Portugal e os Nazis

 

Beja Santos: “Portugal e os Nazis, histórias e segredos de uma aliança”, por Cláudia Ninhos, Esfera dos Livros, 2017, reproduz, em grande parte, a tese de doutoramento desta investigadora. Abalançou-se a um projeto áspero, na justa medida em que há uma vastíssima bibliografia ao longo de todas estas décadas, descobriu pontos importantes em arquivos diplomáticos e debruçou-se sobre uma realidade mal estudada em Portugal: a história da diplomacia cultural alemã da Alemanha Guilhermina até ao Estado Novo, inclusive.

Salazar tinha sérias reservas acerca do nazismo, e exprimiu-as publicamente, no que concernia ao totalitarismo, à manipulação das massas, ao sufoco religioso cristão e à doutrina racial que levou ao genocídio dos judeus. Mas no interior do seu regime, as opiniões dividiam-se, ele deu-se ao trabalho de as manobrar, impondo uma conduta que acabou por ser facilitada com a sua neutralidade colaborante.

A Alemanha Guilhermina aspirava a ter um peso predominante na comunidade científica internacional, na difusão dos valores alemães e na divulgação da língua. Era uma Alemanha imperial, havia o império africano, os negócios difundiam-se em vários continentes, crescia a rivalidade com o Reino Unido e a França. Cláudia Ninhos cuida de explicar a devastação destas iniciativas com a Grande Guerra e as suas sequelas. Hitler e o seu círculo próximo puseram o seu partido único a expulsar toda e qualquer concorrência ou crítica, a política cultural da República de Weimar foi tida em consideração, já que nesta República se multiplicavam as instituições e se incentivava o intercâmbio cultural e o apoio a estrangeiros. Os primeiros anos do III Reich foram coroados de múltiplas tensões entre os ministérios da cultura, da propaganda e dos negócios estrangeiros, mas com enormes sucessos, traduziram-se livros do alemão para os países que se pretendiam cativar, houve grande abertura dos institutos científicos alemães, procuraram-se acordos culturais. A autora faz a avaliação das relações entre Portugal e a Alemanha nestes domínios entre o final do século XIX até à queda da República de Weimar, traça o percurso do intercâmbio cultural, dos bolseiros portugueses na Alemanha, até da influência da pedagogia alemã no nosso sistema de ensino. E verifica-se que os nazis deram continuidade à política cultural seguida durante a República de Weimar.

Como é evidente, os nazis exigiam fidelidade ideológica e procuravam nexos com as instituições do Estado Novo. O Instituto Alemão de Coimbra foi alvo de redinamização, o Grémio Luso-Alemão, a organização alemã “Força pela Alegria” visitou várias vezes Portugal antes da guerra, procurava-se entendimento com a FNAT; de igual modo a Juventude Hitleriana pretendia ter uma forte cooperação com a Mocidade Portuguesa, Salazar mandou impor limites.

A guerra civil de Espanha aproximou os dois regimes por causa do anticomunismo, a política cultural alemã ganhou novo ímpeto em Portugal. O Reino Unido e a França sentiram que chegara a hora de reagir, cada uma a seu modo reagiu com cinema, ensino do inglês e do francês, conferencistas, envio de orquestras e de concertistas, traduções.

Mas os alemães apostavam forte nas exposições, Salazar exigia temperança. A autora recorda o relatório que o embaixador português em Berlim, Pedro Tovar de Lemos, enviou a Salazar sobre a Nova Ordem Europeia, a leitura do documento deixou Salazar reticente, não se sentia bem dentro da fatiota que os nazis propunham para a reorganização europeia. Enquanto tudo isto se passa, os beligerantes procuram conquistar em Portugal a opinião pública: salas de cinema, jornais e jornalistas, líderes de opinião, editoras, militares. E Cláudia Ninhos enumera o que de mais importante se registou na diplomacia cultural alemã em tempo de guerra. Uma exposição que deu brado na época foi a intitulada “Moderna arquitetura alemã”, realizou-se de colaboração com o Centro Luso-Alemão de Intercâmbio Cultural e dos Caminhos-de-Ferro Alemães em Lisboa, contou com o patrocínio do Sindicato Nacional dos Arquitetos e da Sociedade Nacional das Belas-Artes. O ministro Albert Speer, que Hitler tanto admirava, viajou até Lisboa. Carmona e Salazar visitaram a exposição.

Quando já era percetível a derrota alemã, a propaganda cultural no estrangeiro não abrandou, por exemplo em 1944 e 1945 registou-se uma torrente de atividades culturais, houve exposições, conferências, deslocaram-se a Portugal importantes académicos, autores alemães eram representados nos teatros, a Alemanha patrocinava o livro “Oito Séculos de História Luso-Alemã”.

Cláudia Ninhos desvela a figura do embaixador alemão que esteve em exercício dez anos (1934-1944), o barão Oswald von Hoyningen-Huene, figura cativante, um perfeito cavalheiro, esforçando-se para fazer da diplomacia uma imagem clara de que os alemães apreciavam Portugal, correspondeu-se e procurou muitas vezes Salazar. Huene terá caído em desgraça em Berlim quando Salazar fez a cedência dos Açores aos Aliados e cortou drasticamente as exportações de volfrâmio. A investigação mostra uma tensão contínua entre a diplomacia de Huene e os representantes nazis em Lisboa. Depois da guerra, Huene foi detido e prestou declarações sobre os seus dez anos de diplomacia em Lisboa, é extremamente interessante ouvi-lo.

Em suma, o regime de Hitler procurou e foi bem-sucedido fazer diplomacia cultural e impressionar os portugueses com os seus resultados na economia, no trabalho, na cultura e na investigação científica. A diplomacia alemã instrumentalizou o prestígio que a ciência e a cultura alemãs há muito gozavam entre os meios intelectuais e académicos nacionais. O ensino do alemão foi altamente estimulado, tal como a componente científica foi acelerada no relacionamento luso-alemão. Salazar foi expedito em manobras dilatórias para fazer aprovar um acordo cultural, os nazis fracassaram, como observa a autora: “A ideia fixa de Salazar é manter o alinhamento com a Grã-Bretanha e a neutralidade durante a guerra, a derrota da Alemanha e a sua divisão e enfraquecimento no pós-guerra, a emergência da Guerra Fria e dos EUA como potência mundial, e do inglês como língua dominante, impossibilitaram a concretização daquele plano. Mesmo assim, o fracasso não foi total, já que conseguiu atrair para a sua esfera de influência importantes cientistas e académicos portugueses, que tiveram um papel pioneiro nas suas áreas de atividade, bem como de importantes figuras políticas do regime salazarista.”

 

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