O mundo do consumo ocidental, antes e depois da crise de 2007: 1

O mundo do consumo ocidental, antes e depois da crise de 2007:

A evolução da defesa do consumidor em Portugal (1)

 Beja Santos: Na recente remodelação governamental, regressou a Secretaria de Estado da Defesa do Consumidor. Fernando Serrasqueiro saiu do Governo em 2009, foi o último titular da pasta e deixou obra feita, caso do Livro de Reclamações e a obrigatoriedade de certas informações bancárias. A vida acidentada da Defesa do Consumidor não tem uma explicação linear, a própria Comissão Europeia tem vindo a menorizar estas medidas de política, há uma descrença na vida associativa, cometeu-se, ao nível de Bruxelas, a tremenda asneira de deixar cair grupos associativos que tinham influência e até competência técnica em múltiplos dossiês. Hoje, em Bruxelas, a representação dos consumidores é feita pela organização BEUC, que tem pouca expressão e não atrai os cidadãos europeus para a intervenção política, limita-se a um olhar técnico sobre os dossiês, responde às medidas da própria Comissão Europeia e comparece no Parlamento Europeu, é um grupo de pressão sem exércitos atrás. A realidade portuguesa é também de refluxo, a defesa do consumidor parece existir por imperativo de Bruxelas, não há verdadeiros estímulos para a cidadania no consumo. Conviria, numa sucessão de textos, tentar perceber o que aconteceu no mundo do consumo para chegarmos onde estamos e procurar fazer face à premência dos desafios para a revitalização dos movimentos associativos e de uma maior dignidade para as medidas de política. Vamos ao passado recente, com o recurso de outros olhares.

Em 2006, o filósofo Gilles Lipovetsky publicava “A Felicidade Paradoxal, Ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo”, que no ano seguinte apareceu nas nossas livrarias pelas Edições 70. É um esplêndido ensaio, diga-se antes de mais, a que acresce a importância de versar o mundo que pouco tempo depois sofria uma profundíssima transformação, que se prolongaria até aos dias de hoje. Reconheça-se, contudo, que um conjunto de reflexões que o filósofo francês lança sobre o hiperconsumo são ainda hoje observáveis à nossa volta, caso do presente se sobrepor às expetativas do futuro histórico, ao peso do hedonismo e de vivermos numa economia centrada na procura em que predominam dois atores por excelência: o acionista ou quem o representa, por um lado, e o consumidor, do outro.

Toda a lógica da sociedade de consumo entrou em colapso com a disponibilidade infindável de bens e serviços que os saltos tecnológicos continuam a permitir: já se enterrou a economia fordiana, o consumo de massas, o marketing tradicional (que valorizava os argumentos racionais e a dimensão funcional dos produtos, hoje o marketing aposta na atratividade sensível e emocional). Dera-se uma mutação, as tradições, a religião ou a política passaram a ser menos suscetíveis de produzir uma identidade central, o consumo encarregou-se cada vez mais de criar uma nova função identitária. Daí a importância crescente dos objetos de consumo-comunicação (a Internet, o telemóvel, o computador,…) que desbravaram novos espaços de independência e deram novo rumo à lógica do presente. Os símbolos, a medicalização do consumo, a cultura hedonista, a segmentação dos mercados, as grandes superfícies especializadas, a torrente das novidades, a economia da rapidez, a miragem do discount, do outlet, do low cost, dos permanentes descontos até 70%, por exemplo, geraram uma nova relação entre imagem, preço e qualidade. Entrou-se igualmente numa idade de acesso rápido e por vezes instantâneo, copia-se o filme, o episódio da série, a emissão de um concerto. Mudara a comunicação, com o Facebook, o Twitter e o Instagram à cabeça do tempo real. Numa aparente contradição, os estilos de vida das classes perdem cada vez mais a sua especificidade: os ideais de bem-estar, o viajar, a ingurgitação das novidades, os sonhos de elegância são partilhados por todos.

As atividades do consumo parece que ganharam um caráter de profissionalização, o que veio alterar os estudos do mercado, a concorrência viu-se forçada a desvelar mais informação, suscitou novas formações de perícia, mudou lógicas de importância. Um exemplo: os estudos da segurança dos automóveis feitos pelas associações de consumidores mantêm-se credíveis mas o consumidor quer sempre conhecer outros critérios de fiabilidade e consulta avidamente os estudos das seguradoras. Aliás, a empresa de automóveis mal descobre um defeito no veículo faz soar todas as trompetas para a sua recolha, são iniciativas que geram a confiança do consumidor.

O mundo do consumo revolucionou-se com a globalização, embora se fale muito em ética, consumo responsável, comércio justo, preocupação ambiental, o consumidor está ávido pelo “bom, bonito e barato”, a ecologia radical e política é hoje uma reminiscência. Se o consumo é turbulento, flutuante, infiel é porque a sociedade também o é: o leitor é flutuante, descrente nas instituições e parece resignado com as progressivas desigualdades sociais.

Esta sociedade de hiperconsumo interfere com a vida profissional e a vida afetiva, como é óbvio. Perdeu-se a estabilidade em muitos domínios, o mercado de trabalho está desregulado, assistimos à precarização dos empregos, cresce o sentimento de insegurança quanto ao poder de compra. Em 2006, ainda ninguém adivinhava o tufão que viria dos EUA, devastando economias e engendrando políticas de austeridade, desemprego e proliferação de empregos da treta, falava-se já em pobreza e delinquência, exclusão e discriminação, individualismo, entretenimentos sem fim, mas também do narcisismo, obsessão pela performance. O sensorial, nesse tempo como hoje, é uma prevalência, é um consumo plurifacetado, da saúde à viagem, da requalificação do espaço urbano à criação do conceito de cidade turística, pode-se viver com indiferença pelos outros ou praticando ajuda humanitária. E pretendia-se e pretende-se conquistar a felicidade através da técnica e da profusão dos bens materiais. Esta felicidade, esta estetização do consumo, parecia estar a agradar a todos, embora líderes de opinião alertassem para correções urgentes. E, repentinamente, este mundo sorridente do hiperconsumo estremeceu. Vale agora a pena ver o que se passava em Portugal, na transição do século.

(Continua)

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