O romance “Pão de Açúcar”, por Afonso Reis Cabral

Um excesso do quotidiano, o horripilante banal à nossa porta:

Beja Santos: “Pão de Açúcar”, Publicações Dom Quixote, 2018, vem confirmar que Afonso Reis Cabral é a grande promessa da sua geração, os seus romances capturam dados singulares (uma massa crítica insignificante, despercebida) da nossa contemporaneidade, tudo numa abordagem precisa, quase cirúrgica e interrogamo-nos como é possível uma arquitetura literária tão madura quando se tem 28 anos. Dessa contemporaneidade, parece que o jovem autor lista de entre a banalidade do sofrimento aquilo que choca entre inconfessáveis vítimas e carrascos; e a história escolhida, que veio em todos os jornais, funcionou como uma joia de tabloide: em fevereiro de 2006, do poço de um prédio abandonado, em plena cidade do Porto, foi resgatado um corpo com marcas de agressões e nu da cintura para baixo; apurou-se que o supliciado estava profundamente doente, fora espancado ao longo de vários dias por um grupo de adolescentes. E assim se vai filigranar uma figura central, quem conta fica de fora, limita-se a dar vida, a organizar a teia que vai levar ao labirinto de um horror inexplicável, é Rafa que põe em andamento a teia do inexplicável:

“Rafael Tiago, um tipo pouco mais novo do que eu, muda pneus, arranja motores e malha chassis. O óleo dos travões, engrenagens e sistemas hidráulicos embebeu-se-lhe na pele como uma tatuagem, espécie de mehndi na mão esquerda. Ele deve ter vergonha porque passa a vida a coçar-se para ver se aquilo sai. Está farto de afinar sistemas de injeção e de seguir as ordens do superior, aperta aqui, enlaça ali, e quer mudar para marcenaria porque diz que Jesus era carpinteiro e ele admira muito Jesus. Fico com a ideia de que acha Cristo um outro Churchill.

Aparenta muito mais de vinte e tal anos. A puberdade atingiu-o em cheia à nascença e daí para cá deteriorou-se. Resta saber até que ponto isto é físico. Conheço alguém que aos doze fumava às escondidas para aliviar os nervos e queria arranjar uma caseirinha que um dia lhe lavasse a roupa – não é de espantar que já tivesse cara de velho. O Rafael também leva um velho encaixado à força num corpo de jovem”.

Se um bom romance é uma história bem contada, entramos rapidamente num carrossel em que o autor finge que deixa a narrativa entregue a Rafa, aqueles miúdos que dão pelo nome de Nélson ou de Samuel vagueiam por zonas sujas, quando saíam da Oficina de São José, Rafa é seu companheiro, mas é mais velho, vão surgir muitos mais nomes, joga-se à bola, fuma-se, os miúdos entram no café do costume, e assim surge o Pão de Açúcar, a descoberta definitiva, um esqueleto monumental de cimento que depois de muitas peripécias verá a sua construção interrompida, tinha ocupantes ocasionais, vagabundos em trânsito. E aparece uma bicicleta que eu não via na literatura portuguesa desde o “Comandante Hussi”, de Jorge Araújo, uma história dita infantojuvenil, Hussi é um mocito que apanha em cheio a guerra civil da Guiné-Bissau de 1998-1999 e que tem uma bicicleta que é o seu imenso tesouro que ele insiste em resguardar de todo aquele conflito altamente destruidor. A bicicleta de Rafa é a mesma lástima, é aquele objeto amado que se vai torneando a partir do caos até se tornar num diamante para os nossos olhos: “Tinha o guiador partido, a roda dianteira furada, a traseira com os raios tortos, o selim com o couro ressequido e o quadro cheio de ferrugem”. É guardada num esconderijo, o Pão de Açúcar vai ganhar vida, os jovens da Oficina São José vão entrar todos em cena, rapazes e raparigas, falam calão, falam ordinário, irrompeu a sensualidade dos púberes, andam a descobrir a cidade, no Pão de Açúcar está guardada a bicicleta, naquela estrutura com gravilha, entulho, lixo, e chega o momento de ela aparecer, saída de uma tenda, uma figura de farrapos, nasce uma aproximação. Rafa só conta o seu segredo a um grupo de eleitos, Gisberta vai ser dada a conhecer a sua história, habilmente intercalada na trama onde se desenrola a vida daqueles jovens da Oficina de São José.

Mas há um chefão que quer apurar o que os miúdos andam a fazer, chegarão ao Pão de Açúcar, aquele ser fraco, inusual, transformar-se-á num bombo de festa, aguentará até à morte a escalada de atrocidades, em prática de grupo. Rafa, desde o início, procura alimentar e amenizar a vida de Gisberta, já se substituiu ao autor, cabem-lhe descrições maiores, as mais cenográficas, assim:

“De noite, o Pão de Açúcar era uma chaga maior, mais metida na cidade. Estiquei os braços e avancei com os olhos muito abertos e arrastando os pés. Avancei contornando o poço e sentei-me à porta sem a chamar. Aquilo era viver, eu sabia. Aquilo tornava a vida melhor. No entanto, esperei enquanto a angústia me dividia entre acordá-la, pedir-lhe desculpa por a ter insultado, e fugir para nunca mais voltar. Tudo afunilava naquele momento, o bom e o mau, dois cães que em mim se abocanhavam”.

Alguém encarna o sofrimento e a tragédia, Samuel, nesta fase já se entrou numa respiração de tragédia grega, deslizamos na peça literária sem ignorar que tudo vai acabar mal. E a personificação do mal dá pelo nome de Fábio, o grande incitador da imolação de Gisberta.

Consumado o homicídio, evola-se a ternura, logo a bicicleta recauchutada, Rafa sobe a rampa, afasta-se do Pão de Açúcar. “Nesse dia, decidi apontar as coisas bonitas que a vida me daria a conhecer, o vento a agitar os espanta-espíritos, as crianças exigindo atenção, as discussões de namorados que se separam ou se beijam, os pneus a rolarem na estrada durante as corridas de alta velocidade, os donos dos cãos que apanham a merda quente, e até o ruído dos motores arranjados por mim (…) sentei-me num banco sob as magnólias em flor. O vento atirava as pétalas ao chão. À minha volta, pessoas abrigavam-se nos guarda-chuvas. Assim em repouso, bateu-me uma falta de ar que era tanto tristeza como excesso de amizade e muita falta de carinho. Primeiro saíram soluços da minha voz de 12 anos e depois um choro fraco mas contínuo. Estava nisto havia uns minutos quando senti uns dedos finos passarem-me primeiro pelo ombro, depois pela testa e pelo cabelo, em afagos tão delicados como decididos. Mais calmo, destapei a cara. Para minha surpresa, não encontrei ninguém”.

O mais surpreendente acontecimento literário no português que falamos, em 2018.

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