O fim do fim da terra: belíssimas páginas, com avisos para o futuro

Beja Santos: Chamam-lhe “O Grande Romancista Norte-Americano” e ninguém se surpreenderá se depois de prémios e outros galardões recebidos um dia seja contemplado pelo Nobel. Este livro não é um romance, é uma coletânea de ensaios, onde se mistura a literatura e as preocupações ambientais do autor com as aves. São textos soltos de profundo cunho memorial, crónicas, quase páginas de um diário. Logo arranca com o que pode parecer uma provocação: “Se um ensaio é uma coisa que se ensaia – uma coisa tentada, não definitiva, não imperativa; uma coisa que o autor arrisca tendo por base a sua experiência pessoal e a sua subjetividade – poder-se-á pensar que vivemos numa época de ouro ensaística”. Sabendo nós que as obras de ensaio não atraem muitos leitores, logo nos ocorre a pujança das redes sociais, essas sim, vivem uma idade de ouro documentários e confissões. O que acontece é que um grande escritor também pode ser um grande ensaísta ou recolector de impressões de viagem, mesmo a título de uma reportagem.

Dá-nos uma água-forte da sua vida em Nova Iorque, isto em 1981, sentia-se idealista, a Nova Iorque voltou quinze anos depois, o seu nome já se impunha na literatura, foi receber um pecúlio ao banco, no flanco sueste do Soho: “Não sei quantas notas de cem dólares me deram lá mas achei que era uma quantia demasiado grande para transportar na carteira. Antes de sair do banco, enfiei discretamente as notas numa das peúgas. Cá fora estava uma daquelas manhãs luminosas de agosto em que uma frente fria varre a maldade do céu da cidade. Fui direito à estação de metro mais próxima, preocupado com a minha riqueza, na esperança de passar por pobre aos olhos de quem quisesse o meu dinheiro mais do que eu o queria”.

E a prosa muda de latitude, temos agora um ambientalista em estado de deslumbramento, começa assim: “Se pudéssemos ver todas as aves que há no mundo, veríamos o mundo inteiro. É possível encontrar seres com penas em todos os cantos de todos os oceanos e em habitats terrestres tão inóspitos que não servem de habitat para mais nada. As gaivotas-cinzentas criam os seus filhotes no deserto chileno de Atacama, um dos lugares mais secos à face da Terra. Os pinguins-imperadores incubam os seus ovos na Antártida em pleno inverno. Há açores que nidificam no cemitério de Berlim onde Marlene Dietrich está sepultada, pardais-comuns nos semáforos de Manhattan, andorinhões em grutas marinhas, abutres nos penhascos dos Himalaias, tentilhões em Chernobyl. As únicas formas de vida mais disseminadas do que as aves são microscópicas”.

E depois deste deslumbramento, tira uma conclusão: “A radical singularidade das aves é parte integrante da sua beleza e do seu valor. Estão sempre entre nós, mas nunca nos pertencem. São os outros animais dominadores do mundo que a evolução produziu, e a sua indiferença para connosco devia servir-nos de lição e recordação de que não somos a medida de todas as coisas”. Alerta-nos para a extinção em massa que o nosso modo de vida provoca às aves, muito mais que as alterações climáticas, embora estas, como é óbvio, tenham um forte impacto em todos os ecossistemas. Diz abertamente que o futuro contém a sua morte mas também uma segunda morte, maior, do mundo tal como o conhecemos.

Jonathan Franzen viaja muito e vê em países pobres a matança das aves como um modo de subsistência, no Egito, na Albânia, dizimam-se aves não só para a autossubsistência mas porque há mercado para pássaros raros ou falcões. E o autor faz uma pausa para recordar a sua profunda amizade pelo escritor Bill Vollmann, ficou gratidão e saudade: “Não sei bem por que razão eu e Bill nos afastámos. Talvez tenha sido simplesmente uma coisa que acontece aos escritores quando emergem das suas soluções respetivas, mas ainda assim miscíveis, e se transformam em versões mais cristalinas de si mesmos, ou talvez o nosso relacionamento particular de irmão mais velho/irmão mais novo tenha deixado de funcionar quando eu encontrei o meu novo caminho”.

Bem saborosas são as regras com que ele pauta a atividade do romancista, verdadeiros avisos à navegação de quem se põe à secretária para gerar literatura comestível: “O leitor é um amigo, não um adversário, não um espetador; ficção que não seja a aventura pessoal do autor não merece ser escrita a não ser por dinheiro; a ficção mais puramente autobiográfica exige pura invenção; vês mais estando quieto do que a correr atrás de alguma coisa; é duvidoso que alguém que tem ligação à internet no seu local de trabalho esteja a escrever boa ficção; os verbos interessantes raramente são muito interessantes; tens de amar antes de poderes ser impiedoso”.

E partimos para uma nova viagem, as aves vão ser de novo companhia, estamos na ilha de Gonçalo Álvares, uma massa de rocha vulcânica com 25 milhas quadradas no Oceano Atlântico Sul. A ilha alberga milhões de aves marinhas em reprodução, incluindo toda a população mundial da freira-de-barriga-branca e praticamente todos os albatrozes-de-tristão, espécie ameaçada. E ficamos a saber mais dos riscos que impendem nesta dimensão da fauna: “O declínio calamitoso das populações de aves marinhas tem muitas causas. A sobrepesca de anchovas e outros peixes pequenos de que as aves marinhas se alimentam priva diretamente os pinguins, gansos-patolas e papagaios-do-mar da energia de que necessitam para se reproduzirem. As alterações climáticas, que alteraram as correntes oceânicas, parecem já estar a causar o insucesso reprodutivo entre os papagaios-do-mar da Islândia, e as aves que nidificam em ilhas de baixa altitude são vulneráveis à subida do nível do mar. A poluição pelos plásticos, em particular no Oceano Pacífico, está a atravancar o aparelho digestivo das aves marítimas e a deixá-las famintas do verdadeiro alimento”.

Um livro de crónicas, de recordações, de memórias, de afetos construídos e derruídos, uma imperturbável paixão pelas aves, mas acima de tudo a prova provada de que Jonathan Franzen mesmo fora do romance é um génio literário.

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