Migrantes somos todos nós

Beja Santos: “Movimento Perpétuo, Histórias das Migrações Portuguesas”, por Ana Cristina Pereira, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016, é uma coletânea de águas-fortes acerca de pessoas que, por esta ou aquela circunstância, foram empurradas para dentro ou para fora do país, o nosso. Note-se que os portugueses sempre viveram em movimento perpétuo, até podíamos contar histórias da Reconquista Cristã, dos Descobrimentos, dos regressos da Descolonização, o nosso bilhete genético, o nosso cartão de identidade sempre foram enriquecidos e geneticamente modificados por idas de curiosidade, de avidez, para vencer a miséria e até por castigo.

A repórter Ana Cristina Pereira confecionou com mestria esta longa viagem de memórias, procura interpretar o que fizeram pais ou avós, em que situação tiveram que optar por partir ou foram compelidos, perguntam e nem sempre obtém respostas satisfatórias. Dá a sua interpretação: “Ao contrário dos indivíduos com capital cultural e social, que escrevem memórias, deixam relatos, têm documentos, fotografias ou mesmo vídeos que permitem ressuscitar o passado, as ‘pessoas comuns’ não contam espontaneamente o que viveram. Não se consideram autoras da História. Interiorizam a ideia de história como narrativa dos feitos dos heróis, sejam eles militares, estadistas, membros do alto clero, escritores ou artistas”. E a repórter decidiu-se por agarrar alguns ferros em brasa, ou seja, matéria controversa e incandescente, caso da guerra colonial e dos seus silêncios, quem partiu “a salto”, ou era desterrado, ou procurava a África Austral para melhor viver. Intervêm passadores, o pesadelo da invasão de Timor pelos japoneses, o pandemónio da fuga de brancos em Moçambique, alguém que entrou no 25 de abril em cima da hora e guarda recordações perduráveis, mas há muito mais.

No prefácio, o professor Victor Pereira abona argumentos esclarecedores: “Não são os mais pobres que emigram, como muitas vezes se pensa. Para deixar o país é preciso dinheiro (ou propriedades) para pagar a viagem. Naquela altura, era necessário pagar passadores, subornar polícias ou guardas-fiscais, estar integrado em cadeias migratórias. Estas páginas iluminam redes invisíveis, mas eficientes. Ao lê-las, vemos homens que facilitavam a passagem de homens para a África do Sul a partir do Moçambique colonial. Vemos que as agências de recrutamento e de colocação são hoje peças fundamentais nas trajetórias migratórias. É por intermédio delas que milhares de portugueses partem agora para o Reino Unido, para a França e para muitos outros países. Sem cair no miserabilismo ou nos estereótipos luso-tropicalistas que transformam os emigrantes em novos Vascos da Gama, este livro segue a par e passo homens e mulheres que não puderam ou não quiseram ficar nos lugares onde nasceram. Ao fazê-lo, percorre caminhos que alguns investigadores antes trilharam, mas raramente com esta elegância e esta fluidez”.

É de facto uma narrativa vibrátil, pulsante, com a economia discursiva a que se ajusta a grande reportagem. Logo os fantasmas da guerra, que ainda assombram seniores que têm dificuldade em contar episódios de extrema violência e brutalidade, como alguém observa: “Às vezes, a mãe pede-lhe que se cale. Talvez tenha medo de o ouvir dizer que feriu, que violou, que matou. Eu peço-lhe que o deixe falar. Quero perceber o grito, a tensão quase constante, a desconfiança, o isolamento, a explosão recorrente”.

“Desterro em Timor” é uma peça de filigrana, deverá constar em qualquer antologia que tenha a ver com guerra, colónias, a peregrinação bem portuguesa. Em 20 de fevereiro de 1942, os japoneses entraram em Timor. Manuel Simões de Miranda estava à frente da Padaria Europeia. O ataque japonês é devastador, europeus e autóctones fogem para as montanhas ou refugiam-se noutros aglomerados. As tropas japonesas tomaram as casas de Díli, português algum devia circular sem um salvo-conduto. Vamos conhecer a história dos familiares do padeiro, Miranda é um desterrado, tinha sido encarcerado por opositor ao regime, em Timor era um “deportado social”, tinha vindo numa leva de padeiros, serralheiros, pedreiros, mecânicos, motoristas. É um degradado que vive sob vigilância. Começa a luta nas montanhas, há perseguições e mortes, acabam por conseguir fugir para a Austrália. Depois de um pequeno calvário, filhos de Mirando foram recolhidos pela Casa Pia de Lisboa, muito mais tarde conhecerão a família do pai. Inicia-se uma viagem circular, um neto chegou de avião a Timor na pele de fotojornalista e encontrou a padaria. Tinha sido incendiada pelos grupos armados pela Indonésia, em 1998. “A porta da entrada para esse universo eram as cartas do avô, as fotografias de família, os cadernos do tio Manuel, os episódios contados por esse e outros parentes.”

E há as passadoras, é um relato que exige leitura compulsiva, como o militar que chegou à revolução de táxi e presencia em pleno Terreiro do Paço aquela nega de fazer fogo, como exigia o brigadeiro Junqueira dos Reis. Há os que migram e acabam no trabalho escravo, há os que recordam o que foi ter que se pôr ao caminho em Moçambique, entre surtos de violência, assim nos dispersamos por todos os continentes, umas vezes com vontade de regressar, há as saudades, outras não tanto, ficam os filhos e os netos. Já não esquecendo que há os expulsos dos EUA e Canadá, lançados nos Açores e na Madeira, sem quaisquer vínculos, quase apátridas, tudo somado e multiplicado é que constitui o nosso movimento perpétuo, uma jigajoga a que não nos furtamos, por sonho ou condição.

 

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