Fanáticos, aqui vos ponho a nu, na vossa abjeção

Beja Santos: Amos Oz é o escritor israelita mais conhecido e lido no mundo, professor, escritor e jornalista, altamente galardoado. “Caros Fanáticos”, por Amos Oz, Publicações Dom Quixote, setembro de 2018, é o seu livro mais recente entre nós. Baseia-se em trabalhos anteriores, o seu fio condutor é a caraterização do fanático e do fanatismo, uma profunda reflexão sobre a religião judaica e os desafios em que Israel incorre para não ser destruído pelo fanatismo.

É direto, nunca ameniza a frontalidade, sabe que é odiado e execrado pelos fanáticos israelitas e responde-lhes assim:

“Os fanáticos de todo o género, tempo e lugar, odeiam a mudança e temem-na. O fanatismo na sociedade israelita judia quase toda, em todas as suas variantes e tipos, chegou a Israel com os judeus da Europa. Da Europa Oriental veio o fanatismo revolucionário da geração dos pioneiros fundadores que queriam caldear de novo todo o povo judeu e até apagar a diversidade das tradições dos oriundos de várias diásporas. Da Europa veio igualmente o fanatismo nacionalista de cariz militarista com toda a espécie de visões de grandeza imperialista. E da Europa veio ainda o fanatismo ultraortodoxo, que se encerra num gueto fortificado e se protege de tudo o que é diferente dele. Os fanáticos têm tendência a viver num mundo do preto e do branco. O fanático é um tipo que só sabe contar até um. O fanático é um homem público a cem porcento. Não tem vida privada. E se tiver, está sempre a fugir dela. O fanático é uma pessoa que nunca muda de opinião nem deixa mudar de assunto. Um dos traços pelo qual se reconhece claramente o fanático é a sua ânsia de nos mudar a fim de sermos igual a ele. O fanático não quer que existam diferenças entre as pessoas”.

Refletindo sobre o judaísmo enquanto cultura, esboça o retrato do judeu de ontem e de hoje: “Dentro de cada um de nós esconde-se um pequeno mentor. Somos um povo de professores. Todos gostamos de ensinar, de esclarecer, de debater, lançar uma nova luz. Em períodos bons, a cultura do povo judeu é uma cultura de questionamento e de polémica. A história da cultura de Israel é uma espécie de jogo muito antigo de interpretação, reinterpretação, contrainterpretação. Os judeus não ergueram pirâmides, não construíram catedrais espetaculares, não erigiram a Muralha da China ou o palácio do Taj Mahal. Criaram textos e leram-nos em conjunto em família, nas refeições de festa e diárias”. E lança uma advertência, pouco agradável ao fanático: “Há mais de três mil anos já existia aqui uma civilização que considerava justo julgar os fortes por ofensa aos fracos. Exigia não apenas caridade mas justiça. Essa justiça era exigida não apenas dos governantes, mas de todas as pessoas. A cultura judaica no seu melhor é uma cultura de negociação. De pesar os prós e os contras. De agudeza e de força de persuasão. Mas não se pode negar que é também por vezes uma cultura de impulsos fortes que se mascaram de controvérsia espiritual, impulsos de força, de autoridade, de respeito”. Falando da cultura judaica na sua dimensão de obediência cega, retrata-se: “Para mim, a obediência cega é uma desvirtuação da tradição. A obediência cega nunca pode ser moral”. Assombra o leitor a preparação cultural, religiosa e política de Amos Oz, até porque ele lembra ao judeu fanático qual o cenário provável do nacionalismo imperial que muitos anteveem, recordando que há quem queira regressar a Sião e pôr em causa a identidade judaica de pessoas como ele. Há fanáticos que dizem que os pioneiros laicos não passaram inconscientemente de instrumentos na mão da providência divina, e tudo quanto defenderam não acrescenta nem retira nada, é uma das modalidades mais agressivas dos intolerantes, aqueles que estão prontos a continuar nos colonatos e a espezinhar os palestinos. Amos Oz lembra que o Estado de Israel é um produto do cruzamento da Bíblia com a cultura iluminista, decorre dos sentimentos primaveris dos povos da Europa, assumiu-se como comunidade republicana, com o espírito do parlamentarismo, Israel nasceu democrata e pluralista. E daí os perigos e a fatalidade iminente: “Se não houver aqui dois Estados, e rapidamente, é muito possível que, para retardar a criação de um Estado árabe do mar até ao Jordão, se erga aqui, temporariamente, uma ditadura de judeus fanáticos, uma ditadura com caraterísticas raciais, que subjugará com mão de ferro quer os árabes quer os seus opositores judeus. Uma ditadura destas não terá uma vida longa. Quase nenhuma ditadura em que uma minoria subjuga uma minoria teve vida longa na época moderna. De qualquer maneira, no final, espera-nos um Estado árabe do mar até ao Jordão, e antes talvez uma excomunhão internacional, ou um banho de sangue ou ambos”.

E brande o mais temível dos perigos, a aventura no Monte do Templo, aquela Jerusalém ansiada pelos extremistas e que já recebeu a bênção de Donald Trump. E desabafa, no termo desta catilinária aos fanáticos: “Eu amo Israel mesmo quando não o suporto. Tenho medo da política do Governo e envergonho-me dela. Tenho medo do fanatismo e da violência crescente entre nós, e também me envergonho dela. Mas gosto de viver em Israel. Gosto de ser cidadão de um país que tem oito milhões e meio de profetas e tem oito milhões e meio de messias”.

Leitura imperdível para quem quer aprofundar o fanatismo, a fé judaica e alguns dos mais ingentes problemas da convivência que se põem no século XXI. E ler a excecional literatura de um homem corajoso, muito corajoso.

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