Os testamentos traídos

Uma retumbante exultação da literatura e da música: Milan  Kundera no seu melhor

 Beja Santos : É um ensaio, em dados momentos parece um diário poliédrico, há trechos que nos espantam pelo virtuosismo romanesco e até novelístico, o leitor vai sendo sucessivamente submerso pelo enfeitiçamento desta escrita, e quando chega à última página apercebe-se do assombro desta viagem pela modernidade em que os nossos contemporâneos da escrita têm Rabelais como ancestral legítimo, uma viagem única sobre a arte do romance, oposições entre mestres e discípulos, o saber profundo desses nexos entre música e escrita na cultura dos povos, paira o leitor por vezes pelas salas de concerto e pelos teatros de ópera, portentosa é a viagem pois nesses palcos cruzam-se Stravinski e Kafka, Ansermet e Max Brod, Hemingway e o seu biógrafo, Janacek e a pátria Boémia, Rabelais e os seus herdeiros, os grão-mestres do romance moderno e muito mais. Pergunta-se amiúde o que é a obra de arte, quem a classifica e quem a trai. Em suma, um dos maiores presentes da literatura, data de 1993, parece ter sido escrito ontem: “Os Testamentos Traídos”, por Milan Kundera, um checo-francês que pertence a todos os continentes, Publicações Dom Quixote, 2018.

Há muitas perguntas com surpreendentes e diversas respostas. Do género: “O que é um indivíduo? Onde reside a sua identidade? Todos os romances procuram uma resposta para estas perguntas. Com efeito, por que se define um eu? Pelo que uma personagem faz, pelas suas ações? Mas a ação escapa ao seu autor, vira-se quase sempre contra ele. Então, será pela sua vida interior, pelos seus pensamentos, pelos seus sentimentos escondidos? Mas será um homem capaz de se compreender a si próprio?”. Há na viagem de Milan Kundera um sentimento de tertúlia, parece que a todos assiste o direito de ter uma palavra sobre o que é o improviso e a composição, o papel do humor, de que modo Kafka estilhaçou a formulação que se fazia do mundo real, o modo como resolveu esse enigma de ser rigoroso na análise do mundo e ao mesmo tempo irresponsavelmente livre nos devaneios lúdicos, foi graças a ele que se abriu a porta a génios como Fellini, Garcia Marquéz, Emir Kusturica, Salman Rushdie.

E quem fala da escrita como fenómeno literário pode refletir sobre a escrita dos sons, a prodigiosa música a que Igor Stravinski e Schonberg abriram as portas. Kundera recorda o que muitos ignoram: “A história da música europeia tem cerca de um milénio de idade. A história do romance europeu cerca de quatro séculos. Quando penso nestas duas histórias, não consigo livrar-me da impressão de que se desenrolaram a ritmos semelhantes. As cesuras, isto é, cortes, entre os meios tempos, na história da música e na do romance não são sincrónicas. Na história da música, a cesura estende-se por todo o século XVII; a cesura na história do romance acontece um pouco mais tarde: entre os séculos XVIII e XIX, a saber, entre, por um lado, Laclos, Sterne e, por outro lado, Scott, Balzac”. Indo por diante, o leitor compreenderá como A Sagração da Primavera de Stravinski, é um momento capital das ideias e da cultura do século XX.

Estas mesmas ideias e o aparato cultural em que estão metem ideologia, religião, até doutrinas raciais, escritores e músicos sentaram-se no banco dos réus. E escreve: “Há cerca de setenta anos que a Europa vive sobre um regime de processo. Entre os grandes artistas do século, quantos acusados… Vou falar apenas dos que representavam alguma coisa para mim. Houve, a partir dos anos 20, os encurralados do tribunal da moral revolucionária: Bunine, Andreiev, Meyerhold, Pilniak, Veprik (músico judeu russo, mártir esquecido da arte moderna; ousou, contra Estaline, defender a ópera condenada de Chostakovitch, foi metido num campo de concentração), Mandelstam. Depois, houve os encurralados do tribunal nazi: Broch, Schonberg, Brecht, Thomas e Heinrich Mann, Musil. Os impérios totalitários desapareceram com os seus processos sangrentos mas o espírito do processo permaneceu como herança, e é ele que acerta as contas”.

Vai pontuando a sua obra de ideias classificadoras, e deixa-nos maravilhados: “Há uma diferença de essência, entre, por um lado, o romance, e, por outro, as memórias, a biografia, a autobiografia. O valor de uma biografia consiste na novidade e na exatidão dos fatos reais revelados. O valor de um romance, na revelação das possibilidades até então escondidas da existência enquanto tal; por outras palavras, o romance descobre o que está escondido em cada um de nós. Um dos elogios correntes endereçados ao romance é dizer: descubro-me na personagem do livro; tenho a impressão de que o autor falou de mim e me conhece; ou em forma de agravo: sinto-me atacado, desnudado, humilhado por este romance. Não devemos troçar nunca dos juízos desta espécie, aparentemente ingénuos: são a prova de que o romance foi lido enquanto romance. É por isso que o romance cifrado (que fala de pessoas reais com intenção de as fazer reconhecer sob nomes fictícios) é um falso romance, coisa esteticamente equívoca, moralmente imprópria”.

Longa é a deambulação em torno da arte do romance, e daí tantas considerações sobre as artes plásticas, as tonalidades musicais e a essência da obra de arte. E daí a advertência de que o autor tem direitos primordiais, não delegáveis: “Os tempos modernos fizeram do homem, do indivíduo, o fundamento de tudo. Desta nova conceção do mundo resulta também a nova conceção da obra de arte. Esta torna-se a expressão original de um indivíduo único. Se uma obra de arte é a emanação do indivíduo e da sua unicidade, é lógico que esse ser único, o autor, possua todos os direitos sobre o que é a emanação exclusiva de si. Depois de um longo processo que dura há séculos, esses direitos assumem a sua forma juridicamente definitiva sobre a Revolução Francesa, a qual reconheceu a propriedade literária como ‘a mais sagrada, a mais pessoal de todas as propriedades’.”. Kundera é um defensor apaixonado dos direitos morais e daí falar nos testamentos traídos, ou seja, a traição levada a cabo pelos seus defensores mais apaixonados, acontece muitas vezes.

Um dos livros mais inspiradores de Kundera, originalíssimo, uma linda exultação da arte criativa e da plena liberdade que possuímos em amar ou repudiar toda esta potencialidade inspiradora.

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