O padre de Savimbi

Beja Santos

O Padre de Savimbi”, por António Oliveira, Alêtheia Editores, 2017, é o relato de um missionário claretiano que parte para Angola no Outono de 1970 e vai para a Missão Claretiana de S. Pedro e S. Paulo, zona ocidental do Moxico, diocese do luso, longa faixa de terra apertada entre os rios Munhango e Lunguebungo, e cortada ao meio pela linha de caminho-de-ferro de Benguela, vivem aqui dezenas de milhar de quiocos, umbundos, luenas e luchazes. A guerra de guerrilha está muito próxima, a UNITA instalara na região o seu quartel-general, havia esporadicamente incursões do MPLA pelo Sul e Leste e da FNLA pelo Norte. Vai carregado de ideais, preparou-se cuidadosamente para a missão, estudou etnologia e antropologia cultural. Não faz a menor ideia do que o destino lhe reserva.

Para um melhor envolvimento do leitor, discreteia sobre o que é ser missionário, fala sobre os Claretianos, é um capelão que faz juramento de bandeira e começa a viajar pelo interior, Chicala e Cachipoque, começa a descobrir a estrutura social africana, aprende a caçar, oferece-se de alma e coração à evangelização, a guerra está permanente: “A minha área de atuação estava corada por uma linha vermelha que demarcava os territórios em disputa pela UNITA e pelo Exército Português. No meio, havia uma terra de ninguém onde se tinham instalado algumas populações nativas, que eu sentia também como ovelhas do meu rebanho. Se assim não fosse, seria visto pela população, sobretudo pelas pessoas que integravam a guerrilha, como capelão militar ou funcionário colonial”. Delibera contactar a UNITA, descreve as operações “Madeira” e “Castor”, uma iniciativa estratégica de contrassubversão em que o Exército Português procurava controlar a UNITA e fazer definhar o MPLA e FNLA. A operação “Madeira” entrou em vigor em Março de 1973, o acordo foi mantido secreto pois o seu conhecimento, por parte do MPLA, levaria ao descrédito da UNITA. Segundo os acordos, a UNITA ficaria confinada a uma área reduzida e só aí o Exército prometia não intervir. Savimbi perdera espaço e amigos. Kenneth Kaunda tinha-o obrigado a abandonar as bases da Zâmbia, como retaliação pelos ataques feitos ao caminho-de-ferro, a jugular das exportações zambianas. É neste contexto de fragilidade que o padre António Oliveira é chamado ao diálogo com a UNITA. Entretanto, o substituo do general Bethencourt Rodrigues, Abel Hipólito, discordante dos acordos assinados com a UNITA, reforça as unidades militares na zona de conflito e prepara-as para o assalto final, era a operação “Castor”. Savimbi quase foi capturado, mas reagiu ferozmente, o maior êxito na UNITA aconteceu em 26 de Abril de 1974 quando atacou uma coluna militar que seguia de Cangumbe, tendo infligido 19 mortos, o maior desaire das forças portuguesas em Angola durante a guerra colonial. O padre Oliveira movimenta-se entre os dois contentores, começa a corresponder-se com Savimbi, prepara o encontro da UNITA e as forças portuguesas para o cessar-fogo, será o medianeiro para o encontro de 14 de Junho de 1974.

Mas a guerra civil espreita, Savimbi instala-se no Luso e cedo passa a duvidar da imparcialidade das autoridades portuguesas. Chega-se ao Acordo do Alvor, depois de outras iniciativas como o acordo bilateral entre a UNITA e a FNLA e o outro rubricado por Agostinho Neto e Savimbi. Antes do Alvor, em Mombaça, o presidente do Quénia convocou os três líderes para uma cimeira, mas os campos estão perfeitamente definidos e os antagonistas preparam-se para a guerra.

O padre Oliveira viverá em direto a tomada do Luso do MPLA, embarca no último comboio e regressa a Portugal. Descreve a resistência da UNITA e a ascensão totalitária de Savimbi que na paranoia da perseguição se vai desfazendo dos colaboradores mais íntimos, decretando prisões arbitrárias e pondo amigos fiéis em fuga. Tudo parece ir mudar com o fim da Guerra Fria, haverá eleições em 1992, Savimbi recusa os resultados, é a última viagem, 10 anos de crimes até se chegar ao isolamento daquele que era apresentado pelos seus admiradores como uma “chave para África”. Morto Savimbi em combate, chega-se ao Acordo de Luena em 4 de Abril de 2002, findara a guerra civil. O padre Oliveira disseca a figura de Savimbi como um anti-herói, impressiona-se o seu rigor se bem que nos desconcerte com os seus sentimentos contraditórios, como dizer que “Savimbi, apesar de tudo, merece uma memória respeitosa, porque, no fundo de si próprio, sonhava com uma nova Angola, poderosa e respeitada no concerto das nações. Deu a vida por este ideal, embora com desvios dignos de censura. Contudo, há nele, também, o mérito de ter lutado pela independência do seu país”. Não se entende lá muito bem esta exultação de alguém, como o próprio testemunho do padre Oliveira abona, se comportou literalmente como um monstruoso déspota.

Tocante é a dedicatória da obra a José Sehelo, que fora jovem catequista-chefe da Chicala e Cangumbe, seu fiel colaborador e amigo nos anos de 1970-1975, que na sua personalidade conjugava a autenticidade africana com o genuíno espírito cristão.

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