O mais precioso espião da Guerra Fria

Um livro arrebatador, uma história real de espionagem que é uma obra-prima

Beja Santos: “O Espião e o Traidor”, por Bem Macintyre, Publicações D. Quixote, 2019, possui todos os ingredientes para cativar os amantes da literatura da espionagem. É uma investigação primorosa, mas pode muito bem acontecer que venha a ser encarada em poucas gerações como um livro que rivaliza com o melhor que John Le Carré escreveu, no território do romanesco. Em 18 de maio de 1985, um bem-sucedido coronel da KGB, colocado no topo da espionagem em Londres, é chamado a Moscovo, vem inquieto, na aparência ele é um servidor incondicional da espionagem soviética, mas há muito que é o mais importante fornecedor de informações para os Serviços Secretos britânicos. Assim começa este trabalho de reportagem, de leitura compulsiva. Oleg Antonyevich Gordievsky tinha familiares no KGB, o pai e mais tarde o seu irmão. O autor dá-nos um retrato do meio familiar, condimenta o estado de hesitação do futuro coronel que será promovido a chefe da estação do KGB em Londres, as suas dúvidas de que o comunismo fosse a doutrina mais perfeita e justa que imaginar se pudesse. Irá debutar em Copenhaga, o espião entrara em estado de choque com a invasão da Checoslováquia, fizera amizade em tempo de estudo com um checo que dava sinais de dissidência. E é neste ambiente da capital dinamarquesa que os britânicos descobrem alguém que não quer dinheiro para prestar informações, o MI6, cauteloso, vai preparando este agente duplo. Os Serviços de Informação dinamarqueses procedem discretamente. É-nos igualmente dado o retrato de como aquele homem denunciava um regime totalitário vivendo em simultâneo num engano emocional, mentindo aos colegas, à família, ao melhor amigo, à mulher e à amante. É a vez de sermos envolvidos no ambiente da Century House, a sede do MI6, e as instalações mais secretas de toda a cidade de Londres. Será aqui que será urdido um espantoso plano de fuga com o nome de código Pimlico. Espantoso ao ponto de todos duvidarem do seu bom resultado, retirar de Moscovo, em caso de força-maior, um coronel do KGB, na eventualidade de ter caído em desgraça no aparelho dos Serviços Secretos Soviéticos. De relance, somos levados a conhecer os meandros da espionagem escandinava, quem é quem nesses países nórdicos. Oleg irá regressar a Moscovo, será um período de silêncio, ele tudo fará para se tornar perito em questões britânicas e um dia será escolhido como agente em Londres. Mas é igualmente importante dar ao leitor um quadro da URSS na era pós Brejnev. Iremos conhecer as obsessões do presidente da KGB, Yuri Andropov, futuro dirigente supremo dos soviéticos. O KGB recebeu diretiva de acolher todos os elementos possíveis para se apurar se os Estados Unidos estavam a planear lançar um ataque nuclear na URSS, uma história mirabolante que acabou no cesto dos papéis. Em Londres, o MI6 retoma os seus contatos com Oleg, a toupeira soviética presta tantas e tais informações que Margaret Thatcher lhe pede elementos acerca da realidade soviética e dos seus dirigentes. Entrara-se numa nova fase de tensões da Guerra Fria, a Europa era palco de mísseis espalhados em vários pontos, havia o espetro de um cataclismo sem precedentes. Entramos na vida familiar de Oleg, o seu novo casamento, o agente duplo sente-se feliz com a nova família. Os britânicos querem saber mais sobre uma brilhante estrela em ascensão no firmamento comunista, Mikhail Gorbachev, Margaret Thatcher pede informações.

É nisto que um agente da CIA faz investigações por conta própria acerca da toupeira soviética, Moscovo começa a receber informações que um agente altamente colocado passa relevantes segredos de Estado para o bloco ocidental. Não há certezas, os chefes do KGB vão fazer o jogo do gato e do rato, Oleg resiste, aperta-se a vigilância, é então que os Serviços Secretos na embaixada britânica em Moscovo, alertados pela mensagem urgente de Oleg, põe em prática a inacreditável operação Pimlico, lê-se todas as etapas desta operação com os bofes de fora, como os britânicos, a pretexto de uma ida urgente a um médico em Helsínquia se metem à estrada bem comboiados pelo KGB e Oleg entra em fuga, faz viagens de comboio até se encontrar com os britânicos graças ao mais espantoso e audacioso golpe de sorte, que até mete fraldas…

Aqui se interrompe o registo desta emocionante avalanche de acontecimentos para assegurar ao leitor que o epílogo não é menos emocionante, a ressaca desta exfiltração que irá abanar pelos alicerces os Serviços Secretos soviéticos e assegurar um caudal de revelações que garantirão a Thatcher e a Reagan negociações favoráveis para o Ocidente. Iremos saber tudo o que irá acontecer a estes espiões. Em 2007, Oleg Gordievsky foi nomeado companheiro da Ordem de São Miguel e São Jorge por “serviços prestados à segurança do Reino Unido”. E “Em julho de 2015, no trigésimo aniversário da sua fuga, todos os envolvidos na gestão do caso e na sua exfiltração reuniram-se para celebrar o espião russo de 76 anos. A mala de napa com que ele fugiu para a Finlândia está agora no museu do MI6. Na celebração do aniversário ofereceram-lhe, como recordação, uma nova mala de viagem. Continha o seguinte: um chocolate Mars, um saco de plástico do Harrods, um mapa da Rússia Ocidental, comprimidos para o alívio da preocupação, irritabilidade, insónias e stress, repelente de insetos, duas garrafas de cerveja e cassetes de música. Os últimos artigos na mala eram um pacote de batatas fritas com sabor de queijo e cebola e uma fralda de bebé”.

Não é incomum dizer-se que a realidade supera a ficção. Esta história extraordinária de um homem colocado no topo dos Serviços Secretos que deixou de acreditar no comunismo e procura a sua implosão denunciando aos contendores segredos ao mais alto nível, o que contribuiu decisivamente para ajudar a mudar a História, é contada de forma tão palpitante que o leitor só larga a narrativa nas últimas páginas, dececionado por não haver mais e talvez intrigado se tudo quanto leu não é mesmo o mais fascinante thriller de todos os tempos. É também assim que a realidade pode triunfar sobre a mais galvanizante imaginação dos romancistas, contando a verdade com o mesmíssimo prodígio dos literatos. Leitura imperdível.

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