Lavrenti Béria, o principal carniceiro de Estaline

Beja Santos:  “Lavrenti Béria”, por José Milhazes, Oficina do Livro, 2018, é uma reportagem altamente documentada do sinistro chefe da polícia secreta de Estaline, teve em conta as relações mais recentes. Como se escreve na contracapa: “Às ordens de Estaline, em 1940 mandou assassinar Trotski e presidiu à execução sumária de 22 mil oficiais polacos na tristemente famosa Matança de Katyn. Na chefia do sistema de gulags, ordenou a deportação de centenas de milhares de vítimas, muitas logo mortas deliberadamente, ou quando iam a caminho desses campos de concentração. Em 1949 roubou o segredo da bomba atómica aos norte-americanos e no mesmo ano indispôs Estaline contra dois políticos que lhe eram próximos, tendo ambos sido fuzilados no Processo de Leninegrado.”

Um dos homens mais temidos nos altos círculos comunistas soviéticos acabou por ser executado no mesmo ano em que morreu o ditador que tanto o apoiou, Estaline, que ele tanto temia, cumprindo rigorosamente os seus ditames com uma fidelidade canina. Em 24 de dezembro de 1953, o Supremo Tribunal da URSS considerou-o traidor, inimigo do Estado Soviético, golpista pronto a liquidar o regime operário-camponês soviético e a restabelecer o domínio da burguesia. Foi fuzilado com a mesma falta de legitimidade com que mandou executar friamente multidões.

José Milhazes recorda que Béria, tal como Estaline, despertam acesas discussões na sociedade russa, ainda hoje, não nos devemos esquecer que foi um, entre muitos outros, culpado das repressões e dos genocídios, desde que se instaurou o comunismo na Rússia e até à chegada de Khruschov era norma os dirigentes soviéticos liquidarem fisicamente os seus adversários políticos.

De origem georgiana, tal como Estaline, ainda estudante criou em Bacu um grupo marxista, cedo passou a admirar Estaline. Após a revolução de outubro, foi enviado pelos bolcheviques para a Geórgia, então governada por socialistas mencheviques, são anos de vida e atividade no Cáucaso, foi aí que começou a sua ascensão como comunista georgiano, em 1934 aparece no Bureau Político do Comité Central dos Bolcheviques, no ano seguinte foi eleito membro do Comité Executivo Central, em 1938 é nomeado 1º Vice-Comissário do povo para os Assuntos Internos da URSS, transfere-se para Moscovo, estamos na época do terror, rolam cabeças, mesmo na polícia secreta, Estaline manda executar milhares de oficiais soviéticos, em pouco tempo Béria chegou à Lubianka, sede da polícia secreta. Com o Tratado Soviético-Nazi de 23 de agosto de 1939, chega mais trabalho para Béria, com ocupação de uma parte da Polónia, da Bielorrússia e Ucrânia ocidentais pelo Exército Vermelho, nova onda de prisões e deportações, as atividades repressivas atingiram a Estónia, Letónia, Lituânia e Moldávia.

Hoje sabe-se com mais rigor como se processou a Matança de Katyn, que foi tema propagandístico usado pelos alemães quando se descobriu em 1943 o local das execuções. A documentação trocada entre Béria e Estaline é altamente comprometedora para os dois, propõe-se o fuzilamento de oficiais, funcionários públicos e intelectualidade polacos. Só em abril de 2010 é que as autoridades russas autorizaram a publicação da documentação mais secreta. Béria é o direto responsável pelo assassinato de Trotski no México e em junho de 1941 iniciava-se uma nova fase de terror, Hitler invadiu a URSS de forma brutal numa guerra que parecia levar, de forma fulminante, o regime presidido por Estaline à hecatombe.

Béria torna-se Comissário do Povo para os Assuntos Internos e de Segurança do Estado, não vão parar as ondas repressão, são fuzilados reclusos, comandantes militares, aumenta o número de campos de concentração (os gulag). Béria é condecorado e feito marechal. José Milhazes ilustra a frente da espionagem e contraespionagem soviéticas, como se processaram as limpezas étnicas, a faceta do carrasco como predador sexual, a sua ascensão à cúspide do regime e, após a morte de Estaline, a luta pela sucessão e a queda de Béria, segue-se o julgamento, a execução do carrasco e dos seus mais próximos colaboradores. O autor observa que a morte de Béria e dos seus colaboradores foi apenas a primeira etapa da luta pela liderança unipessoal do Partido Comunista. Venceu Khruschov que afastou gradualmente do poder os camaradas que o ajudaram a derrubar Béria. Khruschov tentou atirar para cima de Béria todas as culpas do terror estalinista e, como era da tradição, procurou limpar da sua biografia os cargos importantes e as condecorações recebidas em vida do carrasco: era herói do trabalho socialista, detinha cinco Ordens de Lenine, uma Ordem de Suvorov de primeiro grau, duas Ordens da Bandeira Vermelha e sete medalhas. Os serviços secretos mudaram de nome, apareceu o KGB, desmoronada a URSS, alguns países que dela tinham feito parte – Cazaquistão, Usbequistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Azerbaijão – continuam a ter o KGB como a base da máquina repressiva dos sistemas autoritários.

O que resta do ideal comunista na Rússia procura limpar os crimes perpetrados com os “Processos de Moscovo”, que tiveram lugar nos anos 1930 e se baseavam em documentos falsos e confissões arrancadas à força, bem como toda a carniçaria que envolveu massacres, execuções, limpezas étnicas e deportações maciças. A tensão entre os que pretendem promover a verdade histórica e aqueles que procuram justificar o comportamento despótico de Estaline e dos seus sequazes é permanente. Estaline e Béria eram implacáveis em nome dos valores do comunismo, deixaram rasto, seguramente por umas gerações adiante.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.