O Gene da Atlântida, por A. G. Riddle

Beja Santos: A literatura de entretenimento espraia-se em várias direções: bruxedo e feitiçaria; vampirismo nem sempre amável; muitíssimas versões de guerras de tronos, entre o passado e o presente, visto que há muitas modalidades e guerras em Wall Street; crianças prodigiosas dotadas de poderes sobrenaturais que têm os seus ícones máximos nas obras de Tolkien (Hobbit e O Senhor dos Anéis) e Harry Potter; e as sociedades iniciáticas, ocultistas, dominadoras de toda a urbe, à procura do Graal ou da descoberta das nossas origens.

As mais de quinhentas páginas de O Gene da Atlântida, do estreante A. G. Riddle têm os necessários ingredientes para empolgar os aficionados pela origem humana e a revelação dos seus segredos. Veja-se como se sintetiza o thriller, para deixar o potencial leitor a salivar:

“Há 70 mil anos, a erupção de um supervulcão na Indonésia quase levou a raça humana à extinção. Sobrevivemos, mas nunca ninguém percebeu como, nem porquê.

Até agora.

Os Immari, uma sociedade secreta de contornos maçónicos, guardam um segredo há 2 mil anos. E desde então têm feito de tudo para evitar que seja revelado. Até que, na costa da Antártida, a erosão de um icebergue revela um submarino nazi há muito desaparecido – acoplado a uma estrutura que não devia, nem podia, estar ali.

A milhares de quilómetros, num laboratório em Jacarta, a brilhante investigadora Dra. Kate Warner acredita ter descoberto finalmente a cura para o autismo. Mal sabe ela, porém, que duas das crianças que acompanha, e que revelam um comportamento invulgar, podem esconder a chave para a compreensão das origens da nossa espécie. E não imagina que as suas experiências estão a ser seguidas de muito perto pelos Immari.

David Vale, um agente que há anos vigia a perigosa seita dos Immari, percebe entretanto que algo de estranho está a acontecer. Os Serviços Secretos onde trabalha estão sob ataque, sucedem-se as mortes, e ele é o próximo alvo a abater. E sabe que apenas uma pessoa no mundo o pode ajudar a solucionar o enigma: a Dra. Kate Warner.

Juntos irão envolver-se numa intriga internacional, que os levará a percorrer meio mundo, dos cumes gelados do Tibete ao calor asfixiante da Indonésia, numa corrida contra o tempo, em que está em jogo a sobrevivência da raça humana.”

No seu género, é uma obra com bons aliciantes, o promissor romancista, no seu afã, é por vezes ingénuo. Aqueles Serviços Secretos de que se fala é a Clocktower, que ele apresenta assim: “A Clocktower era a resposta secreta do mundo ao terror não-estatal: uma agência de contra terrorismo não-estatal. Sem papelada. Sem burocracia. Era só os bons a matar os maus. A Clocktower era independente, a política, antidogmática e, sobretudo, extremamente eficaz. E por esses motivos, os Serviços Secretos de nações de todo o mundo apoiavam a Clocktower, apesar de não saberem quase nada sobre ela”. O autor seguramente não deu conta que em Beijing, Carachi, Tel Aviv, Moscovo, Paris, Londres e Washington, ninguém embarcaria nesta cantiga dos bons a matar os maus sem se conhecer exatamente o âmago da organização. Mas o arranque é dinâmico e avassalador, arrasta-nos por diferentes ambientes, é uma escrita tipo Dan Brown, capítulos curtos, as frases disparadas como uma mola, os heróis e as heroínas em perfeita correria, os Immari a chacinarem a Clocktower, sempre aquele sabor a mistério das crianças autistas como chave do problema, aquele submarino nazi desvendado na Antártida, tal era a paixão de Hitler pela origem das raças superiores, até que a certa altura apanhamos com um diário de alguém que trabalha em minas situadas em Gibraltar, e que nos vai atirar para um passado remoto e para as possibilidades de um fim do mundo iminente. Tudo se torna mais complexo entre Gibraltar e a Antártida, há pessoas que hibernaram, outras que vivem como se fossem reencarnadas, e aí tenho sérias dúvidas se o leitor já não se debate com a confusão de um génio do mal que faz explodir templos budistas para trucidar um importante sobrevivente da Clocktower e aquela Dra. Kate que, vir-se-á a descobrir, também tem ascendência em quem anda a remexer há muito tempo no ministério das origens.

Manda esta literatura leve e sem compromissos que estes heróis que saltam todos os obstáculos acabem por resolver o mais ingente problema mundial, tiros não faltam, nem explosões, nem a ameaça do aparecimento dos atlantes, há instalações tipo Star Trek por toda a parte, reatores, turbinas, a última palavra no digital, há um génio do mal que nunca desfalece, há segredos do arco-da-velha, é o caso da Immari, como se escreve: “A Imarri Corporation é a descendente, a encarnação moderna de uma tribo de pessoas que deixaram esta área, pensamos que algures entre a Índia, o Paquistão ou até possivelmente o Tibete, há cerca de 12 mil anos, pouco tempo depois da última Idade do Gelo, quando as águas do Dilúvio fizeram os níveis do mar subir dezenas de metros, destruindo as comunidades costeiras do mundo. Este grupo tinha um objetivo: descobrir as verdadeiras origens e a história da espécie humana. Com o passar do tempo e o progresso da Humanidade, surgiu uma nova via de investigação: a ciência”. Mas havia um perigo superior ao da ciência, o que era uma organização vocacionada para o bem caiu nas mãos de um líder inescrupuloso, como muitas vezes acontece.

Sim, a estreia é promissora, mesmo com todos estes excessos que tornam incredível a história sobre o mistério das origens. Tudo aliás vai acabar bem, o autor já escreveu outra obra adaptada ao cinema e uma série de dois volumes com título elucidativo, The Extinction Files (que inclui Pandemic e Genome). Mais: o herói bom vai ter o génio do mal provavelmente à perna por mais uma série de volumes com 500 páginas, mistérios não faltarão, como não faltarão promessas sobre acontecimentos que vão mudar para sempre o nosso entendimento da raça humana. Ora toma!

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