Judite Sousa e o desmedido narcisismo de um livro vazio

Beja Santos: “Político esfaqueado ou é morto ou é eleito”, por Judite Sousa, Oficina do Livro, 2019, é uma obra inacreditável. A conhecida jornalista partiu para o Brasil em outubro de 2018, a missão era fazer a cobertura da campanha da segunda volta do candidato Jair Bolsonaro. A experiência deu-lhe para publicar um livro, era suposto sermos confrontados com uma reportagem criativa, com eloquência e até valor literário. É um chorrilho de lugares comuns, tudo aquilo espremido é uma batelada de vulgaridades e, o que é mais grave, tudo aquilo já estava escrito por outras mãos e em vários continentes. Mas reconheça-se que é preciso ter estômago para aparentar dizer tanta vacuidade para pôr na contracapa coisas como: “É necessário um olhar diferente para perceber o que está a acontecer às nossas democracias; estamos perante novas realidades políticas e comunicacionais, a sua análise é estimulante levando-nos a questionar a natureza dos sistemas democráticos atuais. Mas também quem somos, como somos, para onde vamos. O desafio está lançado”. Não há desafio nenhum nesta mastigação informativa que já foi dita por muita gente, o que Judite Sousa informa sobre quem é Jair Bolsonaro, que o Brasil é um país profundamente dividido, que os brasileiros querem mudança, que aconteceu um imprevisto de Jair Bolsonaro ter sido esfaqueado e que ficou em estado de hibernação até ao ato eleitoral, o relambório das citações de professores e revistas, já há muita gente preocupada com Bolsonaro e com Trump, que há fake news, que o Brasil é um dos países mais perigosos do mundo, que ir ao Brasil lhe proporcionou a circunstância de se encontrar com amigos do seu filho, que andou na favela do Vidigal, e que do alto do morro do Vidigal a paisagem parece cinematográfica, que havia jovens armados na favela, que ali se transaciona droga e debitam-se números que vêm em milhares de relatórios…

Depois temos a facada de Bolsonaro, quem não sabia fica a saber que o autor do ataque foi Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos e que Bolsonaro foi ferido no abdómen, vários órgãos foram atingidos, nomeadamente a veia mesentérica superior, responsável pela irrigação sanguínea da parte do pâncreas e do intestino delgado e do intestino grosso; que foi assistido no Hospital Israelita Albert Einstein, considerado o melhor do país, etecetera e tal, há que agradecer aquilo que já toda a gente tinha podido saber, tal como decorreu a campanha, o que nela se disse, que se vendiam t-shirts e bonecos de borracha nas redondezas da casa de Bolsonaro, que o facto de Haddad ter visitado na primeira volta Lula na prisão em Curitiba, acrescido o facto de ser candidato escolhido por Lula da Silva foram razões que lhe condicionaram a candidatura, mal aceite na opinião pública, revelação que nós não conhecíamos, como também não conhecíamos que Fernando Haddad percebeu a rejeição dos eleitores e ainda tentou reunir à sua volta os votos dos candidatos que tinham ficado para trás na primeira volta, mas nada lhe correu favoravelmente. Momentos há na leitura deste livro, de escrita fácil, do tipo noticiário, nem há o mínimo de esforço para que seja simples mas com informação nova, algo de enriquecedor, enfim, não se estava à espera de um trabalho à José Vegar, Pedro Rosa Mendes, Cáceres Monteiro, muito menos algo com a compleição e o estudo que o notável Ryszard Kapuściński sempre mostrou, mas quando se escreve que Judite Sousa é uma das mais respeitadas jornalistas portuguesas, que cobriu eleições em diversos países, que foi docente de jornalismo e comunicação televisiva, é forçoso exigir rigor, observação vibrante, mensagem, questionamento e resposta, até entrevistas com sumo e contributo à reflexão. Nada disso acontece neste livro.

Este livro é um caso de narcisismo, é um desastre literário, uma bagatela que nem chega a ser assunto para uma crónica. E o pior de tudo é que se escreve sem ter a noção do ridículo, está-se a falar do Brasil e vamos para as fake news, para os amuos de Donald Trump, convida-se o leitor a identificar notícias falsas recomendando dez mandamentos, a seguir informa-se que a verdade deixou de ser um problema para alguns líderes atuais, e porque é preciso encher papel adianta-se, porque ninguém sabia:

“No caso da utilização das redes sociais pela equipa de Jair Bolsonaro, os seguidores virtuais multiplicaram-se exponencialmente. Em apenas um mês, entre junho e julho de 2018, Bolsonaro ganhou 100 mil seguidores no Instagram, 47 mil no YouTube, outros 6600 juntaram-se aos 5,4 milhões de que dispunha no Facebook. No mesmo período, publicou 70 posts no Instagram e 40 vídeos no YouTube, obtendo 1,3 milhões de visualizações. O Brasil e os Estados Unidos têm cerca de 200 milhões de habitantes. O Facebook conta com 2 biliões de utilizadores. O seu fundador, Mark Zuckerberg, já apareceu caricaturado como um imperador romano, ou mesmo como um faraó egípcio.

O mundo virtual impõe uma reconfiguração da análise e há estudiosos, nomeadamente académicos de Harvard, que fazem uma pergunta que nos pode chocar: ‘Representará Zuckerberg uma maior ameaça para as democracias do que um Trump ou um Jair Bolsonaro?’. Vale a pena pensar nisso”.

Seguramente Judite Sousa convenceu-se que nos tem que dar recados deste jaez, nenhum de nós, que tivemos o infortúnio de ler este livro, já tinha pensado no assunto. E porque é preciso também encher papel, mais uns comentários absolutamente simplórios sobre o valor das promessas, as lideranças com ou sem coração, a revolução comunicacional e política, e sobre este assunto Judite Sousa toca a citar-se.

Estamos perante o primeiro livro inútil de 2019. O maior castigo que se pode dar a Judite Sousa é reforçar os seus conhecimentos quanto à revolução comunicacional e política para perceber que há limites para a falta de respeito e para o descaro em publicar, do princípio ao fim, o elogio da vacuidade.

 

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