Nó Cego, a obra maior de toda a literatura da guerra colonial

Beja Santos: Nó Cego conheceu a sua primeira edição em 1982 e pouco tardou para ser reconhecido como livro incontornável, de caráter universal, da nossa literatura da guerra colonial. Não tinha precedentes à altura e os consequentes, todos eles, não puderam entrar em competição. Hoje, este romance sobre uma Companhia de Comandos no Norte de Moçambique entre fins de 1969 e a operação Nó Górdio, está chancelado como obra-prima inultrapassável. Logo a ironia e o comentário subtil de Carlos Vale Ferraz, que precede esta narrativa avassaladora de operações, de florestas abissais, de minas e fornilhos, de homens em agonia ou transidos pelo medo ou desespero, de águas-fortes de caricaturais figuras da hierarquia militar: “Esta é uma obra de ficção. Factos, pessoas e situações narradas não aconteceram nem existiram, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Pormenores eventualmente chocantes dizem respeito a outras gentes e a tempos em que a guerra era suja, mas povoada por humanos combatentes; a real verdade foi outra, vejam-se as fotografias e leiam-se os discursos da época, limpas e gloriosas ações representadas por magníficos heróis”.

É uma leitura centrada num capitão, há quatro alferes, furriéis e praças, todos têm identidades, currículo, está ali o país inteiro no planalto dos Macondes, mas a arquitetura da escrita podia posicioná-los nos Dembos, nas matas do Sul da Guiné, estão ali as mesmas apoquentações, os mesmos queixumes, atitudes que são ínsitas em teatros de guerra de guerrilhas. Livro metafórico, a primeira operação é à base Gungunhana, ali voltarão na operação Nó Górdio, o sonho daquele capitão em ter a companhia coesa irá dissolver-se. Alfa e ómega. O que ainda era firmeza e imperativo categórico na primeira operação irá dissolver-se na Nó Górdio, um dos símbolos da inviabilidade de se sufocar as guerras de libertação. A presente edição apresenta-se com uma linguagem um pouco mais depurada, as situações mais definidas na sua complexidade, é como Carlos Vale Ferraz ainda se sinta inquieto com a obra-prima que esculpiu, o cinzela ainda não descansou: “Nó Cego” por Carlos Vale Ferraz, Porto Editora, 2018.

O país todo ali: as origens de classe sem simulação, um dos tesouros que atravessara toda a trama. A coesão passa por aquele jovem comandante de companhia, “seco de carnes e de rosto de feições regulares, inspirava confiança, apesar de ser da quase mesma idade dos homens que comandava. Mantinha uma distância de reserva entre si e eles que alguns confundiam com arrogância. Por vezes, os seus gestos pareciam displicentes, mas ajudavam a criar uma aura de consideração e de invulnerabilidade à sua volta”. Os desastres, as perdas, podem parecer excessivos se não se contar com um poderoso segredo do fabricante destas metáforas: o que se torce e retorce, os panejamentos barrocos, dão perfeita nitidez, não há para ali enxúndia nem pirotecnia literária, a tropa está em combate sem versos alexandrinos. O peso da metáfora é enorme, com os excessos eróticos, se a condição humana nos faz joguetes do destino, aquela tropa veio bem industriada para alcançar sempre o objetivo. A galeria de figuras é o compósito do Tino, do Vergas, do Espanhol, do Casal Ventoso, do Torrão, do cabo Cabral, daqueles quatro alferes que espalham modos de educação tão distintos, há o Freixo que será alçapremado herói, o alferes Lino que de recatado seminarista culminará num anjo da crueldade. E as coisas mais sérias do mundo vão ocorrer naquela selva, caso do Casal Ventoso que pedia para morrer com o seu capitão ao lado, enquanto os homens levavam com as armas entre os joelhos, recortados contra o ar pálido do quarto minguante. E foi preciso passar por aquela guerra para se tomarem decisões tremendas, que agora andam na boca do mundo quando se discutem as bondades e as inumanidades da morte assistida:

“O Casal Ventoso pedia que o matassem. Não queria dar parte de fraco. Não queria morrer a chorar. Já cheirava a morto. Agarrava a terra com as mãos sujas da merda esverdeada das tripas, como se a quisesse prender à vida. Passou a que lhe restava na ponta dos dedos pela boca, a beijá-la numa definitiva despedida.

O capitão tirou o seu cantil do cinturão, desrolhou-o e colocou o gargalo como teta de mãe na boca do Casal Ventoso, que sugou uma profunda golada.

– O meu capitão mata-o!

O Cardoso virou-se intempestivo, quase a saltar para impedir as mãos de satisfazerem o último desejo do Casal Ventoso.

– Não devia ter feito isso – disse o Lino.

O capitão sorveu ruidosamente o ar da noite, mordeu os lábios, cerrou os punhos e abriu-os antes de falar.

– Morto está ele. Que merda de moral é a vossa para prolongar o sofrimento de um homem só para que ele morra por si.”

Como diz o autor, nada disto aconteceu, não existiu um general que lançou uma operação para liquidar as bases da Frelimo no planalto dos Macondes, e que preparou a disseminação da guerrilha em direção ao centro de Moçambique; houve ou não aquele coronel conhecido por Tio Abílio, da velha escola, depois substituído por um determinado oficial que sonhava pôr regras e disciplina, assim se ganharia a guerra; houve ou não aqueles oficiais bajuladores que reverenciavam as perlengadas do general K, coisa mais patética não podia ter ocorrido; houve ou não aquele comandante da Frelimo que sabia porque ia morrer e procurou estabelecer regras de jogo mais humanas naquela atmosfera de holocausto. Tudo para culminar em condecorações, promoções, transferências, reclassificações, recompletamentos. A guerra os aproximara, a todos dispersou. Jogou-se à cabra cega anos infindáveis até se descobrir o completo impasse e o sofrimento inútil, todo ele estampado, da primeira página à última, neste prodigioso Nó Cego. Leitura imperdível, para todas as gerações, e sempre a pensar no dever da memória.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.