O Nosso Agente em Havana: uma obra-prima de Graham Greene

Beja Santos: A mente e a condição de espião, a vida dúplice, as fantasias e as mentiras, a montagem das tramas, os códigos para passar ou receber mensagens, e o medo de ser descoberto e aquele inusitado estado de alma que leva o ser humano a trair e a passar-se devotamente para outra causa, é um permanente aliciante para a literatura. Nesta vasta galeria de obras de aventura e ação há um comprimento de onda, uma dimensão trágico-cómica que autores de gabarito como Graham Greene ou John Le Carré sentem um poderoso rasto de atração quando ficcionam um ser humano, megalómano ou necessitado de dinheiro que inventa, pelo mecanismo da falsidade ou da intrujice, factos políticos que podem abanar a paz e a segurança entre os povos. É questão central que Graham Greene explora neste livro que teve a sua primeira edição em 1958 e que continua a ser um justificado sucesso literário: O Nosso Agente em Havana, por Graham Greene, Publicações D. Quixote, 2017. O romancista inglês nem suspeitava como aquela trama era coincidente com a subversão que Fidel Castro dirigia e que iria triunfar um pouco depois da 1ª edição do romance. Estamos em plena Guerra Fria, vários espiões estão ativos em Havana, Graham Greene gere a atmosfera em que Jim Wormold, um inglês vendedor de eletrodomésticos, sempre preocupado com a educação da filha, com hábitos regrados na frequência dos seus círculos sociais é o retrato de um desespero, de um homem de fracos rendimentos que teme o pior dos negócios. O envolvimento da tragédia tem condimentos muito próprios de Graham Greene: ruas escuras, delatores, um consumo excessivo de álcool, serviços de espionagem ineptos, aquele bizarro convite a Jim Wormold para entrar na engrenagem, a excelente oportunidade que ele encontra para inflacionar despesas e fabricar relatórios com ordenados para funcionários inexistentes. E há Segura, o agente torcionário de Fulgencio Batista, que distingue as classes torturáveis das não-torturáveis, e explica a sua tese em consonância com os costumes locais: “Meu caro Mister Wormold, com certeza compreende que há pessoas que esperam ser torturadas e pessoas a quem tal ideia enche de indignação. Nunca se tortura ninguém a não ser por uma espécie de consentimento mútuo (…) Os católicos são mais torturáveis que os protestantes”.

Romance de traição e de assassínio, com uma comédia de enganos, uma Havana de clubes noturnos extravagantes, choque cultural, um marido abandonado e com poucos rendimentos para dar educação a uma filha adolescente, convivial e aberto ao mundo, um médico alemão cheio de problemas ontológicos mas sempre entusiasmado pelo álcool, os encontros nos bares, a miséria e a vida degradada dos cubanos, e como cereja no bolo aquele convite bizarro dos Serviços Secretos britânicos, tão hilariante e operático que seguramente as autoridades britânicas não gostaram nada da brincadeira, ainda mais num livro que estava fadado para correr o mundo – chega-se ao cúmulo deste espião feito a martelo enviar informações ditas secretas de mecanismos que eram, nem mais nem menos, que copiados dos maquinismos dos aspiradores, o que deixava as autoridades científicas britânicas em estado de perplexidade. Aquele agente britânico em Havana mostrou-se imaginativo a forjar códigos e colaboradores, entretanto a polícia política cubana vai registando tudo com incredibilidade, não dá para entender como aquele falsário imaginou rampas de lançamento numa qualquer zona montanhosa cubana. Irá prevalecer a comédia sobre o drama, aquele agente desacreditado acaba por ser uma peça útil na engrenagem. A mentira daqueles relatórios tinha uma dimensão de tal modo infantil que os Serviços Secretos iriam abafar, inventou-se um pretexto para considerar a rede desmantelada, e nessa altura alguém desabafa:

“Disse-lhes que estava a trabalhar por algo importante e não pela ideia que os outros tinham de uma guerra global que talvez nunca viesse a acontecer. Aquele idiota vestido de coronel murmurou qualquer coisa a respeito da pátria. Perguntei-lhe: Que pátria? Uma bandeira que alguém inventou há duzentos anos? O conselho dos bispos a debater o divórcio ou os membros da Câmara dos Comuns a gritarem uns com os outros? Ou refere-se ao congresso dos sindicatos, aos caminhos-de-ferro britânicos ou à Co-op? Talvez identifique a pátria com o seu regimento, mas nós não temos um regimento, nem ele, nem eu. Tentaram interromper, mas eu prossegui: Oh, tinha-me esquecido: há coisas que transcendem a própria pátria, não há? Foi o que nos ensinaram com a vossa Liga das Nações e o vosso Pacto do Atlântico, com a NATO, a ONU e a SEATO. Mas, para a maioria das pessoas, isso são apenas siglas sem conteúdo, como outras, EUA e URSS. E já não acreditamos em vocês quando dizem que desejam paz, justiça e liberdade. Que espécie de liberdade? Querem é garantir as vossas carreiras”.

Tudo está bem quando tudo termina bem, Jim Wormold redescobre um amor, a tragicomédia de Havana fica na escuridão, o futuro parece-lhe um dia ensolarado.

Um Graham Greene de leitura obrigatória.

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