O Crime Exige Propaganda, por Dorothy L. Sayers

Beja Santos: O Crime Exige Propaganda, por Dorothy L. Sayers, Livros do Brasil/ Porto Editora, 2018, ganhou notoriedade desde a sua primeira edição por razões excecionais: era a primeira vez que uma história de crime e mistério tinha como pano de fundo uma agência de publicidade; um detetive amador, um aristocrata sofisticado, Lord Peter Wimsey, aparecia na agência para se inteirar de uma morte a que não faltava a hipótese de homicídio, um copywriter despenhara-se numa escada em caracol, a coberto do estatuto de um novo copywriter da agência, vai sondando, até chegar à verdade dos factos. Dorothy Sayers deve ter-se deliciado a escrever este livro. Ela foi uma das primeiras mulheres a licenciar-se por Oxford, em 1915, e em 1921 ingressou numa agência de publicidade, onde foi copywriter durante quase uma década. Logo no seu primeiro livro policial, em 1923, deu vida a Lord Peter Wimsey, um cavalheiro distintíssimo, que em circunstância alguma irá rivalizar com outros detetives de fama mundial, caso de Hercule Poirot, inspetor Maigret ou Ellery Queen. Diga-se em abono da verdade que a escola literária inglesa manteve uma identidade intocável até aos anos 1950, lê-se Agatha Christie, Anthony Berkeley ou Chesterton e eles são naturalmente inconfundíveis, paradigmáticos. Para evitar contendas, logo na abertura do romance, Dorothy Sayers veio pacificar ânimos: “Não creio que exista no mundo classe mais inofensiva e respeitadora da lei que a dos especialistas em publicidade da Grã-Bretanha. A ideia de que um crime seja cometido numa agência de publicidade é daquelas que só podem ocorrer à desordenada fantasia de um escritor de romances policiais, habituado a atribuir a culpa à pessoa mais improvável. Se, no decurso desta história imaginária, utilizei involuntariamente um nome ou slogan que sugira qualquer pessoa, firma ou produto, é simples coincidência, pois não há a menor intenção de mencionar qualquer produto, firma ou pessoa”. Dorothy Sayers queria-se prevenir de eventuais dissabores, mas ao longo da obra iremos ser confrontados com situações caricatas na preparação de campanhas, e se alguma ilusão houvesse de que a autora não se estava a divertir à custa dos trabalhos publicitários, tudo ficará claro com o final do livro, que tem corrido mundo quando se quer fazer alusão a desvarios da sociedade de consumo:

“Anuncie à Inglaterra. Anuncie ao mundo. Coma mais aveia. Cuide da sua pele. Basta de guerra. Lustre os sapatos com Lustrie. Pergunte ao merceeiro. Adoram Laxamalt. Prepare-se para comparecer diante de Deus. A cerveja Bung é a melhor. Prove as salsichas Dogsbody. Evite a Poeira. Sirva biscoitos Crucnlets. As sopas Snagsbury são as melhores para as tropas. Morning Star, o jornal do lar. Vote em Punkin e proteja os lucros. Evite o espirro com Espistop. Limpe os rins com Fizzlets. Desinfete com Sanfect. Fume Whifflets para fazer uma fortuna… Anuncie ou morra.”

Direi, com a satisfação de quem relê este clássico encontrando elementos novos, que Dorothy Sayers é brilhante na descrição na vida na agência, com fofocas e intrigas, com rivalidades e prepotências, com secretárias e datilógrafas que sabem mais segredos da casa que o diretor, Brendon, o novo copywriter, ou Lord Peter, é um perguntador incómodo, quer conhecer a fundo as circunstâncias da morte do seu antecessor, com quem se dava, acolhe opiniões, entra-se a fundo na vida da agência, a Pym’s Publicity, as suas reuniões com anunciantes, e aqui se vê como Dorothy Sayers fala com experiência, falando de estúdios gráficos, das queixas dos maquetistas, do trabalho dos tipógrafos, das revisões, dos textos novamente compostos, das discussões dos slogans… E Brendon vai conhecer a irmã da vítima, por acaso namorara com um colega da agência que fica furioso e ciumento, descobre-se a atmosfera um tanto desbragada em que a vítima se movia, Brendon vai cozendo os fios até descobrir um elemento novo, aparentemente desconexo com o trabalho publicitário, o tráfico de drogas. O cunhado de Lord Peter, um inspetor-chefe da Scotland Yard, dá uma mãozinha, começa a tentativa de caçada ao grande fornecedor e à rede de distribuidor. Brendon recorre a um paquete da agência para colher mais informações, e o romance ganha vivacidade porque estamos sempre a ouvir falar em bens de consumo, nas respetivas campanhas, enquanto a investigação prossegue. E é bom regressar a este ambiente dos anos 1930, em que a publicidade assentava na embalagem, no anúncio na imprensa e nas informações que se podiam receber nos estabelecimentos ou nos incitamentos em meio radiofónico, é uma trama narrativa polvilhada de cenas narrativas, entrechos dramáticos, até que a investigação se irá consumar numa dolorosa confissão, descoberta a razão do crime e quem o perpetrou. O romance teria que dar brado, pois na mesma época em que as virtudes vitorianas rejeitavam romances como O Amante de Lady Chatterley, de David Herbert Lawrence, há para ali cenas bem picantes, embora cuidadosamente apresentadas, Dian de Momerie hoje seria tratada como uma prostituta de luxo.

E há que saudar, neste regresso a um romance com muito boas décadas, a extraordinária organização da trama, a mestria com que se desenvolve o enredo, o preparativo do desfecho final com perseguições e prisões, assim que o portentoso e espertíssimo Lord Peter ficou esclarecido quanto ao modo como se distribuía a cocaína, como se montavam os códigos informativos para se poder proceder à distribuição da droga – a cena da partida de críquete é verdadeiramente notável.

Ainda bem que a nova Coleção Vampiro se lembrou de fazer comparecer Dorothy Sayers, uma grande senhora do policial britânico. A ler com afinco, até para sorrir com as matreirices da autora que sabia muito bem como se confecionam mensagens publicitárias…

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