Foi você que disse SIFARMA?

 

Beja Santos: Não é de mais insistir que num tempo em que os cuidados de saúde vivem um futuro incerto, e com custos por vezes onerosos, o aconselhamento farmacêutico continua a ser totalmente gratuito e possibilita escolhas corretas para o nosso bem-estar. A situação irá revolucionar-se com programas de gestão dos doentes crónicos nas farmácias, mas será assunto para outro texto.

SIFARMA é sinónimo de um instrumento focado no aconselhamento e na segurança da dispensa dos medicamentos. É um processo voluntário, o utente pede que se crie uma ficha, que goza de absoluta confidencialidade, com a legislação da proteção dos dados. Sabe-se que tomar medicamentos envolve sempre um risco. Com o SIFARMA fica na ficha o histórico do doente, aqui incluindo as doenças que sofreu ou sofre, os medicamentos que toma ou já tomou, reações adversas já detetadas, alergias, contraindicações, tipo de automedicação praticada, entre outros elementos.

Recorrendo ao SIFARMA, no momento de dispensa do medicamento ou medicamentos é possível, de uma forma rápida e completa: identificar a possibilidade de interferência com doenças ou outros medicamentos, a possibilidade de alergias ou reações adversas e situações nas quais a terapêutica não é a mais adequada; informar o utente sobre precauções particulares na utilização do medicamento; explicar quanto, quando e como tomar de forma correta um medicamento, sendo possível imprimir alguma desta informação em etiqueta autocolante; identificar fatores que contribuem para a efetividade da toma do medicamento, como será o caso da adesão à terapêutica. Na ficha do utente registam-se todos os medicamentos que toma e, caso haja, as patologias, alergias e reações adversas que tenha tido a medicamentos. Cada novo medicamento dispensado é automaticamente avaliado, gerando um conjunto de avisos de segurança personalizados.

Todos estes procedimentos são gratuitos, insista-se. No ato da dispensa, o utente tem a garantia de serem emitidos avisos de segurança que são alertas importantes para, por exemplo, identificar falhas terapêuticas. São hoje inúmeros os testemunhos de sucesso das farmácias que utilizam este instrumento. As pessoas estão cada vez mais sensíveis ao consentimento informado e percebem rapidamente as vantagens de ter uma ficha com os seus dados e um perfil fármaco-terapêutico que registe o seu histórico como doente.

Se quer que o seu farmacêutico lhe preste o melhor serviço de saúde, inteire-se dos benefícios que a ficha de utente lhe pode trazer. Conjugadamente com a ficha de utente, as farmácias dispensam suportes informativos sobre uma multiplicidade de temas, sempre atuais. Podemos dizer com toda a convicção que a promoção da saúde recebeu um novo impulso com esta ferramenta informática que está ao nosso serviço nos balcões das farmácias. A nossa cidadania na saúde tem tudo a ganhar em aderir à ficha do utente com acompanhamento. Temos direito ao melhor serviço de saúde possível.

Encontro entre um homem e uma história, Casa de Santa Marta, Vaticano, conversas entre o Papa Francisco e um intelectual francês

Beja Santos: Dominique Wolton é um renomado sociólogo da comunicação francês com uma longa obra de investigação em torno da globalização, da diversidade cultural e da alteridade. Wolton propôs ao Papa um encadeado de conversas, onde não faltaram a paz e a guerra, a religião e a política, os prementes e atuais problemas europeus, como responder aos desafios atuais da cultura e comunicação, o que são a alegria e a misericórdia, que nova perspetiva introduziu no ritmo da Igreja Católica aquele que foi o Arcebispo de Buenos Aires, o primeiro jesuíta e argentino feito Papa.

Um Papa que disse em Lesbos: “Somos todos migrantes e somos todos refugiados”, Wolton pediu ao residente da Casa de Santa Marta o significado e este prontamente respondeu: “A nossa teologia é uma teologia de migrantes. É o que somos todos desde o chamamento de Abraão. O próprio Jesus foi um refugiado, um imigrante. E, existencialmente, segundo a fé, somos migrantes”. Francisco define a política como “convencer, argumentar e, acima de tudo, negociar em conjunto”. Recorre à imagem de um poliedro, em que todos os pontos estão unidos, mas cada ponto, quer represente um povo quer uma pessoa, conserva a sua própria identidade. São conversas entre dois homens cultíssimos, o Papa cita Romano Guardini ou confessa a sua estima por dois homens verdadeiramente adversários, Shimon Peres e Mahmoud Abbas, fala das pontes, do derrubamento dos muros, diz inequivocamente que a Igreja não deve envolver-se na política partidária, a grande política, essa sim, é uma das mais elevadas formas de caridade, está orientada para o bem comum de todos. Não se escusa de referir a teologia da libertação, dos graves problemas ambientais, refere que faltam grandes políticos à Europa e que o diálogo inter-religioso está a dar passos seguros. Volta à imagem do poliedro para falar da globalização, não se coíbe de falar dos 62 privilegiados que são hoje detentores da mesma riqueza que 3,5 mil milhões de pobres. Exalta os genuínos movimentos populares que lutam contra as desigualdades e aproveita para referir os tesouros de misericórdia que são aqueles missionários que percorrem o mundo pobre só para dar e que nada pedem.

