Memórias de José Cutileiro, fim do Apartheid, fim da Jugoslávia | Beja Santos

Memórias de José Cutileiro, fim do Apartheid, fim da Jugoslávia

 

Beja Santos

 

Autor de uma obra de referência obrigatória na antropologia (Ricos e Pobres no Alentejo), era professor na London School of Economics quando eclodiu o 25 de Abril. O cientista virou diplomata e vem agora desvelar as suas memórias e fazer as suas reflexões em “Abril e outras transições, Reminiscências de um antropologista errante”, Publicações Dom Quixote, 2017. Talvez por não ser um diplomata encartado, não vemos aqui reverências às Necessidades, nem à Casa nem louvar-se nos êxitos diplomáticos obtidos. Conta histórias, lembra pessoas e intervenções em negociações por vezes bem dolorosas. Aqui, deixa observações bem pragmáticas, oiçamo-lo a discretear sobre a dissolução da ex-Jugoslávia:

“A transição da velha Federação para os novos Estados independentes foi quase sempre guerreira e sujeita a poderes exteriores nacionais, mormente a Alemanha, e internacionais (Comunidades Europeias e Nações Unidas) solicitados pelos protagonistas. As atitudes destes geralmente obedeciam a molde bem revelado, na minha experiência, pelo falecido Mate Boban, chefe da delegação dos croatas bósnios às conversações tripartidas sobre a Bósnia-Herzegovina, promovidas pela Conferência Carrington a que presidi. Antes da guerra, gestor de uma fábrica de tabaco na Herzegovina Ocidental, onde a tradição pró-nazi é forte, nomeado pelo presidente croata Franjo Tudjman contra a vontade dos croatas da Bósnia Central, Boban dizia-me sempre ‘eu farei tudo o que a Europa quiser’ – e depois não fazia. Os outros, das outras duas partes em conflito, não se afastavam muito dele mas havia uma gradação. Nas nossas negociações, os muçulmanos mentiam muito mais do que os croatas e os sérvios muito menos. Existem na região tradições antigas de guerra e de mitos; existem também tradições de regateio e códigos de maneias. Séculos de luta fizeram naturalmente os heróis de uns serem os vilões de outros. Mentir pode ocasionalmente ser ocasião resultante da interdição de dizer coisas desagradáveis ao interlocutor. Estudiosos modernos de cultura popular, quase sempre acriticamente convencidos de bondade natural dos seus objetos de estudo, alinham nas nossas estantes volumes de elogios da humanidade a retalho. A perspetiva de quem queira hoje ajudar de fora a resolver conflitos de terceiros – esquecendo o conselho sábio do grande historiador militar Michael Howard sobre intervenções dessa natureza: 1º não o fazer; 2º se se tiver mesmo de o fazer, tomar o partido de um dos lados; 3º tomar o partido do lado vencedor”.

Antes de o antropologista ser diplomata, rememora tempos de oposição, coisas passadas no PREC, e diz a propósito:

“De montes no Alentejo a fábricas nas zonas industriais do país inteiro grassaram durante meses expressões variadas da apregoada luta de classes, ou de confrontos vividos como tal pelos chefes locais das duas partes, sendo raros, de entrada, momentos de bom senso, embora os tenha havido. Por exemplo, perto de Lisboa uma fábrica de produtos eletrónicos que pertencera ao falecido engenheiro Figueiroa Rego, pai da pintora Paula Rego, era gerida por Vic Willing, pintor inglês marido da Paula. O pessoal ocupou a fábrica, escolheu uma comissão de trabalhadores e mandou o respetivo presidente ir falar com o Vic. No gabinete deste sentaram-se à mesa um diante do outro e Vic começou: ‘Eu não ser Jorge de Mello; Senhor não ser Álvaro Cunhal. Agora podemos conversar’.

Não esconde a sua emoção pelo que viu na África do Sul, todos previam banhos de sangue e uma carnificina, Mandela e De Klerk, e no campo espiritual Desmond Tutu, souberam negociar ou apoiar uma constituição democrática antes dos sul-africanos terem ido às urnas. Veio a reconciliação e também a desilusão, como ele comenta:

“Quando se põem de parte demónios novos – desta vez as variedades de opção e empobrecimento desencadeadas por inspiração em versões variadas de marxismo – os demónios antigos vêm ao de cima. Agora, na corrupção extrema de Zuma e da sua corte que animam propensão generalizada para falta de rigor e para abusos do Estado ou de instituições privadas em proveito próprio, a indignação poderá levar a uma derrota do ANC. Mandela, sagaz e presciente, quisera servir só um mandato; nessa altura, os quadros do ANC vinham todas da luta e gozavam quase todos de enorme prestígio. O tempo passou, os costumes foram mudando, já restam muito poucos, ainda ativos, ungidos por pertença à resistência e dissidentes extremistas, à esquerda, bancam na frustração geral, sobretudo os pobres, a quem muito foi prometido e muito pouco dado desde 1994”.

Enuncia uma bem temperada relação entre o fim do titoísmo e o fim do Apartheid, fala de Portugal e do mundo, recorda as nossas pechas e atrasos, lembra a patacoada que era o atestado médico, continua perplexo com a nossa ignorância, o nosso atraso educativo:

“Quando menos instruído for um povo, pior se defenderá do vandalismo cultural e cognitivo que agora campeia. Apesar de menos alfabetados do que muitos outros europeus, os portugueses (e as portuguesas), logo acima das camadas mais pobres da população, estão obcecados pela ambição de os tratarem por doutores para poderem parecer maiores na imagem que se possa ter deles, mas poucos se inquietam com os conhecimentos que tal deveria exigir. Há pinturas medievais em que a representação das pessoas não depende da perspetiva – quanto mais longe, mais pequenas – mas da condição social – quanto mais importantes, maiores. No nosso tempo português são bem conhecidos casos de ministros que de conluio com autoridades universitárias corruptas obtiveram diplomas de licenciatura falsificados. Há anos, numa importante cidade do Norte do país houve escândalo por número anormalmente alto de atestados médicos terem sido passados para justificar faltas a exames. A pouco e pouco, pelos jornais foi-se sabendo que essa conspiração compreendia toda a gente: médicos, alunos, pais e demais encarregados de educação, professores, funcionários administrativos. Com singeleza, e nunca esquecendo que o atual momento político internacional é marcado pela desconexão entre as bases e as cúpulas”, lança pistas sobre o nosso futuro comum.

Acima de tudo, um belo quadro de rememorações da juventude no Estado Novo, um exame rigoroso ao que se passou na África do Sul e na Ex-Jugoslávia.

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