O Enigma do Casino, S. S. Van Dine

No tempo em que os detetives usavam monóculo e calçavam botina:

O cultíssimo Philo Vance volta a mostrar agudeza em caso bicudo

Beja Santos: Os romances de crime e mistério têm tido ciclos áureos, nomeadamente nos últimos cem anos. Na literatura policial norte-americana das décadas de 1920 e 1930, os livros com a assinatura S. S. Van Dine foram de sucesso imediato. Este S. S. Van Dine (pseudónimo de Williard Huntington Wright) criou um detetive amador de cultura esmerada, bem na vida, tão bem que tinha como secretário Van Dine, que o acompanhava em todas as suas deambulações detetivescas e por isso mesmo as pôde descrever minuciosamente, como o Dr. Watson fez com Sherlock Holmes.

Não há história de S. S. Van Dine que não abra com uma convocatória urgente ao leitor, há sempre um parágrafo chamariz, só faltam trombetas. Veja-se o caso de “O Enigma do Casino” por S. S. Van Dine, Livros do Brasil, 2018: “No frio e triste outono seguinte ao espetacular Crime do Dragão, Philo Vance viu-se perante o que talvez fosse o mais subtil e diabólico problema criminal da sua carreira. Ao contrário dos seus outros casos, este mistério estava relacionado com envenenamento. Mas não se tratava, porém, de um vulgar caso de envenenamento: a técnica utilizada fora tão inteligente e o planeamento tão minucioso que nem sequer era possível catalogá-lo ao nível de crimes tão famosos como os dos casos de Cordelia Botkin, Molineux, Maybrick, Buchanan, Bowers e Carlyle Harris”.

O palco dramático será um casino na Rua 73 Oeste, em Nova Iorque. O primeiro episódio sinistro irá ocorrer numa sala de roleta e o último episódio da tragédia terá igualmente lugar num escritório deste casino, logo a seguir ao principal salão de jogo. E o autor volta a aguçar a curiosidade do leitor com um novo parágrafo de meter medo: “Confesso que esta derradeira e terrível cena me atormentará até ao dia da minha morte e me causará calafrios pela espinha acima sempre que permitir ao meu espírito recordar os seus horríveis pormenores. Tenho-me visto em muitas situações desagradáveis e aterradoras, juntamente com Vance, mas nunca nenhuma me perturbou tanto como o terrível e fatal desfecho, tão súbito e inesperado”. O leitor já foi capturado, entra-se na história. Philo Vance, que andava a catalogar desenhos de cerâmica suméria, recebera uma carta anónima alertando-o para um perigo tremendo, estava a ser preparada uma tragédia, conviria que ele fosse ao tal casino e vigiasse um seu cotado cliente de nome Lynn Llewellyn, não deixando de vigiar também outras pessoas ali presentes. Vance previne o seu amigo Markham, Procurador Público em Nova Iorque, que aparece em todos os romances de S. S. Van Dine. E naquela noite de sábado Vance irá presenciar uma tentativa de envenenamento, o tal Lynn Llewellyn quando já estava a ganhar uma fortuna cambaleia e desmaia. Estamos nisto quando se descobre que a mulher do dito envenenado tinha morrido em sua casa. A tragédia é agora vivida dentro de uma residência onde há estranhíssimas personagens, Vance interroga toda a gente, já não tem dúvidas se está perante uma situação diabólica. Um dos pontos marcantes das obras de S. S. Van Dine passa pela caraterização das personagens. Veja-se o responsável do casino, Richard Kinkaid: “Era um homem forte, de quase um metro e oitenta de altura, e não obstante a sua propensão para a corpulência, via-se perfeitamente que possuía uma constituição vigorosa. O seu cabelo de um cinzento-escuro e muito curto parecia claro, em contraste com a sua tez rubicunda. Tinha o rosto oval, mas as feições grosseiras davam-lhe um ar de intratabilidade. A testa era baixa e larga, o nariz pequeno, achatado e irregular, e a boca, de lábios comprimidos e duros, parecia uma linha longa, reta e imóvel. Os seus olhos eram, contudo, a feição predominante do seu rosto. Pequenos e de pálpebras pendentes nos cantos exteriores, como os de um homem atacado pela doença de Bright, as íris pareciam estar sempre acima dos centros dos globos oculares, dando-lhe à expressão um ar sardónico e quase sinistro. Havia astúcia, perseverança, subtileza, crueldade e arrogância nos seus olhos”. Não mais, neste subgénero literário, um escritor irá esmiuçar ao detalhe as suas personagens.

Tudo surpreende nesta literatura, em que mesmo o fora de tempo ganha certa conformidade: os smokings, o fumar a torto e a direito, os gostos requintados do gastrófilo Philo Vance, pela-se por uma sopa de tartaruga ou caviar beluga, os cavalheiros usam chapéu e a bengala dá distinção. Na atmosfera familiar, o detetive amador apercebe-se de subtis dissensões, meias verdades, ódios dissimulados – uma atmosfera propícia para espalhar venenos, desviar atenções da polícia para o móbil do crime, desorientar pistas, parece que toda a gente sabe de toxicologia, fala-se da nitroglicerina e da beladona para o tratamento de doenças, estamos perante um romance policial inédito com preparados de farmácia com zinco e lanolina, há sempre segredos testamentários, quem herda de quem, quando se pensa que acabou a série de envenenamentos há mais gritos e desmaios, alguém mexeu no armário dos remédios, a trama adensa-se.

À data em que publicou este livro, S. S. Van Dine era um autor consagrado, O Caso Benson e Os Crimes do Bispo foram bestsellers. O desfecho final desta obra tem um fabrico um tanto artificial, mesmo que provoque uma carga elétrica no leitor ao ser confrontado com o maquiavelismo de quem urdira a cadeia de envenenamentos e porquê. Há uma inflação de toxicologia que nada acrescenta à identificação do criminoso. O detetive tem uma longa conversa com um tal Dr. Hildebrandt que não passa de uma convulsão verborreica: “Os sintomas da gastrenterite, da cólera-morbo, da ulceração do duodeno, da uremia e da acidose aguda são relativamente semelhantes aos do envenenamento pelo arsénico, pelo acónito, pelo antimónio, pela digitalina, pelo iodo, pelo mercúrio e por vários ácidos corrosivos álcalis. As convulsões que acompanham o tétano, a epilepsia, a eclampsia puerperal e a meningite também são causadas pela cânfora, pelos cianetos e pela estricnina. As pupilas dilatadas, que se encontram em doenças que produzem atrofia ótica ou fraqueza do nervo ótico, também se sucedem ao envenenamento pelo grupo da beladona, pela cocaína e pela gelsemina (…)”.

Dilucidado o crime, abatido o criminoso, a vida continuou, o casino fechou e até houve casamentos. Philo Vance reforçou a sua cultura, viajou, ouviu muita música, comeu com requinte e vamos em breve vê-lo num caso ainda mais escabroso. É sempre agradável voltar a esta literatura que qualquer dia tem um século… E muito poucas rugas no suspense com que captura o leitor.

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