Oppenheim, um narrador de crimes em ambientes elegantes

Beja Santos: O britânico Edward Phillips Oppenheim é um dos fundadores do subgénero literário de crime e mistério, legou-nos mais de 150 livros povoados por personagens sofisticadas, espiões manhosos e aristocratas à moda antiga. “Um Crime em Glenlitten”, Porto Editora, 2018, não escapa à regra desta arquitetura onde se entremeiam o crime e o castigo, o deslindar o problema da simultaneidade de presenças no ato do assassínio, o labirinto de tramas, e tudo isto numa escrita delicada, onde paira a atmosfera do pós I Guerra Mundial.

Fala-se numa vetusta casa solarenga que pertence a Andrew Glenlitten, 6.º marquês deste nome, tudo começa numa festa, estão presentes um famoso criminalista, um governante colonial, militares que trazem um príncipe russo, e surge a castelã, parece saída dos contos de encantar, Félice era pequena e delicada, e os seus cabelos loiros tinham um brilho deslumbrante. “Os olhos castanhos, profundos, pareciam maiores sob o arco das sobrancelhas escuras. Trazia os lábios entreabertos, e os dedos da mão direito apoiavam-se sobre a suave balaustrada. Mais parecia uma menina assustada, um tanto nervosa, no seu vestido de magnífica alvura”. A marquesa é apresentada à sociedade. Em dado momento da festa, a castelã retira-se, pretexta dores de cabeça. No seu quarto irão desenrolar-se em sequência tumultuosa um roubo e um assassinato, é morto a tiro um milionário francês, e desaparece o colar de diamantes de Lady Félice, começam os interrogatórios, o autor encarrega o perito criminalista presente, Sir Richard Cotton, amigo do marquês, de conduzir a primeira fase do inquérito, ele vai encontrar várias disparidades, prontamente se apercebe que a marquesa esconde algo. Crime e roubo só podem ser testemunhados pela marquesa. Inicialmente, a tese é de que assassino e ladrão são uma só pessoa.

Oppenheim dá provas insofismáveis de um controlo absoluto na organização da trama, o criminalista aparece como a consciência de que algo precisa de ser dito para que se clarifiquem os acontecimentos que ocorreram no quarto da marquesa. Aos poucos, a vida normaliza-se no Solar dos Glenlitten, reaparecem todos aqueles que estiveram na festa, não há literatura de crime e mistério sem que o leitor penda para qualquer uma das hipóteses destes personagens quererem matar ou roubar, o puzzle do juízo é a alma do negócio.

Só que é capturado o ladrão das joias, negará sistematicamente ter praticado qualquer homicídio. Ganha espessura a história daquele príncipe russo que dá aulas de dança para se sustentar, adiante se verificará que é irmão da marquesa, esta, em discretas digressões a uma casa lúgubre de Londres vai deixando uns cobres para a sua putativa família. E entra em ação a mulher do ladrão, reclama justiça, o criminalista garante-lhe que irá defender o ladrão das joias. Andrew Glenlitten é a elegância consumada em toda a história, amante, sempre em cuidados com os nervos de Félice, sente perfeitamente que há uma sombra e uma perturbação depois daquele assassínio e roubo. Félice irá mesmo visitar a mulher do ladrão, oferece-lhe apoio. Nova personagem entra em campo, um investigador privado que é inicialmente procurado pelo marquês de Glenlitten, verificar-se-á, no desenrolar da história, que é um canalha sem escrúpulos, pagará com a vida quando pretender ganhar dinheiro na transação das joias roubadas.

Numa escrita laboriosa, com engenho e requinte estão constantemente a entrar e a sair de cena todos aqueles que participaram no jantar e baile que antecedeu a tragédia. Os acontecimentos aceleram-se, surge uma arma, presume-se que permitirá identificar o criminoso. A vida faustosa não para em Glenlitten, há caçadas ao faisão, enquanto esta decorre freneticamente reaparece o príncipe russo, clarificam-se identidades e num dado momento há-de aparecer um grão duque russo que traz uma versão completamente original sobre a educação da marquesa.

Chegou a hora do crime ter castigo, bem à russa, mas com a contumaz elegância que é o timbre da escrita de E. Phillips Oppenheim, naquele tempo os criminosos, tal como os endividados, sabiam tratar as questões de honra com armas na mão.

Os verdadeiros aficionados da literatura de crime e mistério têm tudo a ganhar com esta intriga laboriosa, é uma excelente oportunidade para conhecer esta figura fundamental da literatura britânica que teve o seu zénite na década de 1920.

Aproveita-se para lembrar a todos os aficionados que o número 15 desta coleção vampiro tem o título fundamental de E. Phillips Oppenheim, O Impostor, obra incontornável de toda esta literatura.

 

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