Por um farmacêutico que preste ainda mais cuidados e aconselhamento

Beja Santos

Vai para meio século que ocorreu uma profunda modificação na dispensa de medicamentos que obrigou a revolucionar a farmácia clínica. Perante a proliferação de fármacos destinados à multiplicidade de terapêuticas, e na sequência do número crescente de medicamentos não prescritos, de doentes crónicos, numa atmosfera em que é imperioso ganhos em saúde, racionalização das despesas no setor da Saúde, foi aumentando a importância das prestações de serviços na farmácia. Dir-se-á, em síntese que nas últimas décadas se abriu o leque dos serviços prestados à comunidade: recolha de radiografias antigas e de resíduos de embalagens, com ou sem medicamentos. Troca de seringas e administração de metadona e outras substâncias para o tratamento de toxicodependentes; campanhas de saúde pública (como, por exemplo, a prevenção das doenças cardiovasculares, controlo da asma, diabetes e abandono do tabagismo); determinações quanto a glicémia, pressão arterial, colesterol e triglicerídeos; distribuição de folhetos de informação com objetivo de complementar, aumentar e reforçar a informação prestada pelo farmacêutico; hoje em dia, as farmácias distribuem gratuitamente revistas de saúde e os farmacêuticos especializam-se em cuidados farmacêuticos como é o caso do controlo da diabetes, da hipertensão e da asma.

A nível europeu, vários governos pretendem potenciar este papel chave do farmacêutico dado que a farmácia é o centro de saúde mais acessível, e por isso pretendem introduzir o conceito de “farmacêutico de referência” que na prática significa estar próximo do doente, ajudando-o a ser mais autónomo e capacitado na gestão da sua doença. Há várias experiências em curso, um das que se tem revelado bem-sucedida tem a ver com os doentes crónicos a quem é ministrado um medicamento novo. Estes doentes crónicos escolhem livremente o farmacêutico de referência. Este vai ajudar o doente, no quadro de um acompanhamento personalizado, a verificar se o esquema de medicação é bem compreendido, se o doente está a utilizar bem o tratamento prescrito e sobretudo a fazer uma adesão terapêutica a um nível de grande compreensão.

Atenda-se que a maioria dos doentes crónicos é polimedicada, quer dizer, tomam diferentes medicamentos porque sofrem de várias doenças. Um doente crónico para ser bem-sucedido e ter uma vida com mais qualidade, tem que se sentir responsabilizado: ter vontade de contribuir ativamente para a promoção da sua saúde; ter um diálogo aberto com o médico, com o farmacêutico e até com o enfermeiro, nada escondendo sobre as suas crenças em saúde e discutir objetivos e medidas para cumprir com rigor esses objetivos, comprometendo-se a seguir as medidas acordados com o profissional. Neste protocolo com o farmacêutico de referência e o doente elaboram-se pequenos relatórios que são canalizados para o médico de família. Um doente crónico assim responsabilizado vai ajudar a poupar e a viver melhor. Por isso se aposta nesta prestação de cuidados na proximidade, na acessibilidade do farmacêutico e no papel complementar que este pode ter com outros atores de cuidados. Oxalá que este farmacêutico de referência venha a ganhar relevo no sistema de saúde e passe a ser tão próximo do doente como o médico de família e o centro de saúde. A qualidade de vida dos portugueses agradece.

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