É muito expressivo a falar das novas formas de organização da Igreja, realça a todo o tempo a alegria, considera que a maior ameaça global à paz nos dias de hoje é o dinheiro, é um homem confiante, o seu olhar estende-se para as igrejas de África e da Ásia, vale a pena ouvi-lo: “A Ásia conta com imenso património espiritual, 2000-3000 anos antes de Jesus Cristo, mais do que a África. Mas a África tem a alegria, a frescura. Um núncio contou-me que na catedral da capital do país onde ele exerce, diante da Porta Santa – porque o Jubileu é celebrado em todas as regiões do mundo – havia uma longa fila de pessoas que esperavam para entrar e celebrar o Jubileu. Entravam, alguns aproximavam-se do confessionário, outros rezavam: eram católicos. E a grande maioria prosseguia até ao altar da Virgem: eram muçulmanos! Porque até os muçulmanos querem fazer o Jubileu, mas fazem-nos com a Virgem. E isso, essa coexistência, é uma riqueza de África”. Este mesmo Papa reitera que o espírito cristão é aberto, que a modernidade é abertura, é não ter medo. De quando em quando, Francisco diz abertamente que não está em posição de emitir um parecer sério, que vai estudar, voltará ao assunto. E conversam sobre os assuntos europeus, Francisco enfatiza que a Europa assenta numa história de integração cultural muito forte, os longobardos são os nossos lombardos de hoje, são os bárbaros que chegaram há muito tempo. O fanatismo religioso prejudica o diálogo com outras crenças, mormente os judeus, é preciso trabalhar para que haja união apesar de todas as diferenças. E de novo fala na política, na “alta” política, que consiste em fazer as pessoas avançar com base numa proposta evangélica. A conversa sobre cultura e comunicação é profundamente animada, Francisco entusiasma-se: “Gosto muito de falar da linguagem dos gestos. É uma bela forma de comunicação. Porque, dos cinco sentidos, o mais importante é o do tato”. Mas exalta igualmente o silêncio: “Posso dizer-lhe que não consigo comunicar sem silêncio. Nas experiências mais autênticas de amizade, mas também de amor, os momentos mais bonitos são aqueles que misturam a palavra, os gestos e o silêncio”. E conta histórias da sua vida em que o silêncio é terno e afetuoso, quente e amistoso.

“Papa Francisco, um futuro de fé, uma conversa franca com o sociólogo Dominique Wolton”, Planeta, 2019, revela-nos, de um modo muito abrangente, a visão que o Papa tem da sociedade e da política, dos fundamentalismos e da laicidade, do ecumenismo, do indivíduo e da família. É desafrontado, veja-se este comentário: “Os pregadores correm um grande risco, que é o de caírem na mediocridade. E apenas condenarem a moral – desculpe a expressão – ‘da cintura para baixo’. No entanto, os outros pecados, que são os mais graves – o ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida –, desses já não se fala muito”. Aproveita o exemplo do futebol, o seu espetáculo, para recordar o futebol amador e observa: “Não há comunicação verdadeira sem gratuitidade. A gratuitidade significa ser capaz de perder tempo”. É por isso que Francisco é um comunicador nato, introduz a propósito uma história vivida e depois conclui: “A questão não é humanizar a tecnologia: é, sim, humanizar o Homem e protegê-lo”. A questão central das conversas passa pela Igreja aberta a que aspira Francisco. Nem sempre responde diretamente a Dominique Wolton, às vezes passa ao lado, outras vezes é incisivo: “Os padres católicos representam sensivelmente 2% dos pedófilos. Parece pouco, mas é de mais. Um só padre católico que seja já é horrível, a tolerância é zero! Porque o padre deve conduzir as crianças a Deus, e não destruir-lhes a vida”. A conversa vai sempre para a alegria, a alegria que está no coração do Evangelho, recorda a alegria que têm as crianças, a festa nas igrejas em África, no Vietname e na América Latina, dança-se e canta-se nas igrejas. Fala igualmente na misericórdia, na Igreja dos humildes, no tratamento da tradição, na laicidade, na universalidade da Igreja. E por fim, a essência da missão de Francisco, as reformas que ele está a imprimir, a paz que sente no Vaticano, a dádiva do Senhor que o faz andar por diante. Um livro sublime, para gente de todas as crenças.

