Os deslumbramentos pastorais da literatura de Jean Giono

Beja Santos

Sem contestação, um dos gigantes da literatura francesa da primeira metade do século XX. Teve dois momentos marcantes, o primeiro, centrado nas atmosferas campestres provençais, espaços onde homens rudes eram confrontados, entre a violência dos elementos, com a dureza das questões murais, num quadro de mentalidades rígidas; o segundo, centrado na sua pessoa, como se tivesse que resolver a gravosa questão de ter sido apodado de colaboracionista com os alemães. “O Homem que Falou”, por Jean Giono, Sistema Solar, 2017, faz parte do ciclo do seu primeiro ciclo de obras que lhe trouxe grande notoriedade. Como escreve o apresentador do livro, Aníbal Fernandes: “Colline e O Homem que Falou mostravam à literatura francesa um novo tom e camponeses dominados de uma forma nunca antes vista pelas forças subterrâneas da natureza, descritos com inesperadas metáforas onde o homem e o animal, e o vegetal, e o mineral se associavam e completavam fundidos numa unidade universalizante. Saíam-lhe da pena camponeses líricos e com uma desenvoltura de palavras que agredia os defensores da verdade naturalista, camponeses que a todo o momento fugiam para dentro de uma realidade ‘complementar’ só existente na sua Provença inventada”.

O que esta joia literária oferece ao leitor, curiosamente, é uma vitória do amor, natal brutalidade e rudeza uma rapariga rejeitada pelos pais, depois de “um passo em falso”, prossegue caminho com alguém que a ama ferverosamente. Literariamente, a trama oferecida é como se tivesse um narrador de uma fábula, trata-se de alguém que busca trabalho, que percorre quintas, veio de Baumugnes quem ele encontra, e que se orgulha de descrever a sua terra, assim: “Eu cá tenho em mim o Baumugnes inteiro, e é pesado porque está feito com terra grossa que chega ao céu, e árvores de grande porte; mas é bom, é bonito, é feito de céu limpíssimo, de bom e vigoroso feno e ar tão afiado como um sabre”. E mais adiante: “Baumugnes sou eu. Está tudo amontoado na minha pele: as coisas sólidas, a cor e o gosto das ervas, o canto das árvores, o ranger das casas de madeira ao vento gelado”. Prossegue-se a viagem à procura e trabalho. O narrador dirige-se a Douloire, separam-se, encontra na soleira um homem, “com pelagem negra na cara, e a adivinhar-se por baixo dela um grande queixo que avançava como uma relha de arado, e ainda dois olhos que luziam. Trazia o braço direito posto no lenço vermelho, e com a mão esquerda apertava pelo meio uma espingarda”. É rude com quem procura trabalho, chega a mulher e suaviza a conversa, chegam a um acordo, “negócio feito a trinta soldos ao dia, sopa e dormida”. Começam as fainas tem como colega alguém que é bem-humorado, sempre a casquinar, Saturnin. É o momento de apresentar a patroa, de nome Philomène: “Era uma mulher que sentíamos seca e plana debaixo da roupa. Se eu talhasse à faca num pedaço de pau uma cabeça de mulher, seria igual à sua. Pescoço como os das galinhas, e de igual forma nervoso. Mas havia a boca: uma boa boca que sabia a pão”. O narrador, de nome Amédée, ganha a confiança da patroa.

Uma chávena de rapariga deixada na mesa onde todos comem, deixa intrigado Amédée, e então surge Angéle, a filha dos patrões, a narrativa ganha lirismo, mas os esquissos pastorais não perdem o vigor, atine-se a uma tempestade:

“Levanto o olhar. Havia no céu cinco grandes nuvens todas lançadas a velocidade de comboio, e eram a guarda avançada. Também tinham qualquer coisa de rosto humano; mas o que havia atrás, o fim de tudo, era uma calda de tinta sem forma, sem nada, com sobressaltos de trovão e um grande riso de relâmpagos que antes de bramir mostrava em silêncio os seus dentes. Vejo um choupo da herdade começar a tremer mas direito, apesar do vento, depois a torcer-se como um parafuso e partir em flecha para o alto céu; as telhas do telheiro voarem como perdigotos. Caem granizos maiores do que ovos de galinha”. É uma descrição fenomenal, possui um recorte literário que tem a matriz do classicismo grego.

O narrador faz viagem, e depois regressa aquela quinta que tem sobre ele um certo poder magnético. Mas encontra-se com o homem de Baumugnes, de nome Albin, o que aparenta ser um quadro naturalista ganha outros contornos como se se pronunciasse na escrita de Jean Giono uma linha temática neorrealista mesclada de romantismo pois Albina aparece de noite, anunciasse por melodias, ele sabe que Angèle fora sequestrada pelos pais, nascera uma criança sem pai conhecido. Albin vai buscar Angèle à socapa mas decide retornar à herdade de Douloire, quer enfrentar os pais, ele é um homem de Baumugnes. E tomam o comboio, o casal feliz despede-se daquele avô da felicidade.

Aníbal Fernandes recorda a admiração que Luís Pacheco tinha por este livro, sentia-se siderado pela força da palavra e a sua conversão em estilo, pela alta voltagem dos aspetos intrigantes da narrativa e pela doçura do final. Ao tempo, André Maurois comentou: “Este belo no que é simples […] procurado em George Sand e encontrado em Homero”.

Lê-se com renovada admiração esta prosa excecional que nos fala de um mundo hoje completamente desaparecido, uma natureza e seres humanos que já não contam na nossa civilização. É consolador encontrar esta escrita de alguém que sucedeu a Colette na Academia Goncourt.

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