O mundo vai melhor do que muitos pensam

 

Beja Santos: Resultado de uma laboriosa investigação, que prossegue, “Factfulness” é um dos livros mais surpreendentes, desmonta, por vezes por processos surpreendentes, pessimismos que guardamos sobre o nosso futuro porque nos traz uma outra compreensão do mundo. “Factfulness” por Hans Rosling, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2019, derruba preconceitos e abre clareiras de esperança. Afinal, é bastante elevado o número de raparigas que termina o ensino primário em todos os países de baixos rendimentos; afinal, a maioria da população mundial vive em países de médios rendimentos; afinal, nos últimos vinte anos a proporção da população mundial a viver em pobreza extrema diminuiu quase metade. Cresceu a esperança de vida no mundo, cresceu a escolaridade, o acesso à eletricidade, às vacinas, desceu o risco crítico das chamadas espécies em vias de extinção.

Lemos e parece que levamos um murro no estômago, o que os números revelam é literalmente o oposto que nos noticiam. E o autor diz que contatou políticos, investigadores, cientistas, milionários, empresários de renome, de um modo geral são pessoas de visão desfocada, desconhecedores dos dados primários respeitantes ao mundo envolvente. E ele escreve: “A vasta maioria da população mundial vive algures a meio da escala do rendimento. Talvez não seja aquilo que entendemos como classe média, mas não vive em pobreza extrema. As suas filhas vão à escola, as crianças são vacinadas, constituem famílias com dois filhos e querem ir ao estrangeiro de férias e não como refugiados. Passo a passo, ano a ano, o mundo está a melhorar. Embora o mundo enfrente inúmeros desafios, fizemos tremendos progressos. Esta é a visão do mundo baseada em factos. É a visão do mundo excessivamente dramática que atrai as pessoas para as respostas mais dramáticas às minhas questões factuais. As pessoas, de forma constante e intuitiva, baseiam-se na sua visão do mundo quando pensam, adivinham ou aprendem acerca do mundo. Mas esta visão do mundo excessivamente dramática não é provocada simplesmente por um conhecimento desatualizado. Mesmo as pessoas com acesso à informação mais recente veem o mundo de forma errada”. O autor confessa o seu objetivo com este seu trabalho: mudar a forma das pessoas pensarem; a isso chama a factualidade. O autor enuncia quatro níveis de rendimento: no nível 1, vive-se com um dólar por dia, os filhos levam horas a ir descalços com um único balde de plástico buscar água, não há dinheiro para os antibióticos, cerca de mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia; no nível 2, vive-se com três dólares por dia, muda o regime alimentar, a vida é muito melhor mas ainda muito incerta, uma só doença e terá de vender a maior parte dos seus bens, cerca de três mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia; no nível 3, o rendimento é de, pelo menos, dezasseis dólares por dia, água canalizada, uma linha elétrica estável, um frigorífico, talvez uma motorizada, dois dos seus filhos começam o ensino secundário, cerca de dois mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia; no nível 4, há mais de trinta e dois dólares por dia, a escolaridade atinge os doze anos, pode jantar fora uma vez por mês e comprar um carro, cerca de mil milhões de pessoas vivem assim hoje em dia. A visão destes quatro níveis só é possível através de dados, quadros estatísticos, gráficos e saber usar a factualidade para perceber as mudanças: estão a diminuir a escravatura, os derrames de petróleo, as infeções do VIH, a mortalidade infantil, a pena de morte, a gasolina com chumbo, a varíola, a destruição do ozono, o trabalho infantil e a fome, por exemplo. E estão a aumentar o número de filmes por ano, o direito das mulheres ao voto, o número de artigos académicos por ano, a percentagem da humanidade a viver em democracia, a percentagem de pessoas com telemóvel ou internet ou com água de uma fonte protegida ou de raparigas em idade de escola primária matriculadas.

Pela factualidade podemos contrariar o nosso instinto de negatividade (instinto para repararmos mais no mau do que no bom). Como escreve o autor, “Factualidade é reconhecer quando as coisas assustadoras captam a nossa atenção e lembrarmo-nos de que estas não são necessariamente as mais perigosas. Os nossos medos naturais da violência, do encarceramento e da contaminação levam-nos a sobreavaliar sistematicamente estes riscos. Para dominar o instinto do medo, temos de calcular os riscos”. Quando manipulamos corretamente os dados, encontramos explicações e chegam as surpresas, para isso é preciso procurar diferenças e semelhanças dentro dos grupos, procurar diferenças entre grupos e aprender a deixar de formar a nossa visão do mundo apenas pelo que nos chega dos meios de comunicação.

Este espantoso e esclarecedor livro de Hans Rosling revela-nos que os EUA possuem os mais doentes dos ricos, que os imigrantes trazem riqueza aos países de acolhimento, que as chamadas pandemias globais são cada vez mais detetáveis, graças a instrumentos de deteção e anulação. E dá conselhos: “Digo que nos preocupemos com as coisas certas. Não digo que desviemos o olhar das notícias nem que se ignorem as chamadas dos ativistas à ação. Digo que ignoremos o ruído mas que prestemos atenção aos grandes riscos globais. Não digo que não tenhamos medo. Falo em manter a cabeça fria e apoiar as colaborações globais de que precisamos para reduzir estes riscos. Controlemos o nosso instinto de urgência. Controlemos todos os nossos instintos dramáticos. Fiquemos menos stressados com problemas imaginários de um mundo excessivamente dramático e mais alertados para os problemas reais e para a forma de os resolver”.

Como não recomendar esta obra que desvela os fundamentos do nosso instinto de negatividade e que desperta tanto interesse para a factualidade onde aprendemos o que se está a passar com o milagre silencioso do progresso humano?

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