Olho seco, uma doença crónica que se finge ignorar

Beja Santos: É uma doença inflamatória que atinge cerca de 10 a 20% da população adulta, carateriza-se pela diminuição da produção de lágrimas ou pela deficiência em alguns dos seus componentes. Os sintomas mais frequentes são bem conhecidos: sensação de areia nos olhos, ardor, irritação, lacrimejo acentuado, comichão, olhos vermelhos e dolorosos, visão enevoada. É bastante comum verificar-se um agravamento dos sintomas ao fim do dia. Há doenças que podem estar associadas a manifestações do olho seco: a blefarite (uma forma de inflamação das pálpebras), rosácea, lúpus, artrite reumatoide, diabetes, perturbações da tiroide e outras.

A secura ocular pode estar associada a clima seco, atmosfera de fumo de cigarro, sistema de aquecimento no trabalho ou em casa, mas pode também aparecer associada ao processo natural do envelhecimento, especialmente durante a menopausa: aos 65 anos a produção das lágrimas é cerca de 40% daquela que é produzida aos 18 anos. A secura ocular pode também aparecer como efeito adverso de alguns medicamentos.

E que importância têm as lágrimas! São a primeira barreira de proteção da superfície ocular externa, eliminam partículas e microrganismos, cada pestanejo é como se fosse uma ação de lavagem. Aqui ficam dados sumários sobre a prevenção e o tratamento do olho seco: evitar as situações que provocam o agravamento dos sintomas, caso de uma atmosfera muito seca ou passar muito tempo diante do monitor do computador, deve-se prestar atenção ao pestanejar. Quem é portador de lentes de contato não se deve esquecer de que elas secam os olhos, mantenha-os bem lubrificados com lágrimas artificiais. O olho seco deve ser alvo de avaliação clínica, o oftalmologista pode prescrever a utilização de colírios ou de geles de substituição das lágrimas. O doente deve preparar bem a consulta com o oftalmologista, reunindo informação sobre os sintomas que sente, se sofre de outras doenças, quais os medicamentos que está a tomar, etc. Fale com o seu farmacêutico, peça sempre para lhe explicarem a técnica correta de aplicação de colírios, geles e pomadas oftálmicas. É um assunto mais importante do que pode pensar: a gota não cai de cima, deve aplicar-se junto ao olho sem que lhe toque, entrando numa bolsa que é formada pela pálpebra inferior junto do canto interior do olho com a ajuda do dedo indicador, mantendo depois o olho fechado durante algum tempo.

Embora a doença do olho seco esteja classificada como ligeira, moderada e grave, é na verdade crónica, designadamente para os seniores. Não tratar o olho seco pode ter consequências graves para a visão, por exemplo, lesões na córnea e na conjuntiva, redução da visão e infeções oculares. O Ministério da Saúde tem-se mantido à margem quanto aos preços destes colírios, geles e pomadas oftálmicas, a indústria farmacêutica aumenta gradualmente os preços dos seus produtos, não há medicamentos genéricos, é incompreensível o comportamento do Infarmed, deixa-se ao Deus-dará a evolução destes preços esquecendo os doentes de baixos rendimentos, tudo a pretexto de que são medicamentos não prescritos pelo médico e de que se trata de uma doença benigna…

O mundo vai melhor do que muitos pensam

 

Beja Santos: Resultado de uma laboriosa investigação, que prossegue, “Factfulness” é um dos livros mais surpreendentes, desmonta, por vezes por processos surpreendentes, pessimismos que guardamos sobre o nosso futuro porque nos traz uma outra compreensão do mundo. “Factfulness” por Hans Rosling, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2019, derruba preconceitos e abre clareiras de esperança. Afinal, é bastante elevado o número de raparigas que termina o ensino primário em todos os países de baixos rendimentos; afinal, a maioria da população mundial vive em países de médios rendimentos; afinal, nos últimos vinte anos a proporção da população mundial a viver em pobreza extrema diminuiu quase metade. Cresceu a esperança de vida no mundo, cresceu a escolaridade, o acesso à eletricidade, às vacinas, desceu o risco crítico das chamadas espécies em vias de extinção.

