o Portugal moderno.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.