O herói providencial saiu do vácuo numa manhã de nevoeiro

Beja Santos: É um dos temas mais sugestivos da literatura contemporânea, mas tem dimensão clássica, tal os aliciantes que encerra: a figura magistral da revolução, que o rescaldo da revolução deitou borda fora, regressa, procura gente do seu passado, o seu nome é controverso, entre opiniões mesquinhas e o veneno das invejas. Segue-se uma via-sacra, o herói investiga e um dia desaparece no éter. É evidente que se trata de uma trama que se presta a inúmeras variantes. Anos atrás, Lídia Jorge escreveu “Os Memoráveis”, uma reportagem aos heróis do 25 de Abril. “Que fazer contigo, pá?”, por Carlos Vale Ferraz, Porto Editora, 2019, tem outro transcurso, condimentos próprios, trata-se de um vigoroso jogo de encontros e desencontros, alguns próprios de uma trama policial, envolvem Rúben, nome de código de um indistinto major de artilharia que veio a ser comandante da operação que pôs termo ao Estado Novo. Este Salvador da Pátria tem uma linhagem, traz no ADN o sangue de D. António, prior do Crato, dá para perceber a mensagem do sangue português em conflito com as apetências e interesses estrangeiros que se envolveram no 25 de Abril.

Carlos Vale Ferraz escreve sobre o fio da lâmina, há aproximações a verdadeiros protagonistas, pensa-se imediatamente em Otelo Saraiva de Carvalho, a escrita dissipa o equívoco e concorre para outros. Uma obra feita de alegorias, o herói vem encontrar a mãe mumificada, logo nos ocorre que aquela causa que pôs Rúben nos pódios da fama é hoje uma casca seca. É uma peregrinação ardilosa, gera uma cumplicidade entre autor e leitor, Rúben procura, e logo o primeiro demandado lhe responde: “O único Rúben que conheci já não existe”. Rúben replica se era um indesejado, a resposta é pronta: “És uma assombração”.

Outra alegoria: o regresso ao passado, a Violante do Canto, um nome icónico na cultura e história dos Açores, alguém que fez frente aos Filipes. Rúben insiste em explicar-se, ele que fora um herói do 25 de Abril fora derrotado no 25 de Novembro envolveu-se em ações violentas, houve acordos com a nova ordem estabelecida, partiu para um doce exílio, Paris. Rúben quer explicar-se aos camaradas, irá bater a várias portas, logo um fabricante de bombas, Romeu, Rúben é informado de que fora banido, não passava de um traidor, aqui e acolá avulta a figura de Otelo, alguém o menoriza, passados tantos anos: “Tu não distinguias o Trotsky do Tchaikovsky, e julgavas que a social-democracia era um regime porreiro”. Ele pretende explicar-se, sente desdém à volta. Um outro camarada, Tiago, agora agente funerário, relembra-lhe a Operação Alcântara, que levou à detenção dos revolucionários que militavam na órbita de Rúben. Rúben bate à porta de Hermano, agora ligado a um bordel da Madame Piçarra, mais recordações sobre o negócio de armas e material para fazer bombas. É uma viagem espetral, o leitor vai associando as FP-25, e confronta-se com gente reduzida a uma vida anónima, desprovida de qualquer interesse:

“MacGyver cheirava a azedo e só de forma muito turva se recordou do Rúben como o rei Utopos da ilha do Novo Mundo. Dirigira o Revolução, o jornal do movimento. A ressaca da revolução transformara num farrapo esquelético, quase sem dentes e comido pelo álcool o antigo estudante de filosofia que resolvia problemas complexos a partir de objetos comuns. Trabalhava nos fundos de uma loja de chaves, fechaduras e serralharia diversa num centro comercial”. E definiu liminarmente o seu estado: “A minha revolução acabou numa cirrose, camarada”.

Subitamente, as indagações de Rúben dão uma guinada, vamos ao território dos bombistas do ELP, Rúben entra numa descida aos infernos, todos aqueles homens subsistem, o seu ideal e a sua agenda atualizaram-se conforme as circunstâncias. Rúben é posto a recato num mosteiro em Pitões das Júnias, o autor dá-nos margem para saber o que Rúben fez em Paris todos aqueles anos antes de aparecer no cavalo branco em manhã de nevoeiro, entremeia-se a história de Violante Dutra, sempre os Açores, sempre o sonho de educar o Salvador da Pátria. Em Paris houvera traições de outro tipo, amores espúrios, numa atmosfera de permanentes engates.

E avançamos para o clímax, a atmosfera é a de gente feita com o bombismo, há um novo plano para repor a velha Ordem, obviamente que maquilhada. Rúben encontra-se com o major Botelho, como Fausto, vendera não a sua alma ao Diabo mas a sua memória, agora presta-se a estar ao serviço da normalização democrática, o major explica-se: “Limito-me a ser apenas um modesto major reformado, uma pequena abelha no processo de normalização em curso, que substituiu o processo revolucionário que esteve em curso”. Rúben tranquiliza o major: “Os meus antigos camaradas reconstruiram as vidas, dissolveram-se no mundo; quase todos em atividades socialmente necessárias, mas nos subterrâneos e nas margens: tratam de esgotos, de mortos, de negócios do sexo, de publicidade, de desentupimentos e azares domésticos. Não prevejo que regressem às armas, às bombas, aos assaltos. Nem as suas mulheres o permitiriam, e eles vivem quase todos encostados a elas”. O major Botelho dá-lhe indicação do que é que o passado reciclado em nova Ordem tem como desafio: “Enfrentamos situações de grande risco, com a indispensável venda no mercado de bens e serviços públicos, bancos, eletricidade, estradas, aeroportos e mesmo dos lugares para estacionar os carros. Até aqui têm sido saldados sem provocar reclamações populares. Nenhum banqueiro, nem qualquer dos ministros que procederam à trasfega de companhias e marcas que desapareceram na nossa memória foram presos até agora”. Era preciso prever novas formas de contestação, aí Rúben passava a ter um papel saliente. O trotil já não estava na moda, todos queriam sossego, brandos costumes e democracia de estufa.

Então, Rúben estabelece um plano de liquidação desta frente, arma um alibi perfeito para o seu novo apagamento. E desaparece, não num cavalo branco em manhã de nevoeiro, mas com uma nova identidade. Rúben talvez não tenha deixado saudades e a revolução que conduziu é hoje um mundo opaco, com novos valores.

Carlos Vale Ferraz rendilhou uma estimulante leitura sobre o heroísmo, a reconstituição do passado, na atmosfera de venenos e de riscos do nosso presente.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.