Os Ricos, por Maria Filomena Mónica

Beja Santos: O título é “Os Ricos, da revolução de 1820 até hoje”, por Maria Filomena Mónica, Esfera dos Livros, 2018. Pela extensão e complexidade, é empreendimento arriscado, trata-se de ciências sociais ou análise financeira ou visão política, seja qual for a moldura ideológica. A socióloga desenvencilha-se bem, tem o seu estilo muito próprio, um discurso cortante e disciplinado na economia, foge da enxúndia e marca sempre presença por uma acertada citação, no volteio dos acontecimentos. Logo no preâmbulo, recorda-nos que o liberalismo obriga a ter em conta os velhos aristocratas e as extrações de títulos por mercê de D. Pedro IV e sua descendência. Como não há uma definição científica do rico, nem a autora pretende fazer melodrama dos ricaços ou da origem das fortunas, o que neste livro vai ser desfiado são diferenças. E o leitor tem tudo a ganhar em seguir atento o preâmbulo histórico, abre com a Revolução Liberal e vamos até aos grandes patrões, negociantes e comerciantes. Recebe-se com estupefação a afirmação da autora: “Após reflexão, decidi não escrever sobre os banqueiros. Na realidade, estes formam, desde há muito, um grupo à parte”. Se não se pode entender a Idade Média sem referir ordens militares, exércitos, castelos, desfigura-se a análise do mundo contemporâneo sem falar dos banqueiros, o uso que fazem das suas fortunas e fundamentalmente como se aproximam, envolvem e comprometem, explícita ou subliminarmente, governantes e quadros partidários. Uma situação indesmentível, a corrupção de graça nas direitas e esquerdas europeias tem sempre um braço longo de um interesse bancário, a finança não dorme.

Confessada a limitação, que trunca a análise dos ricos em Portugal, entrou em cena o primeiro Duque de Palmela e temos a riqueza entre famílias, são parentelas que se constituem entre ricos, daí o acerto da autora em relevar-nos o primeiro e o segundo Conde de Vila Real e a apresentação dos terceiros Condes de Rio Maior revelam uma condessa enérgica, avessa ao anticlericalismo do marido, um senhor que primava por não fazer ondas. E a autora comenta esta escolha dos Condes de Rio Maior para mostrar que havia divergências dentro da mesma classe, o que exige uma outra leitura cuidadosa: “O membro do casal que culturalmente mais se aproximava da fidalguia portuguesa era ele e não ela. As poucas cartas que o conde escreveu aos filhos demonstram a sua inferioridade intelectual. Uma coisa é certa: a energia dela agastava-o. O facto de ser um ‘grande do reino’ – e de ser visto como tal – impedia que sentisse inveja do prestígio da mulher”.

A escolha que a autora faz dos milionários do liberalismo é elucidativa: Eugénio de Almeida, que usou com mestria o contrato do tabaco, que foi acumulando riqueza e praticou a filantropia, o seu património está na base da fundação que ostenta o seu nome. Dona Antónia Ferreira, a “Ferreirinha”, uma talentosa gestora, com interesses que excediam o Douro, ela que era a maior proprietária vinhateira. E dá gosto o que Filomena Mónica dela escreve: “Suspeito que não era uma mulher simpática, mas tinha traços louváveis. Num mundo povoado por homens, conseguiu destacar-se pela sua energia empresarial. Teríamos de esperar muito tempo antes de surgir uma empresária com o seu temperamento. É certo que herdara uma fortuna, mas, ao que lhe fora dado, muito acrescentou”.

A autora, sem qualquer ambiguidade, tem um fascínio pela personalidade de José do Canto, um gentleman farmer ousado que aspirava à modernização da agricultura açoriana. Dá-nos um quadro soberbo da sua relação com a mulher e o drama dos filhos. Rico e com uma personalidade ímpar, um só exemplo que retiro das observações da autora: “Composta por 17 mil obras, a sua biblioteca era uma das melhores, senão a melhor, do país. Sobre os Açores, tinha praticamente tudo. É evidente que, no estrangeiro, havia bibliotecas maiores – a de Gladstone tinha cerca de 30 mil volumes – mas não era isso que sucedia em Portugal. A biblioteca que Henri Burnay deixou apenas tinha 940 livros”. Ao que parece, este agricultor cuja paixão era a obra de Camões, ter-se-á realizado em novos cultivos agrícolas nas suas propriedades mas conheceu o amargor dos filhos completamente alheados ao trabalho de fazer riqueza.

Com idêntico prazer se lê sobre o conde de Burnay, mais tabacos e empréstimos, muito gosto em viver bem e em belas casas, temos hoje o Palácio Burnay mas o rico recheio que encerrava foi desbaratado. E assim chegamos aos capitães da indústria do século XX, Alfredo da Silva, Manuel de Melo e Jorge de Melo para a observação se centrar em três vultos e riquezas que marcaram o país depois do 25 de abril: António Champalimaud, Américo Amorim e Belmiro de Azevedo.

Filomena Mónica não esconde as suas reservas mentais: “Tem-se falado muito em liberalismo, mas, em Portugal, será difícil aparecer uma cultura económica liberal, como a que existe nos países anglo-saxónicos. Fracos, os empresários portugueses sempre foram, e provavelmente sempre o serão, a favor do intervencionismo. Com exceções, os ricos portugueses têm medo de aventuras”. Para concluir, com o bisturi que a sociologia faculta: “Há ricos e ricos. Pode o dinheiro acumulado nada ter de ilegal, o que não quer dizer que a forma como se montaram certos negócios seja moral. Basta pensar nas PPP, que levam a que encargos exorbitantes recaiam sobre contribuintes inocentes, para se perceber o fundamento do ressentimento popular contra os ricos. O clima salazarista, primeiro, a retórica revolucionária, depois, e agora os casos sob investigação, como a Operação Marquês à cabeça, contribuíram para dar ao dinheiro má fama”. E deixa uma meditação à opinião alheia após dizer que a sua “riqueza” é fruto do seu trabalho: “É melhor ser rica do que pobre, não só pela razão de não ter de passar fome, mas porque a condição me dá a possibilidade de fazer o que me apetece, de criticar os Governos e de afirmar o que me vem à cabeça. Aos ricos, tudo lhes é dado, incluindo a possibilidade de ser independente. É pena que a não aproveitem.”

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