Portugueses e Espanhóis na Oceânia, por René Pélissier

 

Beja Santos: Em finais do século XIX, países como a Rússia, Alemanha, os EUA, Japão e China lançam-se na conquista de territórios de populações decretadas como atrasadas, colonizáveis segundo a lógica decretada na Conferência de Berlim. O trabalho de René Pélissier, neste estudo, cinge-se ao exame e comparação, durante um curto período (1887-1899) das atitudes e atividades militares de duas colonizações ibéricas, face às resistências armadas e rebeliões de sociedades/autoridades indígenas que pretenderam subjugar em duas ilhas da Oceânia: Timor para os portugueses, Ponape para os espanhóis. Dois impérios em queda, incapazes de qualquer competitividade com os emergentes, vão mostrar duas formas distintas para resolver uma cadeia de insurreições: “Portugueses e Espanhóis na Oceânia”, por René Pélissier, Tribuna da História, 2018.

São duas parcelas longínquas, as desses velhos impérios com finanças calamitosas, diplomacias secundárias, economias irrelevantes, a Espanha à beira de um conflito mortal com os Estados Unidos que levará ao seu afastamento do Pacífico e depois de Cuba; Portugal estagnava na Índia e no minúsculo Macau e em Timor havia para lá uma guarnição heterogénea composta de soldados ou deportados, multicultural (muito poucos metropolitanos, indianos ou sino-portugueses de Macau e, após 1878, algumas tropas africanas vindas de Moçambique, com mulheres e crianças). E logo aquele segredo bem guardado do colonialismo português: “O génio colonial português tinha ensinado, havia séculos, que se podia colmatar facilmente a falta de soldados regulares e a sua mediocridade manipulando os chefes gentílicos no sentido de os pôr a combater alegremente os inimigos da Coroa. Para mais, em Timor, os portugueses dispunham de um corpo suplementar au autóctones destribalizados e urbanizados, os ‘moradores’ que eram pouco dispendiosos. Bastava deixar que fossem pagos pelo inimigo do momento: o saque desempenhava o papel de pré e de reforma. O processo era ainda mais económico com os guerreiros das montanhas, os régulos (‘liurais’) e os seus nobres provisoriamente no campo dos ‘fiéis do governador’.”

Para gente menos impressionável, convém esclarecer que Timor era uma ilha de cortadores de cabeças que adoravam bater-se pelo saque e guarnecer de crânios as fortificações das suas aldeias. As autoridades de Lisboa não tinham aspirações expansionistas fora de metade da ilha, Madrid queria lançar-se numa efémera projeção para leste das Filipinas.

Dois impérios coloniais em estado crítico: os portugueses viram o Brasil tornar-se independente, tinham perdido a quase totalidade do seu primeiro império, o Oriental, apostaram em África; os espanhóis estavam agarrados `s Antilhas e às Filipinas, o Norte de África espanhol continuava a ser uma aspiração contrariado pela França e por Marrocos.

Reconheça-se a René Pélissier, o historiador francófono que melhor conhece o império colonial português, um estilo claro e colorido, provido por vezes de ironia mordente ou acerada, e bagagem informativa não lhe falta. Observa que os portugueses tinham uma história longa em Timor mas a sua sobrevivência, nos fins do século XIX, nas ilhas de Sonda, resultava de uma sucessão de retrações intermitentes, e explica os quês e porquês; os espanhóis inquietaram-se com a progressiva instalação de europeus e norte-americanos na região, e não quiseram abrir mão das Carolinas. O governador-geral das Filipinas informava com inquietação a chegada de norte-americanos e alemães, dava como indispensável a criação de uma divisão naval nas Carolinas. Era indispensável estarem presentes em Ponape. Em 1885, a Alemanha fez saber a Espanha que pusera todas as Carolinas sob a sua proteção, desencadeou-se uma ofensiva diplomática, submeteu-se o diferendo à arbitragem do Papa Leão XIII, salvaguardou-se temporariamente a soberania espanhola. Em 1887, são mortos os representantes do rei de Portugal em Timor e o da rainha de Espanha em Ponape, vão seguir-se duros combates e duas estratégias que René Pélissier escalpeliza e resume numa frase: resignação e recuo dos espanhóis, obstinação dos portugueses. A política portuguesa irá viver anos em estado de choque com o ultimato britânico e entre 1891 e o fim da monarquia conhecerá dois governadores adeptos da mão pesada: Cypriano Forjaz (1891-1894) e José Celestino da Silva (1894-1908). Ao contrário dos espanhóis, os portugueses envolvem os auxiliares indígenas, régulos contra régulos. Era uma forma de ultrapassar a desmoralização. Como recorda o historiador, no outono de 1891, numa situação de desespero financeiro, o governo português pensou em confiar Timor a uma companhia majestática seguindo o modelo moçambicano. Ultrapassada essa fórmula, iniciam-se campanhas que vão tornar Celestino da Silva um governador temível, ele tem objetivos claros: fazer com que o poder português fosse obedecido por todos, uma vez fixada a fronteira com a parte holandesa; pôr Timor a produzir café, após a rarefação do sândalo na ilha. Impôs novas regras: pilhagens, incêndios, devastação das culturas de subsistência e decapitação ritual dos vencidos.

E assim chegamos ao enraizamento português e à evaporação espanhola. Nem tudo foram triunfos para os portugueses, haverá o desastre de 1895, com o aniquilamento da coluna do capitão Câmara, o maior desastre dos portugueses na Oceânia no século XIX e provavelmente de todos os exércitos coloniais no Pacífico Sul, antes da II Guerra Mundial. A resposta a esta humilhação foi a limpeza da honra, com toda a brutalidade e chegou-se a 15 de outubro de 1896 com a autonomia administrativa de Timor, fora finalmente separada de Macau. Ponape estava envolvida numa guerra religiosa entre capuchinhos e missionários metodistas, Manila estava longe, e chegara a hora do declínio espanhol. Madrid não hesitou em vender aos alemães, por 25 milhões de pesetas, o resto dos seus arquipélagos na Oceânia, depois de perder as Filipinas, Guam e as Antilhas espanholas. Os alemães, isso sim, deram-se à brutalidade na repressão e fizeram explodir os poderes da chefatura, de modo que se pode dizer que o sistema quase feudal nas duas ilhas não voltaria a erguer-se.

Em boa hora se publica, ainda por cima numa tradução de grande qualidade, um trabalho que ilumina uma vertente praticamente desconhecida dos impérios coloniais português e espanhol.

De leitura obrigatória.

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