Lemos e parece que levamos um murro no estômago, o que os números revelam é literalmente o oposto que nos noticiam. E o autor diz que contatou políticos, investigadores, cientistas, milionários, empresários de renome, de um modo geral são pessoas de visão desfocada, desconhecedores dos dados primários respeitantes ao mundo envolvente. E ele escreve: “A vasta maioria da população mundial vive algures a meio da escala do rendimento. Talvez não seja aquilo que entendemos como classe média, mas não vive em pobreza extrema. As suas filhas vão à escola, as crianças são vacinadas, constituem famílias com dois filhos e querem ir ao estrangeiro de férias e não como refugiados. Passo a passo, ano a ano, o mundo está a melhorar. Embora o mundo enfrente inúmeros desafios, fizemos tremendos progressos. Esta é a visão do mundo baseada em factos. É a visão do mundo excessivamente dramática que atrai as pessoas para as respostas mais dramáticas às minhas questões factuais. As pessoas, de forma constante e intuitiva, baseiam-se na sua visão do mundo quando pensam, adivinham ou aprendem acerca do mundo. Mas esta visão do mundo excessivamente dramática não é provocada simplesmente por um conhecimento desatualizado. Mesmo as pessoas com acesso à informação mais recente veem o mundo de forma errada”. O autor confessa o seu objetivo com este seu trabalho: mudar a forma das pessoas pensarem; a isso chama a factualidade. O autor enuncia quatro níveis de rendimento: no nível 1, vive-se com um dólar por dia, os filhos levam horas a ir descalços com um único balde de plástico buscar água, não há dinheiro para os antibióticos, cerca de mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia; no nível 2, vive-se com três dólares por dia, muda o regime alimentar, a vida é muito melhor mas ainda muito incerta, uma só doença e terá de vender a maior parte dos seus bens, cerca de três mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia; no nível 3, o rendimento é de, pelo menos, dezasseis dólares por dia, água canalizada, uma linha elétrica estável, um frigorífico, talvez uma motorizada, dois dos seus filhos começam o ensino secundário, cerca de dois mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia; no nível 4, há mais de trinta e dois dólares por dia, a escolaridade atinge os doze anos, pode jantar fora uma vez por mês e comprar um carro, cerca de mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia. A visão destes quatro níveis só é possível através de dados, quadros estatísticos, gráficos e saber usar a factualidade para perceber as mudanças: estão a diminuir a escravatura, os derrames de petróleo, as infeções do VIH, a mortalidade infantil, a pena de morte, a gasolina com chumbo, a varíola, a destruição do ozono, o trabalho infantil e a fome, por exemplo. E estão a aumentar o número de filmes por ano, o direito das mulheres ao voto, o número de artigos académicos por ano, a percentagem da humanidade a viver em democracia, a percentagem de pessoas com telemóvel ou internet ou com água de uma fonte protegida ou de raparigas em idade de escola primária matriculadas.

Pela factualidade podemos contrariar o nosso instinto de negatividade (instinto para repararmos mais no mau do que no bom). Como escreve o autor, “Factualidade é reconhecer quando as coisas assustadoras captam a nossa atenção e lembrarmo-nos de que estas não são necessariamente as mais perigosas. Os nossos medos naturais da violência, do encarceramento e da contaminação levam-nos a sobreavaliar sistematicamente estes riscos. Para dominar o instinto do medo, temos de calcular os riscos”. Quando manipulamos corretamente os dados, encontramos explicações e chegam as surpresas, para isso é preciso procurar diferenças e semelhanças dentro dos grupos, procurar diferenças entre grupos e aprender a deixar de formar a nossa visão do mundo apenas pelo que nos chega dos meios de comunicação.

Este espantoso e esclarecedor livro de Hans Rosling revela-nos que os EUA possuem os mais doentes dos ricos, que os imigrantes trazem riqueza aos países de acolhimento, que as chamadas pandemias globais são cada vez mais detetáveis, graças a instrumentos de deteção e anulação. E dá conselhos: “Digo que nos preocupemos com as coisas certas. Não digo que desviemos o olhar das notícias nem que se ignorem as chamadas dos ativistas à ação. Digo que ignoremos o ruído mas que prestemos atenção aos grandes riscos globais. Não digo que não tenhamos medo. Falo em manter a cabeça fria e apoiar as colaborações globais de que precisamos para reduzir estes riscos. Controlemos o nosso instinto de urgência. Controlemos todos os nossos instintos dramáticos. Fiquemos menos stressados com problemas imaginários de um mundo excessivamente dramático e mais alertados para os problemas reais e para a forma de os resolver”.

Como não recomendar esta obra que desvela os fundamentos do nosso instinto de negatividade e que desperta tanto interesse para a factualidade onde aprendemos o que se está a passar com o milagre silencioso do progresso humano?