Lorenzo Falcó, um não-herói de Arturo Pérez-Reverte

Beja Santos: Arturo Pérez-Reverte é um dos nomes cimeiros da literatura espanhola contemporânea, dispõe de uma vastíssima obra e está largamente traduzido entre nós. No conjunto da sua obra, Falcó, por Arturo Pérez-Reverte, ASA, 2017, possui uma originalidade imensa. Começou a Guerra Civil de Espanha, os Serviços Secretos do franquismo apelam a um espião e ex-contrabandista de armas que vá libertar um detido numa prisão de Alicante, esse detido que nunca aparecerá na obra, é a chave de um segredo avassalador: o generalíssimo pretende libertar-se do seu mais incómodo rival.

Lorenzo Falcó é simpático e sinistro, o leitor é sujeito a sentimentos ambivalentes com este torturador, assassino, amoral, destituído de causas. Naquela atmosfera de 1936, com toda a Espanha já dilacerada, ele entra na plateia da leitura com esta apresentação: “Cheirava a loção Váron Dandy e estava penteado para trás, com gel e risco muito alto, ao colocar pausadamente, diante do espelho do quarto, o colarinho e os punhos postiços da camisa de smoking. Durante um momento, Lorenzo Falcó permaneceu imóvel a estudar o reflexo com o seu aspeto: barbeado impecável a navalha, patilhas recortadas no ponto exato, os olhos cinzentos que se contemplavam a si mesmos, com tranquila e irónica melancolia. Uma mulher definira-os certa vez como olhos de um bom rapaz a quem correram mal as coisas na escola”.

Pérez-Reverte disse numa entrevista que a Guerra Civil de Espanha não é o objetivo do livro, é o fundo decorativo. Talvez o autor tenha sido atraído por esse herói que vem de outro tempo, que age como um contratado a quem não se pode pedir fidelidade ideológica, não precisa de ter simpatia nem por fascistas, anarquistas ou outros. É uma obra de maquiavelismo, pincelada pela violência, a tortura e a morte, para aquela missão haverá grande derramamento de sangue de inocentes, gente que supõe estar ao serviço de um ideal quando na verdade são alvos de uma maquinação horrenda.

Em dado passo da obra, Pérez-Reverte fala das duas Espanhas e de duas barbaridades paralelas, como observa:

“O que se dava do outro lado era uma planificada repressão sob comando único, um extermínio sistemático de tudo quanto cheirasse a democracia, liberdade e ateísmo, com a ideia de uma nação unida, religiosa e forte acima de tudo. Por isso, em Salamanca começava a falar-se de Cruzada: uma guerra total feita por militares profissionais que usavam o terror e o sangue como arma definitiva. E entretanto, o que havia por parte da República era um disparate de improvisação, oportunismo e demagogia, com as prisões abertas a 18 de julho atirando a chusma para as ruas – convertida em milicianos que gastavam em paródias e mulheres o que roubavam assassinando a esmo -, e o povo armado, soberano no caos, a ajustar contas; um ódio homicida não só para com o Exército de Franco como para com os membros do seu próprio lado, partidos e fações em confronto entre si, indecisos entre ganhar a guerra ou fazer a revolução, incapazes de coordenar um esforço comum; fora do controlo de uns governantes e políticos alheios à realidade, divididos, impotentes e incapazes”.

O escritor terá acertado em cheio em destacar este não-herói numa guerra tão feroz, entre republicanos e franquistas, em que o chefe de Falcó, o Almirante, já vem do passado, a sede provisória dos nacionalistas passa por Salamanca, vive-se ali o caos das emoções, infidelidades, paira igualmente uma atmosfera de terror, Falcó é apresentado ao temível falangista Ángel Luis Poveda, o chefe dos Serviços de Informação da Falange, é-lhe destinada a missão de ir a Alicante resgatar Primo de Rivera, o fundador da Falange.

Vai-se desfiar agora a trama, preparar uma viagem para entrar nas linhas inimigas, Falcó mata, embarca num comboio e apresenta-se em Alicante, será contatado por falangistas, os alemães prometeram dar uma ajuda, inclusivamente evacuar os resgatados de tão arriscada missão. Paira sempre a ideia de traição, haverá execuções, encontros clandestinos, uma mulher, Eva Rengel, destaca-se pela determinação.

A ação acelera, distribuem-se tarefas, entra em cena o cônsul alemão Sánchez-Kopenick, é através do consulado que Falcó vai recebendo instruções de última hora e enviando informações. A Alemanha e a Itália vão reconhecer o regime de Franco, Falcó a partir de agora está abandonado aos seus próprios recursos. Tudo se precipita, alguém denunciou Falcó, ele vai ser interrogado e espancado, subitamente libertado, a operação encaminha-se para o seu ponto crítico, tudo vai falhar, fora um fiasco metódica e engenhosamente preparado. Falcó e Eva Rengel parecem viver uma relação escaldante. São eles os sobreviventes que regressam a Salamanca.

É agora que se revelam os dotes prodigiosos de Pérez-Reverte nesta escrita vertiginosa, quase mirabolante, onde se doseia, na ponta da navalha, a história e a ficção. Vai-se revelar a tenebrosa verdade do fiasco.

Falcó vai confrontar-se com o tenebroso coronel Queralt, não apreciou o seu sorriso maléfico e as bestialidades que prepara sobre a mulher amada de Falcó, munido de pistola com silenciador vai libertá-la fazendo matança de algozes. E os dois amantes travam um diálogo crespo como bons espiões que são.

Tudo termina no Estoril, Falcó anda a monte, encontra-se aqui com o Almirante, o contrato de trabalho irá manter-se, o garboso justiceiro solitário, assassino sem escrúpulos e completa moral, o registo do não-herói, a ambivalência de estar ao serviço de quem paga e viver sem causas anda pelo Estoril num simples compasso de tréguas, a Guerra Civil de Espanha, será longa, aguardam-no cometimentos porventura mais desapiedados pela mão desse vertiginoso e multifacetado mestre da literatura Arturo Pérez-Reverte.

Um deslumbramento para os aficionados deste subgénero onde se mesclam a espionagem, a aventura, o suspense, o thriller, o crime e mistério. E a tradução é igualmente primorosa.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.