O Mistério do Ataúde Grego, por Ellery Queen

Beja Santos: Dois primos nova-iorquinos, com experiência em publicidade e leitores ávidos das histórias de Sherlock Holmes, lançaram-se desde 1929 na literatura de crime e mistério, criaram um detetive bem original, Ellery Queen, ele próprio escritor de romances policiais, formado em Harvard e filho de inspetor de polícia, de tal modo engenhoso, dedutivo e subtil na análise das situações, que esta catadupa de livros foi conquistando o mundo dos aficionados deste subgénero literário, a notoriedade foi de tal ordem que deram origem a peças radiofónicas, filmes e séries de televisão. Ainda hoje, a Ellery Queen’s Mystery Magazine é uma revista a que não faltam adeptos ávidos de tal leitura.

Dentro do relançamento da icónica Coleção Vampiro, temos agora O Mistério do Ataúde Grego, Livros do Brasil/Porto Editora, 2018. Obra bem estruturada, não ficará na primeira linha dos cerca de trinta romances destes primos nova-iorquinos mas permite uma leitura empolgante, até à resolução final de um enfiamento de charadas e enigmas, o leitor andará sempre absorvido. De que trata a obra? A contracapa dá-nos uma ajuda: “O funeral de Georg Khalkis, famoso colecionador de arte grego, havia decorrido de modo íntimo e discreto, mas, inexplicavelmente, num clima de tensão. Foi pouco depois de os acompanhantes do cortejo fúnebre regressarem a casa que o advogado da família se apercebe de que o novo testamento que Khalkis assinara dias antes da sua morte está desaparecido e logo notifica a polícia de Nova Iorque. A busca revela-se infrutífera. Até que o inspetor Richard Queen e o seu filho Ellery sugerem que se volte a abrir o caixão – e o que aí encontram não é o tão desejado testamento, mas o corpo estrangulado de um falsário recém-libertado da prisão. Que relação pode existir entre estes dois homens? Quantos crimes afinal terão sido cometidos? Um papel queimado, uma obra de Leonardo da Vinci roubada e uma pequena gralha tipográfica são algumas das pistas que Ellery Queen não deixará passar em branco e que conduzirão a um insuspeito culpado”.

O arranque deste romance-problema é inegavelmente bom: enterro e descoberta de um furto, um testamento bem diferente do anterior; a entrada em cena de Ellery Queen, ao tempo ainda muito snobe, um tanto petulante e culturalmente exibicionista; interrogatórios a quem vive na casa de Khalkis, até aparece um subpromotor de Justiça a acompanhar o seu superior; é-nos dado um belo ambiente da casa de Khalkis, dos seus familiares e colaboradores. É nesta atmosfera que Ellery Queen se atira ao trabalho, está curioso com o conteúdo de uma chaleira de chá e de chávenas cheias e vazias, isto sabendo-se já que antes da morte de Khalkis houve visitas bem discretas, incluindo a do falsário que aparecerá dentro da sua urna. O dedutivo Ellery percorre o meio envolvente, fica intrigado com uma casa vazia ali ao lado. Há pistas habilmente desorientadoras, Ellery até estuda a preceito a indumentária do velho Khalkis, procura respostas para um caso tão intrincado que de repente chega a um quadro de Leonardo da Vinci que até existe uma extraordinária cópia, as investigações chegam até a um multimilionário conhecedor de arte, põe-se mesmo em causa o que sabe e não sabe o gerente das Galerias Khalkis. Ellery Queen vai-se aproximando do móbil do assassino. Mas a história complica-se, o galerista suicida-se, a viúva reclama por justiça, não houvera suicídio, mas sim assassinato. Adensam-se as intrigas, há demasiados silêncios, ninguém parece disposto a falar sobre o quadro de Leonardo da Vinci. A secretária de Khalkis era investigadora do Museu Vitória e Alberto, vinha seguindo a pista que conduzia a Khalkis, aquele quadro de da Vinci era uma obra-prima descoberta não há muito por um dos pesquisadores do museu, um detalhe de um fresco em que Leonardo trabalhou em Florença, durante a primeira década do século XVI. A investigadora, que vestira a pele de secretária de Khalkis, não conseguia descobrir a mínima pista, ora o quadro fora roubado pelo falsário, as pontas começavam a juntar-se. Mas o pior de tudo é que havia a tal cópia, uma réplica de génio. O multimilionário afirmara a Ellery Queen que era possuidor do segundo quadro, não era um da Vinci, era obra de Lorenzo di Credi, já ninguém sabe o que é o original ou a cópia, é convocado um afamado crítico de arte, Toby Johns, “era um homenzinho idoso e rechonchudo, de olhos brilhantes, traje impecável e ar de serena confiança”. Examinada a obra, seguem-se duas páginas de sapiência sobre história de arte, fala-se de Leonardo, de Lorenzo di Credi, a cópia de Leonardo desaparecera, o embaraço é que as duas telas eram muitíssimo parecidas, o mistério prosseguia. E chegamos ao desfecho final, estão reunidos os atores de intrincado drama, todas as pessoas envolvidas no caso Khalkis, o detetive dedutivo vai pondo os argumentos em cima da mesa, desde cartas, quem bebeu e não bebeu chá antes de Khalkis morrer, por onde andava o quadro de Leonardo, quem matara o falsário e o colocara no caixão de Khalkis, é desmontada a astúcia diabólica do criminoso.

O Mistério do Ataúde Grego cumpre a preceito a sua função. Tem problema intrincado, a charada de atores que se entrechocam e que escondem elementos da verdade, a estrutura permite um bom desenvolvimento das investigações, gera a necessária perplexidade do leitor. Sucede que é bem engenhosa toda a encenação do desfecho final, mas a escolha do assassino soa a falsete, de tão enviesada, de tão pouco credível a escolha de quem matava para enriquecer. É dos primeiros livros de Ellery Queen, as obras retumbantes como Vivenda Calamidade ainda não tinham sido escritas, o génio dava os seus primeiros passos. E convém não nos esquecermos que os mais categorizados críticos literários, passadas todas estas décadas, continuam a considerar Ellery Queen como o maior escritor de literatura de crime e mistério de todos os tempos.

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