Os vazios da representação política, alçapão para a democracia

Beja Santos

Sempre, desde a noite dos tempos, que aqueles que se designam por representantes políticos usaram, de um ou outro modo, a política da representação: a pompa e a cenografia de visitas reais ou imperiais, coroações, casamentos, cerimónias de vitórias militares, e o muito mais que se conhece. Os meios de comunicação de massas alteraram os formatos de representação política: primeiro, os jornais, ao reproduzir o discurso parlamentar, a entrevista do primeiro-ministro, as críticas da oposição, o enxame de artigos de opinião; a rádio aproximou mais o representante político do grande auditório, a transmissão do comício, a declaração de guerra, a comunicação ao país, e a concomitante enxurrada de comentários prós e contra. Mas foi o ecrã televisivo que transfigurou, muito mais que o cinema, a representação política na política da representação, as cerimónias, a espetacularidade da arte efémera, os grande comícios e finalmente os grandes debates… E não é por acaso que se apresenta como ponto de partida da cenografia política o debate entre Nixon e Kennedy, o primeiro visivelmente cansado e não maquilhado, o segundo exuberante e visualmente forte.

“Política e Entretenimento”, por Jose Santana Pereira, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016, é um ensaio ao meio da comunicação política que galgou o campo restrito da protagonização do discurso convencional no meio televisivo. De modo insidioso e completamente descontrolado para o recetor, o primeiro-ministro, o líder parlamentar, o ministro da moda, as forças da oposição e os seus avatares máximos emergem em programas de humor e séries de ficção, a entrevista clássica é gradualmente encarada como matéria cinzenta em que o político debita os contornos das suas propostas, encarregando o auditório de confiar na bondade das suas promessas. Mas tudo isso são águas passadas, a força política no poder ou na oposição apoia-se nos programas de infotainment (género televisivo que mistura elementos de programas de entretenimento e de informação) aceita as entrevistas humorísticas, os talk-shows, são recrutados construtores de imagem para esboçar as campanhas e reduzir as mensagens fundamentais a puros slogans espalhados pelos cartazes. Os canais televisivos contam com humoristas expeditos para fazerem sketches e rábulas tipo Contra Informação e Gato Fedorento.

O autor deste ensaio questiona a presença dos políticos em programas de sátira política e encontra-lhe quatro razões: para ter visibilidade, o político não tem medo de sorrir ou galhofar como os outros; a comunicação da sua experiência e a demostração de que não são elitistas, sabem comunicar os assuntos mais complexos ao eleitorado.

Temos depois o alto risco, escancarar a vida privada, mostrar como se vive, o que se tem nas paredes e nos móveis, a mulher e os filhos. É sintomático o deslumbramento dos pobres com o novo-riquismo dos dourados de Trump e a indignação quando Varoufakis, o polémico ministro das Finanças grego abriu a sua casa às revistas e às televisões, caiu o Carmo e a Trindade, o ministro parecia viver indiferente à desoladora crise grega. No mundo anglo-saxónico há representantes políticos que vêm do cinema como Reagan e Schwarzenegger outros participam em filmes.

O espetáculo político exige que se ande na boca do mundo, pelos dois extremos: a reserva de Álvaro Cunhal em falar da sua vida privada, a empresa do coração e os tabloides denunciaram as infelicidades do presidente François Hollande, a montagem cénica organizada das fotografias em família de reis, imperadores e presidentes. O espetáculo da política da representação é alimentado pelo pagamento dos favores jornalísticos que propositadamente mostram o ídolo com celebridades, a visitar lares de idosos, a almoçar com operários, a visitar feiras, um cortejo de opinativos são pagos para elogiar ou exprobar, é um das colunas vertebrais do jornal online Observador. Não se esqueça Marinho e Pinto que ganhou popularidade em programas da manhã da TVI e o imbatível Marcelo Rebelo de Sousa que fez 15 anos como presença regular nos telejornais. Os políticos italianos dão cartas com Berlusconi à frente, o milionário que é um homem do povo, que faz contratos políticos diante da televisão e que gosta de ser badalado com as escandaleiras em que se move, entre divórcios e meninas que frequentam as suas festas.

A gradual mudança do representante político que subia na vida, que escrevia livros, que se impunha pela aura da sua liderança, que era exímio tribuno parlamentar para a vedeta que veste Armani, que se move em festas e que é apresentado nas campanhas eleitorais como um bem de consumo, tem as suas consequências. Há que questionar se não caminhamos para um profundo vazio da democracia das audiências, como escreve o autor, “o público começa a olhar para a e a reagir à política como um fenómeno estético, artístico, cultural, perdendo-se os aspetos importantes da política. Após uma progressiva independência dos media em relação a instituições políticas como governos e partidos, estes terão começado a atuar de acordo com a sua lógica e com o propósito de atrair audiências. Um risco associado a este fenómeno +e o perigo da substituição gradual de programas informativos de qualidade por programas de entretenimento”.

Não podemos subestimar que está uma via aberta para a política mercantilizada, os media comprazem-se com o descrédito da política, com a denúncia de escândalos de corrupção. As revistas cor-de-rosa intervalam histórias de cançonetistas e apresentadores de televisão com reportagens a políticos, como se estivessem todos no mesmo nível de audiências, no mesmo exercício de funções. E matraqueia-se que hoje já não há esquerda nem direita, o que há é o bem comum, o desenvolvimento, o trabalho para jovens. Ao fazermos esta política de representação, não haja ilusões individualizamos e substituímos a identidade social ou coletiva pela identidade pessoal. É um dos paradoxos do nosso tempo: queremos exaltar as virtualidades do Estado social com seres humanos cada vez mais atomizados.

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